Reflexões éticas sobre a prudência, o arbítrio e a integridade da consciência Era uma daquelas noites em que a conversa escapa ...

Entre dois males

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Reflexões éticas sobre a prudência, o arbítrio e a integridade da consciência
Era uma daquelas noites em que a conversa escapa do controle e vira algo maior. Estávamos na varanda, tínhamos vinho, petiscos e um longo tempo para conversar. O charuto ainda estava apagado, enrolado entre os dedos, esperando o momento certo. Foi quando a porta se abriu pela última vez e já estávamos todos prontos para nossa confraria de todo mês. Agora era dar início ao ritual, pois bons papos sempre começam com um certo ritual. Não havia pressa, não precisávamos chegar ou correr, pois já estávamos agora. Era só dar força às memórias e aos temas, sempre sobre algo que presenciamos durante o tempo de nossa ausência de convívio.

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Não demorou para que a pergunta surgisse à mesa: sabe o que eu ando pensando? Essa história de escolher o mal menor. Todo mundo repete isso como se fosse sabedoria de avô, mas eu não tenho certeza de que a conta fecha.

O vinho desliza sobre a taça numa dança de aromas, penumbrada pela fumaça dos charutos acesos naquele momento, quando ouvimos alguém dizer: explica.

Cícero, em Roma, já dizia: entre dois males, escolha o menor. Parece um conselho incontestável. Mas, quando você olha para o século XX, para os regimes totalitários, vê uma coisa assustadora. Ninguém acordou um dia decidido a ser cúmplice de um horror. A concessão foi acontecendo vez após vez. Cada promessa de acabar com uma injustiça parecia um bem. E foi assim que a supressão de liberdades, a mentira institucionalizada e a violência passaram a ser toleradas como preço temporário de uma tal marcha da história.

Foi quando um de nós parou de beber. O charuto dele fazia sua primeira fumaça. De olhos atentos, soltou a exclamação: isso é o ponto. O poder tirânico não se assenta de um golpe,
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sustenta-se por uma cadeia de pequenos acenos. E aí mora a tentação daqueles que acreditam que não há mal em trapacear no caminho quando o fim é bom. Só que a resposta é curta e dura, pois o bem que se espera alcançar nunca justifica o mal que se pratica.

Mas espera, disse aquele que estava fora da mesa, apoiando o copo no joelho. Se a vida raramente dá escolhas perfeitas, e os bens em disputa são sempre incompletos, o que a gente faz? Fica paralisado?

Sorrisos surgiram por trás da fumaça. É exatamente aí que Aristóteles entra. Ele já tinha notado que não existe resposta pronta para essas situações. Existe discernimento. Temos que ter a capacidade de pesar as circunstâncias concretas. E não nos esqueçamos de que, séculos depois, Tomás de Aquino transformou essa intuição numa ferramenta precisa. Ele percebeu que uma ação boa pode carregar junto um efeito ruim que não se quer. E formulou quatro condições para a escolha continuar sendo aceitável. Todas precisam estar presentes ao mesmo tempo. Se uma falhar, a conta não fecha.

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Quais são? perguntou o mais jovem.

Foi quando o mais grisalho de nós se recostou na cadeira e deixou a fumaça subir lenta. A primeira é sobre o ato em si. Ele precisa ser bom ou, no mínimo, neutro. Nenhum resultado favorável justifica praticar um mal real. A segunda é a intenção: a busca é apenas pelo bem. O efeito ruim não pode ser desejado, nem como objetivo, nem como degrau para chegar lá. Só pode ser previsto e tolerado, um custo que se aceita sem querer pagar.

A terceira é a mais traiçoeira, continuou, batendo a cinza do charuto na borda do cinzeiro. O bem alcançado não pode nascer do mal. Se o benefício só existe porque o mal aconteceu, o mal virou instrumento, e a escolha deixa de ser prudente. E a quarta exige proporção. É preciso uma razão grave, de peso real, para aceitar o efeito adverso e, mesmo assim, somente quando não existe alternativa viável.

A mesa silenciou por um momento. A brisa lá fora parecia respirar junto conosco.

Quatro portas? E todas precisam estar abertas?

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Todas, confirmou. Se uma se fecha, o que parecia sabedoria prática vira cumplicidade. E é aí que entra a distinção mais importante de todas. Uma coisa é querer o mal. Outra, bem diferente, é tolerá-lo. Parecem próximas, mas são mundos separados.

Como assim?

