É padecer no paraíso! Só um homem pode ter inventado uma definição dessas, a exaltar-nos a esse lugar impossível de se chegar e minim...

Ser Mãe

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É padecer no paraíso! Só um homem pode ter inventado uma definição dessas, a exaltar-nos a esse lugar impossível de se chegar e minimizar a dor de ser mãe com a promessa desse lugar divino.

A minha geração queria casar e ser mãe, sem maiores questionamentos, embora tivesse sonhos mais abrangentes: estudar, trabalhar, viajar.
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Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Casei-me muito jovem (como escapar da paixão jovem?), aos dezenove anos, e, no início do casamento, não queria filhos, pois tudo estava começando, e deixei a maternidade para depois. Casei-me pensando que era para toda a vida. Ledo engano para quem se casou em 1973, em meio a todo o rebuliço dos costumes e à revolução sexual borbulhando. Separei-me sem filhos, e isso me doeu, pois eu não estava preparada nem para me separar, nem para não ter sido mãe naquele momento de perda. Tudo sem me perguntar intimamente o que eu queria. Pergunta difícil para as mulheres, uma vez que estamos sempre subjugadas às vontades do pai, do marido e da sociedade.

Anos depois, fiquei grávida. E sem estar casada. Mudança na trajetória. Meu pai me olhou solidário e me acolheu, junto com a minha mãe. Novamente, nunca me perguntei se queria filhos. Achava que ser mãe era o natural e tinha a certeza de que queria viver essa experiência revolucionária na vida de uma mulher. Vivi de perto o quanto essa experiência foi divisora de águas na minha vida. Sempre falo que a maternidade me deu régua e compasso. Mas nem tudo foram flores. Na minha geração, não tínhamos blogs, grupos de apoio às mulheres, tantos compartilhamentos sobre fraldas, puerpério, depressão pós-parto, solidão, carga mental.
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Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Nada disso fazia parte do nosso conhecimento. Havia apenas a solidão profunda e um novo estado que era um misto de felicidade e desespero. Acompanhei, de olhos bem abertos, algumas amigas cujos maridos não compareciam na paternidade; outros queriam continuar a vida livre, apesar do filho, como se nada tivesse mudado e um novo jeito de viver a parentalidade não se fizesse presente.

Mas aí li um livro que me deu muitas respostas: Of Woman Born – Motherhood as Experience and Institution (1977), da feminista, poeta, escritora e pensadora americana Adrienne Rich, e uma clareira se abriu. Depois vieram outros livros, como Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno, de Elisabeth Badinter, de 1980. Obras que questionaram a naturalidade do instinto materno, argumentando que o amor materno é construído histórica e socialmente.

No meu caso, não se falava em rede de apoio. As mulheres abastadas tinham enfermeira, babá, empregadas para isso e aquilo e, com uma semana de paridas, estavam de batom, acompanhando os maridos em jantares e viagens. Eu nunca tive nada disso e, sozinha, de camisola,
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Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
com os peitos cheios de leite, um sono absurdo e chorando diante do desconhecido, vivia tudo sozinha. Os maridos estavam sempre no trabalho, com as vidas seguindo seus cursos. Claro que, no meu primeiro parto, passei uma semana na casa da minha mãe, que me deu muito apoio, tentando equalizar os cuidados com o bebê e a amamentação — outro capítulo à parte, de falta de treino, peitos empedrados e dores.

Sem falar no parto normal dos meus dois filhos: por falta de profissionais experientes, sofri e pari com todas as dores do mundo, sem doula e sem anestesia. Na primeira vez, com parto induzido e horas de trabalho de parto. Na segunda, seguida de hemorragia, pois o meu bebê era enorme, e não me orientaram para dietas mais restritivas. Engordava muito pouco na gravidez e achava isso suficiente. Não era.

Enfim, hoje me inquieto e me apaziguo quando assisto a um filme como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, um drama sombrio sobre uma psicóloga à beira de um colapso, tentando equilibrar o cuidado da filha doente, a ausência do marido e a vida em um motel após o teto de sua casa desabar. Ou à série da Netflix All Her Fault (2026),
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Cena de Toda a culpa é dela ▪️ Fonte: Prime Video
que se traduz literalmente como “Toda a culpa é dela”. A expressão indica que a responsabilidade total por um erro, falha ou situação negativa é atribuída a uma mulher. Tanto o filme quanto a série destacam a sobrecarga física e subjetiva de uma mãe, além dos modelos historicamente impostos para que sejamos perfeitas, altruístas e sem uma vida verdadeiramente nossa.

Fico feliz de ver hoje as novas gerações — mães e pais — compartilhando dilemas e agonias; os pais mais participativos; o fato de termos dado nome às coisas; e de as redes de apoio realmente acontecerem. Como diz o provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Eu, infelizmente, só tive a mim mesma, a minha saúde, o meu amor, os pais dos meus filhos como coadjuvantes e uma funcionária sozinha para dar conta da cozinha e da casa, a quem sou grata até hoje. E falo do lugar de uma mulher branca e privilegiada. Pois, se lançarmos o olhar para além, teremos outro texto.

Viva as mães. E todas as suas complexidades de ser e existir. Sem padecer e sem paraíso!

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