Não, eu não tinha perdido para sempre, como supunha, nem emprestado sem retorno o “Zélins, Flamengo até morrer”, livro contendo crônicas esportivas de José Lins do Rego selecionadas por Edilberto Coutinho. Encontrei-o, com o coração em festa, no fundo da grande caixa de papelão esquecida num quartinho da casa antiga onde hoje mora o mais velho dos meus três filhos. Ali, ainda jaziam outros livros e uns 150 recortes de matérias minhas no “Jornal do Commercio”, do Recife,
coisas que não pude abrigar no espaço mais reduzido do apartamento onde vim parar, há oito anos, com a mulher, um gato e um tantão de memórias.
O quanto me vinha doendo a suposição dessa perda... Não apenas pela raridade do exemplar reimpresso e autografado pelo autor, em pequena quantidade, à guisa de brinde aos mais chegados. Também, porque eu estou na dedicatória desse volume consagrado à estima, à benquerença, ao lado de gente e instituições de peso, a exemplo de Odilon Ribeiro Coutinho, Elizabeth Lins do Rego (filha do romancista), Heitor Maroja e, ainda, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro, a Faperj.
Integro o quarto bloco das dedicatórias. No primeiro está, isoladamente, o nosso Odilon, o primo de quem Edilberto recebera a sugestão do livro sobre Zélins e o futebol. Silviano Santiago é agraciado, em seguida, pelo estímulo à pesquisa sobre dois decênios de crônicas esportivas zelinianas, conteúdo do “Flamengo até morrer”. Rachel de Queiroz, Elizabeth e Maria Eduarda de Viana Lessa compõem o terceiro bloco. No quarto, além de mim, de Maroja e da Faperj, também estão Pedro Lyra e Maurício Murad Ferreira.
Sempre assim: uma relação crescente de nomes assinalados em folhas de rosto na conformidade das afeições de Edilberto Coutinho, ou dos seus agradecimentos por atenções que a ele dispensássemos. Acho que a licença para consulta aos arquivos de “O Norte”, o jornal que eu então editava, explica meu nome na sua lista de afetos. Ao meu coração fluminense Edilberto, além disso, ofereceu, em tinta vermelha, seu abraço rubro-negro com data de 1995, a do Centenário do Flamengo e, penosamente, a do seu falecimento. Passavam-se, já então, onze anos desde o lançamento da edição inicial, aquela do prêmio cubano e do sucesso europeu.
Edilberto Coutinho (1938–1995), escritor, jornalista, ensaísta e professor paraibano, nascido em Bananeiras. Formado em Direito, dedicou-se à literatura e ao jornalismo, atuando como correspondente do Jornal do Brasil e da revista Manchete na Europa e dos Diários Associados nos Estados Unidos. ▪ Fonte: facebook
Não lembro se foi do poeta Sérgio de Castro Pinto que me chegou a notícia da morte de Edilberto Coutinho, no Hotel São Domingos, localizado no centro do Recife. Foi lá, no apartamento onde mantinha a mesa de trabalho, que um colapso cardíaco fulminante o abateu, em plena madrugada, aos 57 anos de idade. Trabalhava em livro sobre o cinquentenário do Savoy, o mais boêmio dos bares da cidade, o ponto de encontro de poetas, escritores, jornalistas, juristas e políticos, o templo da literatura e do chope pernambucanos.
Bar Savoy, Recife: tradicional ponto de encontro da vida boêmia e cultural do Recife, associado à memória da cidade e à convivência de jornalistas, escritores e intelectuais.
Foi Maroja, recém-chegado de um dos departamentos da TV Globo do Recife (Globo Nordeste, dizia-se), que me apresentou a um Edilberto desejoso de pesquisar os arquivos da Redação sob meu comando. “É paraibano feito a gente. É de Bananeiras, ouviu?”, disse-me.
Eu já sabia disso. Inteirei-me sobre Edilberto tão logo ele ganhou, em 1982, o “Casa de las Americas”, prêmio que lhe concedeu o governo cubano por sua obra “Maracanã, Adeus”, o delicioso apanhado de contos sobre a condição humana e o futebol. Diga-se que foi livro também lançado na França, com o título de “Onze au Maracanã”. Ainda, que teve publicação em Portugal,
em ambos os casos com boa acolhida de crítica e de público.
Estabelecido por algum tempo no Recife, onde em início de carreira escreveu para jornais locais, Edilberto dali saiu para as Redações cariocas. O “Jornal do Brasil” o teve como correspondente fixado em Paris. De volta ao Rio, tornaram-se frequentes seus retornos às origens, quase sempre em razão de pesquisas para projetos literários.