Querer o mal, seja como objetivo final, seja como meio para chegar a algo bom, é sempre errado. Não existe intenção nobre que conserte um ato desordenado. Se o caminho é mau, não importa quão bonito seja o destino. Tolerar é outra história. Há males que ninguém consegue evitar, danos que viriam de qualquer forma. Quando alguém aceita conviver com um mal menor para impedir que um mal maior se espalhe, isso não é cumplicidade. É prudência.

Sentado ao centro da mesa, um atleta dentre nós completou, girando o charuto entre os dedos e soltando a fumaça devagar. O ponto que separa as duas coisas é simples: tolerar não é aprovar. Quem tolera não consente por dentro, não adere à desordem, não a deseja. Apenas reconhece que a força humana tem limites. Querer o mal é escolher. Tolerar o mal é suportar o que não se pode mudar. Uma é culpa. A outra, quando feita com retidão, é sabedoria.

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O que nos trouxe novamente ao centro foi quando nosso calouro apontou para o céu com a ponta do charuto e disse: tem uma parábola antiga que ensina exatamente isso. Um agricultor planta trigo. À noite, um inimigo semeia joio por cima. Quando os servos percebem, querem arrancar tudo. O dono impede: se arrancarem o joio agora, arrancam o trigo junto. Deixem crescer os dois. Na colheita, a gente separa. Essa era sua primeira noite de confraria, e ele continuou trazendo agora sua visão sobre a paciência do agricultor.

E o que essa paciência não é: não é aceitar o joio como se fosse trigo. Não é dizer que são a mesma coisa. Não é suspender o julgamento. No tempo certo, cada um recebe o seu destino. Tolerar é esperar o momento certo.

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A diferença entre isso e o relativismo é enorme, continuou. Quem relativiza apaga a diferença entre o bem e o mal. Quem tolera sabe exatamente o que cada um é. Apenas espera a colheita.

O decano assentiu, mas seu rosto ficou sério. Só que a paciência tem um limite. A era soviética deu nome a um fenômeno: o dos aliados involuntários. Pessoas de intenções generosas, que se recusam a enxergar a natureza perversa do sistema que apoiam, justamente porque o associam a causas bonitas. Toleram abusos e desvios éticos sob o argumento de que são contingências passageiras. O mal rotulado de transitório vai sendo aceito uma vez, outra, mais outra.

A ironia trágica é que o bem-intencionado, ao aceitar o mal como temporário, torna-se o alicerce que sustenta e legitima exatamente o maquinário que acabará destruindo suas liberdades. Ele não é o carrasco. É o apoio silencioso que permite ao carrasco trabalhar em paz.

O silêncio que se seguiu era diferente dos anteriores. Era o silêncio de quem está processando algo grande. Foi quando abri uma nova garrafa e servi o copo de todos sem pedir licença.

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Da ponta norte da mesa veio: e nas últimas décadas isso mudou?

Tudo, respondeu aquele que estava do lado oposto. Abandonou as rupturas abruptas, as revoluções de barricada, e adotou algo mais paciente: a guerra de microcortes. Uma guerra silenciosa. Não há um golpe único, há mil pequenos passos. A linguagem muda aos poucos. O que era chocante vira aceitável, o que era aceitável vira normal, e ninguém consegue apontar o momento exato da virada. Cada intervenção é apresentada como irrelevante. Um ajuste narrativo, uma modernização técnica, uma atualização inofensiva. Nada que justifique alarme.

É o princípio da acomodação gradual, murmurou o mais jovem, apagando o primeiro charuto e acendendo outro. Cada pequeno corte na ordem moral é tolerado porque, sozinho, parece pequeno demais para valer um conflito. Mas os cortes se acumulam. A régua moral da sociedade vai sendo rebaixada milímetro por milímetro, até que o corpo social aceite como rotineiro aquilo que décadas antes repudiaria com veemência.

Terminei o copo e não servi mais. Mas e quem resiste? Quem são os que não cedem?

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O jovem olhou para o vazio, a fumaça subindo na frente do rosto dele. Os serviços de inteligência observaram algo fascinante. Prisioneiros e dissidentes movidos por uma convicção espiritual profunda, cristã ou não, resistiam com uma firmeza impressionante. Interrogatórios severos, confinamento solitário, tortura sistemática. Nada os fazia cooperar. Em contrapartida, aqueles que se apoiavam apenas em ideologias, lealdade partidária ou cálculos pragmáticos capitulavam com facilidade.

