No natural da vida, o esquecimento, a ausência de ensaios. O passado pode ser presente e o presente já é passado, ou já é futuro? A primavera e o seu improviso de trazer flores nunca iguais, mas sempre condensando eflúvios e belos tons multicoloridos. As estações desse ciclo estão para nos recordar o que fizemos em cada etapa.
Arte: Ingres, 1845 ▪ Frick Collection, NY
Lamentável é que muitas vezes temos apenas os flashes, mas não as sensações. Valeu a pena aquele verão?
A natureza pouco inova se não houver a interferência do homem. A memória é Deus. A novidade é a nossa relação com esse Deus. Já o tempo; nunca fica velho. No seu devir é infiel. Santo Agostinho chamou isso de “presente do passado”, são as recordações. O espírito implicado na razão sem razão.
Você é fiel a tudo que já viveu? Há fidelidade nos seus sonhos? A preocupação é como a ocupação de um futuro que teme não agir conforme a nossa vontade, mas desde quando vontade é sinônimo de necessidade? Pode uma pessoa apreensiva com a poluição atmosférica não se preocupar com o fato de ser fumante e o seu pulmão ser tão poluído quanto a atmosfera terrestre? Coerência? Não! Despreocupado consigo, angustiando-se com os outros? É tão mais fácil esquecer o presente do que o futuro?
O “agora” tem menos força que o nada? O que há de vir nos será palpável enquanto estivermos no “aqui”. Mas vejamos os loucos; parece haver uma grande saúde física neles, provavelmente
Arte: Ingres, 1811 ▪ Galeria Nacional, Londres
por estarem (alguns) inconscientes da temporalidade. Disseram-me que nos hospícios poucos são os que adoecem o corpo. E Freud dizia que a sanidade psíquica, de certa forma, alimenta-se do esquecimento.
E se nós não nos esquecêssemos da grande parte das informações apreendidas no dia a dia? Possivelmente seríamos ainda mais neuróticos! Todavia, no pensamento está a dignidade do homem. É necessário recordar. “Recordar é viver”, como sugeria a poeta Cecília Meireles. Recobrar as virtudes deve ser um exercício constante, e por que os defeitos não? Relembrando as imperfeições para que assim surjam os aperfeiçoamentos.
A fidelidade está intimamente ligada à memória, pois uma pessoa só poderá ser fiel àquilo que lembra. Vejamos o caso do ressentimento, que podemos definir como uma lealdade a um sentimento ruim, com ódio, amarguras. Nota-se que nem sempre a fidelidade será uma virtude e que costumam confundi-la. Como quando há uma ideia fixa por mesquinharias, futilidades – ambição má.
Arte: Ingres, 1810 ▪ Louvre, Paris
Quando falamos da fidedignidade nos relacionamentos de amizade, amor, devemos rememorar que a permanência do gostar da pessoa terá garantia se ambas as partes se adaptarem. “Não se banha duas vezes no mesmo rio”, nem se ama duas vezes uma mesma pessoa. Não seremos sempre os mesmos. Na verdade, amamos o momento e admitimos ser fiéis ao sentimento. Então, se quisermos permanecer fiéis, devemos conservar vivo o melhor de cada um.