Aqui, nessas latitudes menores, que revelam nossa proximidade com aquela linha que divide o Hemisfério em duas partes, não é possível...

Confissões num domingo chuvoso

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Aqui, nessas latitudes menores, que revelam nossa proximidade com aquela linha que divide o Hemisfério em duas partes, não é possível distinguirmos as quatro estações que aprendemos nas aulas do colégio ou que lemos nos alfarrábios de geografia. Aqui são só duas as estações: a das águas e a do Sol. Nesse primeiro domingo de setembro, recebemos as últimas chuvas da temporada das águas; lavaram meu quintal, aquietaram minha alma.

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Fiquei recolhido, algumas poucas tarefas domésticas, um tiquinho de leitura (não é meu programa favorito dos domingos), rever algum filme. Vinho combina com tempo chuvoso. Ligar para os filhos distantes, usufruir da preguiça, minha companheira indispensável neste meu avançado dos anos. Mas sabem como é, o cérebro não me obedece e acabei me envolvendo num cipoal de conjeturas e, cá entre nós, aquele gorozinho, herança dos deuses do Olimpo, ajuda muito nessas divagações.

Se o pior do domingo é o dia seguinte, não foi o caso desta vez, já que era véspera de feriado, o que me fez mais à vontade nesses devaneios. Essa bagunça em meus neurônios surgiu com uma fotografia enviada por minha caçula através do WhatsApp. Lá estavam cinco criaturas que provocaram essa, digamos, entropia espiritual: o André, o Ciriney, o Ivan, o Rodrigão e o Paçoca. É toda uma história...

Aconteceu, neste último sábado, uma celebração que dava ar de legalidade à já estável união de Danilo e Bruna. Casamento à moda antiga anda meio em desuso; a cerimônia atualmente tem outra configuração, e foi quando essa moçada se fez presente para prestigiar o cerimonial que aconteceu em Araçatuba, interior paulista.
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Essa rapaziada que citei, mais o protagonista da ocasião, Danilo, foram meus alunos em Bauru, lá pelo meio da década de 2000. Danilo é filho do casal Manoel e Arlete, meus compadres e padrinhos de batismo de minha caçula Gabriela. Isso explica o contexto.

Vi pela fotografia essa garotada, quase 20 anos depois. Exceção do endiabrado Paçoca, que conserva ainda a mesma fisionomia de traquinas daqueles tempos, os demais já colecionam uns fiapos brancos no cocuruto.

Quando observei pela primeira vez a foto, fui descobrir o que anda, nesses últimos anos, me atormentando a alma. Vou revelar, meus amigos, minhas amigas: a aposentadoria. Isso mesmo. Esse recesso definitivo em nossas atividades profissionais pode ser uma recompensa, pode ser uma peçonha. Pode até ser as duas coisas, como creio ser o meu caso.

Fui descobrir, assim que deixei o giz, depois de pouco mais de 50 anos na atividade, que estava ali o sentido de minha vida. Ainda que, nos últimos anos, a experiência desse uma desacelerada no entusiasmo, as aulas me eram menos cansativas e, creio, até mais produtivas.

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Mas devo relatar aqui como foram aqueles anos em que cursinhos pré-vestibulares eram uma verdadeira febre no país, a concorrência era brutal por uma vaga nas universidades e não proliferava, à época, essa praga de faculdades meia-boca que se prestam a colocar anéis em muitos dedos e pouca coisa nos cérebros.

Não havia salas com apenas meia centena de alunos. A centena era completa e até com um pouco mais. Microfone numa mão, giz na outra, força na voz e paixão nas coronárias. Pesquisas quase quinzenais para atestar a qualidade docente. Quem pisava na bola, não agradasse, não mostrasse eficiência, podia pegar o beco. Não faltava gente para tomar o seu lugar, porque a grana era alta.

Morei 2 anos em Ribeirão Preto e cobria um itinerário de sete cidades. Em duas delas, a presença era quinzenal. Mas por que a citação? Foi para se ter uma dimensão da atividade. Uma certa semana, um desses parças de trabalho foi à secretaria de cada cursinho, em cada cidade, para descobrir o número de alunos de cada um. Então...

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— Você sabe para quantos alunos lecionamos semanalmente? — Eu desconhecia, mas ele revelou: — Seis mil setecentos e vinte e seis!

Avaliaram a cifra? Hoje bateu a saudade.

Então, vocês aí da fotografia me levaram aos melhores anos de minha vida. Agradeço de coração. Mas, para mim, o que passou, passou, não vai voltar mais.

O resto é silêncio.

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