Não é elogio automático a quem crê nem condenação a quem não crê, ponderou ele. Há ateus de convicção inabalável e religiosos que traem tudo. O que sustenta uma pessoa diante do extremo é acreditar em algo maior que si mesma. A ideologia pertence a este mundo. Sem um fundamento que a transcenda, ela se rende ao cálculo de sobrevivência. Quando a dor é grande demais, a ideologia negocia. Ela sempre encontra um preço.

Quem está ancorado em algo maior não negocia, completou. Carrega a certeza de que existe uma realidade que não depende das circunstâncias. Sua consciência se ancora numa soberania acima da jurisdição de qualquer poder terreno. Quem não tem essa âncora é vulnerável à chantagem do cálculo de danos, porque tudo nele pode ser precificado. Quem a tem possui um não soberano, um limite que o totalitarismo é incapaz de cooptar.

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A noite já tinha caído de vez. O farol de um carro piscou em luz alta e chamou a nossa atenção.

A linha divisória entre o bem e o mal não passa através dos Estados, nem entre as classes, nem entre os partidos políticos, disse alguém, quase para si mesmo. Passa através de cada coração humano.

Inclusive o seu, disse isso, olhando para o amigo ao lado.

O jovem rapaz assentiu devagar. A história está cheia de gente que preferiu perder tudo a mentir. Pelo cálculo pragmático, a capitulação seria sensata. Assinar uma renúncia, fazer um gesto simbólico de submissão. Gestos pequenos, quase sem peso. Em troca, a vida preservada. O mal menor, na prática. Mas há quem recuse. Quem percebe que a mentira formal contra a verdade corrompe a alma. O gesto pequeno não é pequeno. Ele atinge o centro da pessoa.

As ditaduras não se instauram apenas pela violência. Instauram-se pela deserção moral dos justos, que silenciam sucessivamente diante das etapas iniciais do arbítrio. Os primeiros abusos vieram seletivos, contra grupos específicos. Os justos silenciaram, cada um acreditando que não era com ele. Vieram outros abusos, outros grupos. E o silêncio continuou. Até que não restou ninguém para falar.

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Porque todos haviam sido levados, um a um, completou aquele que estava de pé, retornando de dentro da casa.

O vento mudou. Tinha alguma coisa no ar que não existia antes, algo que a conversa mesma tinha colocado ali.

Voltando à questão inicial. No trabalho, em casa, na cidade. Em algum momento, todos se deparam com caminhos imperfeitos, em que nenhuma opção parece inteiramente limpa. A pressão do ambiente e a tentação de ceder a uma irregularidade aparecem, com o pensamento fácil de que se está apenas optando pelo mal menor.

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Mas, quando parece que só restam duas portas, e as duas levam ao mal, existe uma terceira, disse ele. Não é negociar a verdade para ganhar alívio temporário. É aceitar o sofrimento injusto e transformá-lo em algo maior. O mal que se sofre não é desejado, não é celebrado. É absorvido e transfigurado pelo amor.

O silêncio do decano era o mais honesto de todos.

E o mundo moderno repete que o homem está encurralado, que não há saída limpa, continuou. A fidelidade aos princípios responde que isso é mentira. Há sempre um caminho reto. A integridade não está à venda no mercado das conveniências.

Aquele que estava sentado ao centro se levantou e foi até a grade da varanda, charuto apoiado na borda. Tem uma coisa mais. A unidade. O homem não pode ser um na sala de casa e outro no escritório. A fragmentação moral é a raiz da desonestidade moderna. A ilusão de que é lícito adotar uma régua de integridade na vida doméstica e, ao mesmo tempo, guiar-se pelo cinismo utilitário nos negócios e na política. A concessão vira vício crônico no instante exato em que a consciência é compartimentada. Atos injustificados passam a ser rotulados como imperativos técnicos da profissão. O nome bonito não muda a natureza do ato.

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A coerência integral exige a mesma régua em todos os ambientes, disse o decano, levantando-se também.

Ficaram ali, olhando para a noite, cada um com seu charuto e seu copo.

O jovem foi o último a falar. No fim das contas, a grande pergunta não mudou desde Cícero. Só ganhou mais peso. E a resposta madura nunca foi escolher o mal com elegância. Foi encontrar o caminho reto e, quando ele parece não existir, abrir a terceira via. Sofrer com amor, recusar a cumplicidade e esperar a colheita, quando o dono do campo separar o trigo do joio e a justiça, enfim, chegar.

Nenhum de nós disse que iria dormir naquela noite. Mas todos sabiam que íamos pensar.

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