Percorrer as 494 páginas de “Zélins, Flamengo até morrer” é perceber uma paixão popular como fenômeno sociológico e entender, razoavelmente, a construção da brasilidade. É enxergar a válvula de escape para as dores do povo, descobrir nas arquibancadas o espaço democrático das celebrações e atinar que o pranto e o riso, a depender do placar, podem gritar ao mundo, em uníssono, desde os corações de pobres e ricos. Mas, no caso de José Lins do Rego, também significa testemunhar o momento da integração de um esporte à literatura.
José Lins do Rego ao lado do jogador Servílio, durante a festa do tricampeonato carioca do Flamengo, conquistado pelo clube em 1955. ▪ Fonte: Manchete Esportiva.
No seu livro, além de agrupar as 1.571 crônicas produzidas por Zélins, em sua maioria para o “Jornal dos Sports”, a convite de Mário Filho, Edilberto contextualiza modismos, hábitos e costumes de um Brasil com epicentro no eixo Rio/São Paulo. Ninguém estranhe, portanto, seu resgate de anúncios do comércio e da indústria publicados na mídia impressa.
Naqueles idos, a “Principal”, com endereço na Praça Tiradentes, apresentava-se aos cariocas como “uma sapataria onde tudo é conforto”. “A Nobreza”, outra loja, dizia às noivas que “a felicidade está na casa que possui sortimento completo para casamentos”. A Glostora, por sua vez,
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contava maravilhas da sua brilhantina e recomendava: “Para triunfar, glostore seu cabelo”.
A dor de uma Benzetacil já fazia o cristão correr da seringa no bumbum (sempre lá) como o diabo foge da cruz. Mas não era de se crer em medo menor da injeção uretral Rivagônio, “o remédio infalível contra a blenorragia e o corrimento”. John Weissmuller, naqueles dias, vestia a pele de Tarzan, o vingador. O Cine Astória então chamava o distinto público para a verificação das armadilhas que o Homem da Selva preparava para os que se atrevessem a invadir seu território.
As crônicas reunidas por Edilberto cobrem, ainda, momentos emblemáticos de um futebol recém-contemplado com o Maracanã, o mais importante, o mais famoso, o mais referido dos seus templos. Contam histórias públicas e de bastidores indispensáveis à compreensão, também, da alma de Zélins, homem dado a explosões emocionais, dentro e fora do campo.
Cartão postal do Complexo do Maracanã, no Rio de Janeiro, na década de 1950. No centro, o Estádio Municipal, inaugurado em 1950; à direita, o Ginásio Maracanãzinho, inaugurado em 1954. ▪ Fonte: facebook
Não faltam, evidentemente, histórias formidáveis relacionadas ao que talvez fosse o cronista esportivo mais parcial da sua época. Ninguém exigisse sua isenção em jogos do Flamengo. Na coluna “Esporte e Vida”, ele exerceu sem freios uma paixão indisfarçável com preços a pagar.
José Lins do Rego, torcedor apaixonado do Flamengo, acompanha uma partida nas arquibancadas. O escritor paraibano manteve uma relação próxima com o clube carioca, do qual foi dirigente e torcedor assíduo. ▪ Funesc
Por exemplo, tomou dos torcedores do Vasco uma vaia de dez minutos ininterruptos quando teve a presença anunciada pelo serviço de som do Maracanã. Em crônica anterior, ele havia tratado por “caviloso” o técnico uruguaio Ondino Viera que deixara o comando do time pelo qual morreria a fim de treinar o contingente adversário. No seu Pilar e noutros recantos nordestinos, “caviloso” nunca seria termo entendido como algo além de manho, esperto, astuto. A torcida vascaína, porém, tomou isso como adjetivo aplicável a indivíduos falsos, traiçoeiros, desleais. Também, a machos não muito convicto da própria masculinidade. Daí, a vaia demorada e estrondosa.
Zélins, é claro, nem sempre foi um exemplo de exatidão. Eis como respondeu a artigo no qual o amigo Pedro Nunes defendeu sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, no mesmo “Jornal dos Sports”, edição de 13 de junho de 1948:
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“Caro Pedro. Nada de Academia. Eu sou um homem comum que não se dá bem com os imortais. Imortal só mesmo Deus. A Academia é um magnífico refúgio de sabedoria. E eu não sou um homem sábio. E se você, com tanta gentileza, lembrou-se de mim para o fardão, teve lembrança que, se não partisse de quem partiu, eu diria que era coisa de amigo da onça. Pelo que vejo, você quer se ver livre de mim, seu velho amigo, com essa história de fardão, de academias, de solenidades. Como poderei torcer pelo Flamengo amarrado nos dourados arreios de luxo?”.