É padecer no paraíso! Só um homem pode ter inventado uma definição dessas, a exaltar-nos a esse lugar impossível de se chegar e minimizar a dor de ser mãe com a promessa desse lugar divino.
A minha geração queria casar e ser mãe, sem maiores questionamentos, embora tivesse sonhos mais abrangentes: estudar, trabalhar, viajar.
Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Anos depois, fiquei grávida. E sem estar casada. Mudança na trajetória. Meu pai me olhou solidário e me acolheu, junto com a minha mãe. Novamente, nunca me perguntei se queria filhos. Achava que ser mãe era o natural e tinha a certeza de que queria viver essa experiência revolucionária na vida de uma mulher. Vivi de perto o quanto essa experiência foi divisora de águas na minha vida. Sempre falo que a maternidade me deu régua e compasso. Mas nem tudo foram flores. Na minha geração, não tínhamos blogs, grupos de apoio às mulheres, tantos compartilhamentos sobre fraldas, puerpério, depressão pós-parto, solidão, carga mental.
Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Mas aí li um livro que me deu muitas respostas: Of Woman Born – Motherhood as Experience and Institution (1977), da feminista, poeta, escritora e pensadora americana Adrienne Rich, e uma clareira se abriu. Depois vieram outros livros, como Um Amor Conquistado – O Mito do Amor Materno, de Elisabeth Badinter, de 1980. Obras que questionaram a naturalidade do instinto materno, argumentando que o amor materno é construído histórica e socialmente.
No meu caso, não se falava em rede de apoio. As mulheres abastadas tinham enfermeira, babá, empregadas para isso e aquilo e, com uma semana de paridas, estavam de batom, acompanhando os maridos em jantares e viagens. Eu nunca tive nada disso e, sozinha, de camisola,
Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Sem falar no parto normal dos meus dois filhos: por falta de profissionais experientes, sofri e pari com todas as dores do mundo, sem doula e sem anestesia. Na primeira vez, com parto induzido e horas de trabalho de parto. Na segunda, seguida de hemorragia, pois o meu bebê era enorme, e não me orientaram para dietas mais restritivas. Engordava muito pouco na gravidez e achava isso suficiente. Não era.
Enfim, hoje me inquieto e me apaziguo quando assisto a um filme como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, um drama sombrio sobre uma psicóloga à beira de um colapso, tentando equilibrar o cuidado da filha doente, a ausência do marido e a vida em um motel após o teto de sua casa desabar. Ou à série da Netflix All Her Fault (2026),
Cena de Toda a culpa é dela ▪️ Fonte: Prime Video
Fico feliz de ver hoje as novas gerações — mães e pais — compartilhando dilemas e agonias; os pais mais participativos; o fato de termos dado nome às coisas; e de as redes de apoio realmente acontecerem. Como diz o provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Eu, infelizmente, só tive a mim mesma, a minha saúde, o meu amor, os pais dos meus filhos como coadjuvantes e uma funcionária sozinha para dar conta da cozinha e da casa, a quem sou grata até hoje. E falo do lugar de uma mulher branca e privilegiada. Pois, se lançarmos o olhar para além, teremos outro texto.
Viva as mães. E todas as suas complexidades de ser e existir. Sem padecer e sem paraíso!










