Aristóteles, na Poética, elege Édipo Rei, de Sófocles, a melhor das tragédias, pois se encontram nela todos os elementos componentes da engrenagem suscitadora do efeito trágico buscado por esse gênero literário, sendo, portanto, a mais completa das tragédias.
Quanto à fabulação, é possível dizer que o recorte feito por Sófocles do mito dos Labdácidas e a sua recriação no molde trágico permitem análises profícuas em relação ao personagem principal, sendo possível, por exemplo, estabelecer um paralelo entre Édipo e a Esfinge, no que tange ao caráter híbrido de ambos, que reflete a função especular que os dois personagens desempenham.
Édipo e a Esfinge ▪️ Arte: François-Xavier Fabre, 1810
A Esfinge, segundo Hesíodo, na Teogonia, v. 326, foi gerada por Équidna, a Víbora, monstro cujo corpo era de mulher, terminando, no entanto, em uma cauda de serpente em vez de pernas, e pelo cão de Gérion, Ortro, filho, por sua vez, da própria Équidna com Tifeu. Ainda segundo Hesíodo, Équidna foi gerada por Fórcis e Ceto, filhos de Pontos, o Mar, e de Gaia, a Terra; logo, ela seria neta de uma das quatro forças primordiais da Cosmogonia, a Terra, e do Mar, seu filho gerado por cissiparidade, o que a caracteriza como um ser ctônico, vinculado às profundezas da terra. É dessa linhagem que provém a Esfinge, ela mesma tendo corpo, cauda e patas de leão, asas de pássaro e cabeça de mulher, denotando a sua natureza híbrida. Ela, por um lado, é humana, ao mostrar a sua inteligência expressa em seus enigmas, e, por outro lado, é não humana, visto que devorava vorazmente os transeuntes que não conseguissem decifrá-los.
Escultura de Équidna, a mãe de todos os monstros, nos jardins de Bomarzo (Itália)▪️ Arte: Simone Moschino
Apolodoro, em sua Biblioteca Mitológica, relata que, enviada por Hera, ela se estabeleceu no Monte Fício, Φίκιον, na região da Beócia, nos arredores de Tebas, tendo recebido esse nome provavelmente por ser o local onde se fixou a Esfinge (o nome do monte possui a mesma raiz Φίκ presente no nome Esfinge). De lá, lançava aos transeuntes um enigma que conhecera das Musas. Muitos pereceram, até que Édipo, que por ali passava, decifrou-o, levando a Esfinge a se precipitar do alto da acrópole.
Em Édipo Rei, de Sófocles, ao longo da trama, a Esfinge é mencionada cinco vezes, cada uma das menções com uma designação diferente, carregando um sentido diverso, condizente com o contexto em que está inserida. Já no Prólogo, v. 36, ela é denominada σκληρᾶς ἀοιδοῦ (σκληρὰ ἀοιδός), rude, dura, inflexível cantora. O sacerdote,
Édipo Explica o Enigma da Esfinge ▪️ Arte: Jean-Auguste-Dominique Ingres
dirigindo-se em súplica a Édipo, que, sem ajuda humana nenhuma, mas sob auxílio divino, venceu a Cantora de Enigmas, nomeia-a inflexível, dura, pois ninguém houvera conseguido abatê-la, atingi-la anteriormente. É irônica a armadilha do enigma da Esfinge, pois Édipo, o decifrador de enigmas, decifra apenas parte dele, uma vez que a resposta completa seria um homem específico, o próprio Édipo, sobre quem ele nada sabe. Trata-se da cegueira do herói trágico, já insinuada na solução do enigma, a qual o caracterizará em suas ações, culminando na automutilação dos olhos, tal é o enlace entre Édipo e a Esfinge. E é irônico, pois o suposto saber do herói, o qual o favorecerá com a atribuição de uma elevada posição de poder e de riqueza, também será responsável por sua desgraça, por sua derrocada. É o saber que denota um não saber.
