“Los viajes son como pequenas vidas”
Stanislaw Ignacy Witkiewicz
(escritor, fotógrafo e filósofo)
Quando viajo, sofro da síndrome pré-viagem. Tenho angústias e ansiedades e me pergunto: pra que fui inventar isso? Quando volto, sofro de banzo. Tenho saudades dos lugares e levo alguns dias feito um zumbi, aterrizando lentamente. Vá entender! Mas é sempre um sofrimento. Custa-me. E, no meio, a explosão de felicidade e realização.
Foto: Unsp
Catorze dias no Marrocos! Estou sem fala, literalmente, e sem palavras para escrever a minha crônica costumeira. Depois de quase dez horas de voo para São Paulo, dormir, mais atrasos e chegar a João Pessoa com turbulências de me dar arrepios, estou ainda zonza e sem acreditar nesse sonho realizado.
Marrocos. Casablanca. Fiz uma escala nesse país em 1977, a caminho de um intercâmbio nos EUA. Uma jovem menina que se maravilhou no aeroporto. Só depois soube de “Um beijo é só um beijo”, As Time Goes By! Mesquita grandiosa. Tâmaras. Rabat, o pôr do sol, o mausoléu
Ana Adelaide Peixto (Marrocos, 2026) ▪️ Acervo da autora
do Rei Mohamed V e jardins em estilo andaluz. Cuscuz e tajines. Não como carne, muito menos carneiro. Mas esse aí, com ameixas, azeitonas e grão-de-bico, não resisti e provei. Chá de hortelã a toda hora, naquele ritual: um fio alto de água fervente num copinho lindo, cheio da erva, refrescante e quentinho. Depois, pegar a estrada com o nosso guia Hassan, um guia gentilíssimo, falante de português e sabedor do humor e das gírias. Cantarolava “Ô, que calor, owow owow” conosco, quando o clima esquentava. Frio pela manhã e à noite, e calor no fim da tarde. Inventamos alguns memes, e “Shukranzão” virou nosso bordão para agradecer. “Shukran” para “obrigada”. Mas era pouco...
Chefchaouen, cidade azul. A lembrar a Grécia, Óbidos e tantas outras vilas azuis. Outra medina, os souks (mercados), e fomos a um rooftop ver o pôr do sol. As ruelas cheias de tendas. Todos os brincos e colares do mundo. Não resisti e comprei o primeiro. Pechinchar é preciso. Mas não só... Não se bebe álcool nesses lugares. Experimentei suco de abacate com tâmaras — um néctar. Sem falar no suco de romã pelo meio das medinas. O de laranja, doce mel. E os “chifres de gazela” (biscoitinho típico). E ouvimos as rezas todos os dias, nos minaretes. O sagrado se instala.
Ana Adelaide Peixoto (Marrocos, 2026) /// Interior do Mausoléu do Rei Mohamed V (Rabat, capital do Marrocos) ▪️ Acervo da autora
Da cidade azul fomos a Volubilis, sítio arqueológico, ruínas de uma cidade romana do século III, Patrimônio Mundial da UNESCO no Marrocos. Uma paradinha em Meknès, uma das cidades imperiais. Fotos e mais fotos diante daquela natureza ocre e aparentemente inóspita, tudo quebrado pelos arcos imponentes e mosaicos belíssimos. Nenhuma foto cabe em tanta beleza!
Fez — uma bagunça aos olhos. A mais antiga das cidades imperiais. Mesquita dos Andaluzes, curtumes, bairro de olarias, a medina, os edifícios hispano-árabes, as medersas e Nejjarine. Lembrei da novela “O Clone”. Um guia tínhamos, que andava a galope
Ana Adelaide Peixto (Marrocos, 2026) ▪️ Acervo da autora
de dromedário, e eu, com meus passos lentos, atrás. Comprei um tapete, depois de muito
negociar. Na medina, a gente enlouquece: tapetes, tapeçarias, pratas, cobres, estanhos, latão, cerâmicas, panos e mais panos, objetos — tudo muito e de difícil decisão sobre o que comprar. Almoçamos num restaurante de rainha: galinha ao limão-siciliano com cuscuz. Um riad antigo, e a gente a imaginar os seus moradores de antigamente. Terraços, lustres imensos, dourados, incensos. O jantar foi no Café Clock, famoso pelo hambúrguer de camelo. Mas aí é querer demais. Eu pensei que ia me perder para sempre naquele labirinto. Ruelinhas de centímetros e uma portinha que poderia dar para o nada. Abre-se um lugar deslumbrante e uma comida perfumada. E carneiro, carneiro!
De Fez seguimos rumo ao deserto do Saara. Pelo meio do caminho, tinha Midelt, Ifrane, Vale do Ziz, Erfoud e, finalmente, Merzouga. Eu não queria ir. Tinha o filme O Céu que Nos Protege no meu imaginário. Medo. Mas o chamamento era grande. Pelo caminho, fomos às incríveis paisagens do Médio Atlas. A Suíça marroquina. A floresta de cedros — macacos, me mordam. Vale do Ziz, aldeias fortificadas que anunciam o oásis pré-saariano. Chegada às dunas de Merzouga, dromedários.
Ana Adelaide Peixoto e Dodora Diniz (à dir) (Deserto do Saara, Marrocos, 2026) ▪️ Acervo da autora
E lá fomos nós, numa 4x4, com Habib a subir dunas imensas e alaranjadas, o infinito de areia e filas de camelos que passavam com turistas que assim se aventuravam. Eu rezei, pois achei que fosse despencar daquelas dunas. Depois de meia hora avermelhada, chegamos às tendas. Aí foi de filme. Uma tenda toda minha, berbere, com tapetes, lustres rebuscados e magia. Mas me lembrei dos bichos. Cobras?
Ana Adelaide Peixto (Marrocos, 2026) ▪️ Acervo da autora
E o guia disse: sim, e também escorpiões. Pronto, perdi a fleuma. E, ao entrar no banheiro, dei de cara com uma aranha grande, cor de areia. Dormi acabrunhada, mas sem perder a magia. Antes, porém, tivemos fogueira, danças de tambores. E Habib, que dirigiu perfeitamente nas dunas, também era quem servia o jantar e quem tocava o atabaque. Logo fomos dançar e cantar — No Woman, No Cry —, um brasileiro pegou uma guitarra e dedilhou acordes de Gil. Uma noite escura, estreladíssima, como no Cariri, que havia contemplado há dois anos. E uma imensidão de sentimentos e insignificância.
Do deserto seguimos viagem para as Gargantas do Todra e o Vale do Dades, para enfim chegarmos a Marrakech, meu sonho de anos.