Existe um mito muito difundido no Brasil de que "nome próprio não tem regra". Essa ideia, alimentada por décadas de registros civis feitos ao sabor da vontade (ou do desconhecimento) de pais e escrivães, gerou uma confusão ortográfica que persiste até hoje. No entanto, do ponto de vista da norma-padrão da língua portuguesa,
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a realidade é outra: os substantivos próprios devem seguir as mesmíssimas regras de acentuação dos substantivos comuns.
Se você escreve "café" com acento por ser uma oxítona terminada em "e", deve escrever "José" pelo exato mesmo motivo. Se "caráter" é acentuado por ser uma paroxítona terminada em "r", "Válter" também precisa desse sinal.
Por que a confusão existe?
A confusão nasce no cartório. Historicamente, o registro civil brasileiro aceitou grafias arcaicas ou inventadas. É por isso que encontramos tantos "Lycias", "Thiagos" e "Luizes" (com z). Embora o nome registrado na certidão seja o "legal" e deva ser respeitado em documentos oficiais, a gramática continua valendo para a escrita cotidiana e para a clareza da pronúncia.
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Os erros mais comuns
Para entender como aplicar as regras, vamos observar alguns nomes que costumam aparecer grafados incorretamente em textos jornalísticos, convites e redes sociais:
1. As paroxítonas terminadas em "i" e "is"
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Muitas pessoas escrevem "Vitoria" ou "Thais" sem acento. Errado.
▪ Vitória: É uma paroxítona terminada em ditongo crescente. Segue a regra de "história" ou "armário".
▪ Thaís: Aqui temos um hiato (a-ís). A regra diz que o "i" tônico, sozinho na sílaba (ou com "s"), deve ser acentuado. É o mesmo caso de "país" ou "saída".
2. As Oxítonas Terminadas em "a", "e", "o"
O acento serve para marcar a sílaba tônica. Sem ele, a pronúncia muda.
▪ André, Renê, Eloá: Todos precisam de acento. Sem o sinal, leríamos "Andre" (paroxítona, como "sangue").
▪ Cauã: O til é uma marca de nasalidade, mas também indica a tônica nesse caso.
3. O caso de "Luís" vs. "Luiz"
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Aqui está o erro campeão.
▪ Se o nome termina com "s", ele deve ter acento: Luís (regra do hiato, como em "baú").
▪ Se o nome termina com "z", ele não tem acento: Luiz.
Isso acontece porque as palavras terminadas em "z" já são naturalmente oxítonas na língua portuguesa (como "feliz" ou "juiz"). Colocar acento em "Luiz" é um erro de redundância.
4. Léo ou Leo?
Leo. Muitas pessoas insistem em escrever Léo, mas “Leo” não deve receber acento, pois trata-se de um monossílabo tônico em “EO”. Acentuam-se apenas os monossílabos tônicos terminados em EI, OI, EU. Se fosse “Leu”, receberia acento pelo mesmo motivo de “céu”. Curiosamente, até os “descorretores” automáticos de celulares costumam sugerir o acento, reforçando o erro.
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Impacto do Novo Acordo Ortográfico
Em vigor desde janeiro de 2016, portanto, há dez anos, a reforma ortográfica também provocou mudanças em nomes próprios paroxítonos em “Ei” e “Oi”. Pela regra atual, não se acentuam mais “Coreia”, “Andreia”, bem como substantivos comuns, a exemplo de “geleia”, “assembleia”, “joia”, “boia”, entre outros.
A identidade e o respeito à norma
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É verdade que ninguém vai "corrigir" o seu documento de identidade. Se seu nome foi registrado como "Vania" sem acento, legalmente ele permanecerá assim. No entanto, ao escrever um texto acadêmico, uma notícia ou um convite formal, aplicar a acentuação correta demonstra domínio da língua e cuidado com a clareza.
Acentuar o nome de alguém não é apenas uma questão gramatical, é uma forma de garantir que o nome seja lido com a entonação correta. Um "Ícaro" sem acento corre o risco de virar um "Icáro" na boca de quem lê. A acentuação funciona como um guia ao leitor para indicação acerca do som correto das palavras, de objetos comuns ao nosso bem mais precioso – nosso nome.