Aqui, lendo esse cronista/poeta/psicólogo/terapeuta/cantor, exímio nas trilhas sonoras dos seus textos e da sua vida, movido às coisas belas, ditas e não ditas, e tantas outras coisas, o seu texto “When I’m Sixty-Four”, n'A União de 27 de março, fiquei parodiando a minha própria música, ou trilha.
Sempre gostei tanto dessa música dos Beatles e, assim como Nelson, achava que ela estava nas minhas lonjuras do tempo. Tinha um som melancólico que me deixava triste e alegre, sabe? E, quando completei essa idade — ih, já há algum tempo —, cantarolei-a no meu bolo com pastel de nata, entre os familiares. Agora dei para cantar! Sou um tantinho mais velha que esse amigo querido e, perdendo os cabelos, já rarefeitos também.
Música dos Beatles que nos faz imaginar a vida aos 64 anos, pergunta se o amor e o cuidado ainda permanecerão e celebra a fidelidade, a companhia e a beleza de envelhecer juntos
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E na minha casa só tinha uma estantezinha de livros do meu pai, Romero. Filosofia. Lembro que li O Mundo e Eu (não lembro o autor) e O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. Minha leitura tinha nome: os gibis. E os paradidáticos da escola. Não era leitora de romances nesses tempos. E uns LPs de Metais em Brasa que, até hoje, quando escuto, choro de saudades do meu pai. Só depois comprei meus compactos dos Beatles e aí descobri o grito “Help!”.
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Quanto à educação dos pais, os meus também tiveram os seus limites. A minha mãe, por se fazer presente demais — invasiva até —, e o meu pai, ausente demais. Amor? Essa palavra de luxo era transmitida pelos cuidados todos: comidinha e chás, e roupa feita em casa. Economia doméstica aprendi com a minha mãe, uma mulher desdobrável, para citar Adélia. Sim, assim como os pais de Nelson, os meus pais também tiveram um casamento difícil, apartados, amargurados, ressentidos, e, pela geração deles, aquele modelo era indissociável. Nós, filhas meninas, não entendíamos aquele não lugar de amor e companheirismo e sofríamos, como tantas outras que, de uma forma ou de outra, tinham lares tóxicos e/ou em desarmonia. Separação não existia. E a minha mãe não tinha nem família
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Ah, o dom da invisibilidade, Nelson. Com mamãe era impossível. Ela estava em todas as partes. Onipresente. Então eu desenvolvia outros métodos: mentiras e mentiras. Aprendi logo cedo que essa seria uma estratégia, um esconderijo. Mas, claro que, nessa época, mentiras inocentes, por assim dizer. Mas também, logo cedo, “quebrei o mecanismo”. Subi no salto e exigi um pouco de liberdade, que era ir ao cinema sozinha com o namorado, a pé, na sessão das 14h30. Mas, quando se tem os hormônios borbulhantes, sempre se dá um jeito... Embarquei na minha própria viagem, Nelson, e paguei também os preços: da imaturidade, da opressão sexual, dos medos. A minha rapadura foi bem dura e amarga. Mas conquistei os meus caminhos, sim.
Nelson Barros, escritor, psicoterapeuta e colunista de A União (anos 1980) ▪️ Facebook: @nelson.barros.56










