Todas as famílias infelizes se parecem; cada família infeliz, é infeliz a sua maneira. Liev Tolstói A família se revela menos co...

E os filhos cresceram!

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Todas as famílias infelizes se parecem; cada família infeliz, é infeliz a sua maneira. Liev Tolstói
A família se revela menos como espaço de encontro ou pertencimento e mais como uma arquitetura da ausência, sustentada por existências mínimas, silêncios e tudo aquilo que nunca conseguimos dizer. Eduardo Reis, Prof UFBA
Quando temos filhos, passamos um longo tempo da vida cuja prioridade são eles. Foi assim comigo. Com a maioria das mães. E o cotidiano nos atropela com os cuidados da maternagem. “Quer um suquinho? Tá com sono? Vem pra mamãe!” Os filhos crescem e a gente esquece disso. Ou pelo menos alguns cuidados continuam no automático: “lanchou? Tá cansado? Quer almoçar agora?” E quase que nem as funções mais primitivas,
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seguimos com os filhos, enquanto eles moram conosco. E no Brasil essa cultura é assim. Filhos moram com os pais até se casarem. Nos outros países, eles saem para fazer faculdade e nunca mais voltam à casa paterna. A vida adulta está em algum lugar longe.

Pois quando os meus filhos ficaram adultos, mesmo morando em casa comigo, eu comecei a me questionar qual o meu papel na vida deles. Com certeza não seria mais o de perguntar: “quer lanchar?” E coisas do dia a dia. Embora eu o fizesse quase automaticamente. E me preocupava em como me posicionar presente na vida dos meus filhos, com as questões adultas e mais profundas da vida deles, mas também de, não ser invasiva, grude, dependente, e a me lembrar do ditado que: “uma boa mãe é aquela que se faz desnecessária”. Quando o meu companheiro estava por aqui na vida, essas questões se diluíam e eu podia dividir com ele que, muito sábio me dizia: “que nada, deixa esses meninos ganharem a rua, o mundo, a vida”. Mas ele já era o outro extremo. E até hoje, quando eles já moram nas suas casas e são autônomos, eu ainda me pergunto do meu papel de mãe. O de estar presente, mas não muito.
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Ausente, mas não muito. E esse equilíbrio não é fácil.

Pois pensei em tudo isso ao assistir ao filme de Jim Jarmusch, Pai, Mãe, Irmã, Irmão (na plataforma Mubi), vencedor do Leão de Ouro 2025. Três Histórias sobre a distância de filhos adultos e seus pais. As ausências. Os vazios intransponíveis.

Constrangimentos de visitas protocolares. Quem são os nossos pais? Quem são os nossos filhos? Uma alegria rever Tom Waits (Down by Law); Charlotte Ramplig (O Porteiro da Noite), e ainda Cate Blanchett e grande elenco, em histórias ambientadas nos EUA, Dublin e Paris. “Um fio invisível atravessa os três episódios. Jarmusch o constrói a partir de dois motivos recorrentes: o Rolex falso que circula entre os personagens e as aparições de jovens andando de skate. Ambos funcionam como signos de uma temporalidade suspensa. O Rolex, símbolo da precisão e do controle do tempo, aparece como falsificação. Já os skatistas surgem em câmera lenta, deslizando pela cidade sem finalidade aparente. De um lado, o tempo adulto das responsabilidades e expectativas; de outro, um tempo suspenso, contemplativo”. (diz o Prof. Eduardo Reis, da UFBA).

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Tom Waits, em Pai Mãe Irmã Irmão (2025) ▪ Imdb
No primeiro episódio, Pai, o personagem de Tom Waits, recebe a visita dos filhos, protagonizados por Adam Drive e Mayim Bialik, num lugar longe e de paisagem plácida e monótona. Uma casa bagunçada, arrumada de última hora, e que precisa de reparos, quase nunca feitos, e quando sim, com o dinheiro emprestado secretamente pelo filho. O vazio e os silêncios perturbadores. Água e chá são servidos para a falta de assunto. Pouco tempo de não conversa para logo logo os filhos irem embora, sem muito saber como lidar com a presença/ausência daquele pai velho e distante. Logo assistimos que a sua solidão não é bem assim tão solitária. Ele por si só também não sabe o que fazer com aqueles filhos adultos.

O segundo episódio, Mãe, Charlotte Rampling, recebe as duas filhas, vividas pelas atrizes Cate Blanchett e Vicky Krieps, também distantes. Flores, chás e biscoitos são postos numa mesa silenciosa e igualmente constrangedora. Aliás, essa é a palavra presente: constrangimento! As filhas nunca leram os livros escritos pela mãe, uma escritora importante, morando numa rua bucólica e solitária de Dublin. Ninguém sabe nada da vida de ninguém.

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Cate Blanchett, Vicky Krieps e Charlotte Rampling, em Pai Mãe Irmã Irmão (2025) ▪ Imdb
E o terceiro episódio, Irmã, um casal de irmãos, Indya Moore e Luka Sabbat, em Paris, vão fechar o ciclo da vida dos pais, mortos num acidente de avião. Os objetos, as fotos, os rastros do que foi e/ou não vividos. Uma lacuna também constrangedora diante da falta de conhecimento e intimidade da vida dos pais.

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Luka Sabbat e Indya Moore, em Pai Mãe Irmã Irmão (2025) ▪ Imdb
As três histórias são costuradas por rimas poéticas com skates em câmera lenta, relógios Rolex, brindes com água, e fotos da infância. Muito melancólico pela pergunta que permeia todo o filme: “Por onde andam as nossas vidas familiares? Que destino tomamos?”. Filme sutil e de pequenos detalhes que nos toca profundamente. Eu gosto muito de filme assim. Tudo pouco e de grandes resultados. E me ilustrou tanto sobre o tema que eu particularmente venho pensando há tanto tempo.

Pai Mãe Irmã Irmão (2025) ▪ YT Os Filmes da Zona Indie

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