Estamos vendo desmoronar o mundo onde nasceu Augusto dos Anjos, assim como desmoronaram os engenhos da família com o fim da mão de obra escrava.
Os caminhos do poeta estão esburacados.
Aqui, no antigo Engenho Pau d’Arco, nesta tarde, sob o fósforo alvo do sol, temos a visão da paisagem desolada onde o poeta se deixou embriagar pelo ar puro da poesia que as crianças recolhem. Vendo a ruína coletiva do seu mundo, girando meu olhar para o tamarindo e todo o seu entorno, com o rio Una, a casa-grande, a capela e o lago pedindo socorro, aumenta a desolação alimentada pelo semiabandono.
Tamarindo de Augusto dos Anjos (Sapé-PB) ▪️ Foto: José Nunes
Estar debaixo deste tamarindo adormecido, com galhos retorcidos pelo tempo, mas que guardam a neblina das madrugadas, em cujas entranhas retêm o grito desesperado, gerado pela agonia alimentada pelo desprezo público para com um patrimônio mítico, cósmico e histórico. Um pedaço da Paraíba é varrido do mapa cultural, lentamente. Patrimônio que deveria ser cuidado com carinho e a atenção merecida, porque em cada galho dessa árvore se carrega a poesia de Augusto dos Anjos.
O mata-pasto e a gramínea infestaram os caminhos até a árvore da poesia, a casa da ama de leite, com regos e ondulações que dificultam o acesso e enfeiam a paisagem em todo o seu entorno. Toda a “flora moça” do tempo do poeta soluça, agoniza.
Engenho Pau d'Arco (Sapé-PB) ▪️ Foto: Milton Marques Júnior
O Engenho Pau d’Arco era uma câmara nupcial:
*Os ventos vagamundos batem, bolem*
*Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira...*
*E a alma dos vegetais rebenta inteira*
*De todos os crepúsculos do pólen.*
*(Poema "Gemidos de Arte")*
Tamarindo de Augusto (Engenho Pau d'Arco) ▪️ Foto: José Nunes
*Nos tempos e nas outras eras,*
*quantas flores! Agora, em vez de flores,*
*Os musgos, como exóticos pintores,*
*pintam caretas verdes nas taperas.*
Parece que o esforço de manter viva a memória do poeta naquele lugar se esfacelou, mesmo que, em outros lugares, solitários apaixonados por sua poesia tentem manter viva a memória desse que ganhou imortalidade.
José Nunes no Engenho Pau d'Arco, em Sapé (PB) ▪️ Acervo do autior
Apesar do sol que se esparramava naquele dia e da lua que o aclara, “este Engenho Pau d’Arco é muito triste”. Pode não ser o lugar triste, mas a situação entristece.
Tudo ali é monotonia; dessas monotonias que distanciam as pessoas e assombram. O lugar que outrora cheirava poesia já não tem a natureza que institui “a luz do cérebro que pensa”. O tamarindo ainda não morreu; agoniza. Ainda há simbiose entre a natureza e o homem, o poeta e a árvore, com a poesia renovando os sonhos que a alma carrega.
O ronco das noites continua escondido, sem que ninguém consiga agarrá-lo, esperando a neblina do alvorecer, até que comece um novo tempo.
Retornando, naquela tarde, do velho Engenho Pau d’Arco, fui buscar respostas na poesia de Augusto, mesmo que a resposta esteja adormecida nas gavetas da burocracia.