O entrelaçamento entre Édipo e a Esfinge também converge para o caráter duplo existente em ambos, a saber, o humano e o não humano. Ambos são híbridos em sua constituição. Em relação à Cantora de Enigmas, a parte humana está representada pela cabeça de mulher que possui, mas pode ser melhor constatada por sua inteligência, expressa na elaboração dos enigmas. A parte não humana condiz com a sua constituição física, formada por corpo, patas e cauda de leão e asas de pássaro, a qual remete à sua natureza selvagem, presente em sua voracidade ao devorar aqueles que não conseguiam solucionar os seus enigmas.
Arte: Gustave Moreau
Em relação a Édipo, é possível analisar o seu caráter híbrido por dois vieses, a saber, quanto aos papéis duplos que ele exerce em sua trajetória, como também quanto às forças divina (δαίμων) e humana (ἦθος) que impelem as suas ações. No primeiro caso, há duplicidade em todas as funções que o personagem exerce. A princípio, ele se torna tirano de Tebas ao receber, por aclamação, a mão da rainha em casamento e é, ao mesmo tempo, herdeiro do reino de Corinto, uma vez que é filho de Pólibo, portanto, o futuro rei. Mas, na realidade, ele é o verdadeiro rei de Tebas, por pertencer à família dos Labdácidas, o legítimo herdeiro do trono, sendo, por outro lado, tirano de Corinto.
Além dessa duplicidade respeitante à posição que ocupa no poder, Édipo é, concomitantemente, esposo e filho da mesma mulher, pai e irmão das mesmas crianças, salvação e condenação da cidade e do povo. No segundo caso que corrobora o caráter híbrido de Édipo, existem duas forças tensionais que impulsionam as ações do herói, a saber, o daímon, parte não humana, expressa pela contaminação familiar, advinda da hýbris transcendental que o herói carrega em si, representada pelas cicatrizes nos pés, advindas da exposição ordenada por Laio, seu pai, quando ainda era bebê, e o éthos, parte humana, que diz respeito ao
Édipo, já cego, com sua filha, Antígona ▪️ Arte: Antoni Brodowski, 1828
caráter do herói, impetuoso diante das situações de confronto, impetuosidade observada, por exemplo, nos diálogos com Tirésias, com Creonte e com Jocasta no texto sofocliano. Ele também é excessivo, seja na tomada de decisões, seja em relação ao que sente, ao páthos, tanto antes quanto depois do desenlace da peça, que ocorre a partir da descoberta da sua verdadeira identidade. Já no início do drama, o padecer de Édipo suplanta o de todos os cidadãos, quando a peste assola a cidade, e, no desfecho da trama, ele, além do sofrimento causado pela descoberta dos fatos, automutila-se, perfurando os olhos e, caso pudesse, mutilaria também os ouvidos, aumentando ainda mais o seu sofrer.
Édipo e a Esfinge também se aproximam em outros aspectos. Ambos são mortíferos, vinculam-se à peste que devasta Tebas, trazendo destruição e contaminação. Além disso, os dois seguem rumo à própria destruição: ela se joga no precipício ao ter o seu enigma desvendado, e ele se automutila, tornando-se um morto-vivo. A voracidade da Esfinge equipara-se à avidez de Édipo na busca pelo assassino do antigo rei.
Carícias da Esfinge ▪️ Arte: Fernand Khnopff, 1896
Assim, os dois personagens se imbricam, e, mesmo a Esfinge tendo morrido no início da trama, ela está presente, pois permanece em Édipo como força propulsora da realização do seu destino, uma vez que ele desvenda o enigma, mas apenas parcialmente. Ao responder que o homem é o ser que, pela manhã, anda com quatro pés, pois engatinha; à tarde, com dois, uma vez que, sendo adulto, anda com os dois pés; e, à noite, com três, pois, ao chegar à velhice, precisa de uma bengala para se locomover, ele não atentou para o fato de que ele era esse homem. Édipo sai bebê de Tebas, amarrado pelos pés e pelas mãos; volta adulto, caminhando sobre os seus dois pés; e, ao final, cego, sai de Tebas apoiando-se em uma bengala.
Era preciso que ele decifrasse o restante do enigma, investigasse, seguisse as pistas que apareceram em seu caminho, buscasse a verdade, para que, assim, decifrasse a si mesmo.