Em criança, só tive a alegria de chamar de pai, na Terra, uma pessoa muito especial, até os cinco anos de idade. Tive um padrasto. Mas a doença o modificou.
Hoje, no entanto, compreendo o quanto era rica, vivendo na pobreza de uma casa de madeira. Sem alimentos ou roupas bonitas, mas com muitos valores, ainda que sedimentados nas feridas da vida de minha mãe.
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A Ele peço que me dê forças para ter sempre, no coração, a chave da delicadeza para abrir as portas de cada dia no deserto da vida daqueles que estão marginalizados ou rejeitados pelos caminhos, pelas ruas, pelos becos. Daqueles para quem quase ninguém quer sequer olhar.
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Na verdade, ela veio devagar, bem devagar, como fazem todos os que conhecem a miséria e contemplam, primeiro, “a capa” das pessoas para ver como reagem, já que sabem que quase ninguém vai olhá-los e eles não podem desvendar a alma e as consequentes reações.
Todas as mesas estavam ocupadas por jovens e idosos. Todos tomavam seu “café” para iniciar mais um dia de trabalho. Ela chegou ao meio do trajeto, olhou novamente. Até então, nada. O pessoal do bar também nada dissera, embora já tivessem se entreolhado. Encolhiam-se. Não queriam que ela tocasse neles. Isso é comum... Não adianta dizer o contrário.
Em seguida, Sabrina andou mais um pouco e pediu uma média. Ela pediu alimento. Não ouviu uma resposta. Mais uma vez, sentiu a repulsa das pessoas que estavam na fila. Todos se apequenavam. Desviavam o olhar. Fingiam conversar. Ela era “diferente”. Repito: ela não estava suja, ou pelo menos não muito suja. Não fazia parte de uma “gangue” para um arrastão ou assalto. Ela pedira comida.
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— Eu te dou.
Quando ouviu isso, o rosto dela iluminou-se, e ela perguntou:
— Posso pedir pão com mortadela?
— Pode — disse eu.
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É bom que se diga que eu não julgo ninguém. Tampouco sou melhor ou pior. Estou com salários atrasados e apenas observo muito. Portanto, meu gesto foi determinado pela necessidade que vi estampada naquele rosto faminto e envelhecido antes do tempo. Claro, não meço as razões. Quisera ganhar na loteria para ajudar mais no caminho que resta nesta vida.
Até aí, tudo iria mais ou menos. Ocorre que o lugar da mesa à minha frente (as mesas têm dois lugares) vagou. Sabrina saiu do canto onde estava — sentindo-se o nada de nada — e me perguntou:
— Posso sentar aqui?
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Ela disse:
— É só até eles prepararem. Eu sei que vem em copo plástico e não em xícara. Não posso ficar aqui... O segurança da rua já está lá fora.
De fato, ele já estava pronto. Faltava um sinal da casa comercial.
— Por mim, pode.
— Posso, não. Eu já lavei a mão e o rosto, mas não posso. Eles não querem.
Nessa oportunidade, perguntei o nome dela e soube que era Sabrina.
Logo fizeram sinal de que o “café” dela estava pronto. Aliás, ela tinha pedido um pedaço do bolo que eu ainda estava comendo, e eu o dei. Ela se deliciava com ele. Mas, ligeira, levantou-se, levou-o e foi buscar o sanduíche, saindo rapidamente.
Nesse instante, todos voltaram “ao normal”. Aliás, o que é normal?
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— Desculpem! Pagamos tanto aos seguranças...
Eu só perguntei:
— Desculpas? Por quê?
Foi um gesto comum...
Ela, espantada, respondeu:
— Mas a garota a incomodou.
— A mim, não.
Nesse instante, olhei para fora. Sabrina chorava. O segurança havia derrubado o café e o sanduíche. Tudo no chão. O amor também. Por quê? Desamor.
Entretanto, todos me olharam como se eu fosse um ser estranho.
Certamente, eu não desconheço a violência em todos os sentidos. Mas será que um sopro de amor não vale a pena?











