Impressões de leitura de:
Crônicas, ensaios do escritor Francisco Gil Messias
Editora Ideia
Crônicas, ensaios do escritor Francisco Gil Messias
Editora Ideia
Logo que li o título das crônicas de Gil Messias, me veio à lembrança um livro de contos de Virginia Woolf, A arte da brevidade, achando que um de seus contos possuía o mesmo título. Na verdade, intitula-se A marca na parede. Em inglês: The Mark on the Wall. Os títulos se assemelham, há um parentesco entre eles. Todo leitor faz esse tipo de ilações; os livros se comunicam de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente.
Francisco Gil Messias ▪️ Instagram: fatoseletrasculturaparaibana
No conto de Virginia Woolf, a marca na parede é o pretexto que desencadeia o fluxo de consciência; o ínfimo detalhe leva a uma onda ininterrupta de associações livres e encerra de forma prosaica, revelando a marca na parede como a de um caracol. A autora tece um caminho tortuoso para falar de muitas coisas a um só tempo, de forma breve. Insinua-se por desvios e até parece se perder pelo caminho quando se permite falar do insignificante ou do imperceptível e até da vertigem dos abismos humanos, sem se descuidar do fio condutor que une e dá forma ao seu texto aparentemente disforme.
Gil Messias, em sua abrangente fonte de leituras, sempre fértil de comentários originais, convida o leitor a compartilhar sua viagem não apenas pelo mundo dos livros; o autor nos faz visitar museus, como a casa de Mário de Andrade, aponta para o gosto de alguns turistas por túmulos de famosos, como o túmulo de Marx, e relata a saborosa história, contada por Germano, sobre a visita do pai, Carlos Romero, e da esposa, Alaurinda, ao Père-Lachaise, que, ao final da visita, tiveram dificuldade de encontrar a saída e já era hora de fechar, quando avistaram um funcionário que comentou: “Monsieur, aqui quem entra nunca mais sai.”
O autor também chama atenção para comportamentos de escritores e artistas, como o gesto discreto de Han Kang comemorar seu prêmio Nobel, tomando chá em silêncio; a contradição do icônico psicanalista Lacan em relação à filha; a curiosa reação de Graciliano Ramos ao chorar a morte de Stalin; a solidão maior de Susan Sontag por não aceitar o fim ao se confrontar com a própria morte; e a brasileira que esnobou Alain Delon.
Han Kang, aclamada romancista e poeta sul-coreana, vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2024, primeira autora sul-coreana e a primeira mulher asiática a receber a distinção ▪️ Fonte: time.com
Françoise Gilot escreveu sobre sua relação com Picasso com a ajuda do amigo Carlton Lake: Vivre avec Picasso, Col. 1018. É um livro interessante porque ela, sendo também artista plástica e muito jovem quando viveu com ele, tinha 40 anos menos que ele e vivia o início de sua própria obra. Ela conta também o lado positivo da relação: os anos de aprendizado, observando na intimidade o trabalho desse gigante da arte, sofrendo influências, abrindo horizontes.
Françoise Gilot e Pablo Pucasso (1953) ▪️ Museu Picasso (Antibes)
Gil Messias também comenta sobre a arte contemporânea e a inusitada banana de seis milhões de dólares. Perplexo, conclui com humor: “De fato, esta obra era insubstituível, pois seu comprador a comeu.”
Discorre sobre as entranhas da ABL, e o leitor se diverte com o comportamento, por vezes tão risível, da vaidade humana.
Carlos Romero, escritor, cronista, jornalista, professor universitário e magistrado paraibano (1923-2018) ▪️ Acervo ALCR
O autor comenta com interesse sobre escritores da sua cidade, como Carlos Romero, Luiz Augusto Crispim, Virgínio da Gama e Melo, Gonzaga Rodrigues, Hildeberto Barbosa Filho, José Nêumanne Pinto, Jomar Moraes Souto, Manoel Jayme, João Batista e tantos outros. Vale ressaltar: João Pessoa sempre teve nomes que se destacaram na cena literária do país. Hoje, ela possui um fórum produtivo de alcance valioso, com muitos autores de grande vulto que fertilizam e impulsionam a vida literária da cidade.
E, para encerrar minhas impressões de leitura de A mosca na parede, ressalto sua bela crônica sobre as cartas de Celso Furtado publicadas por Rosa Freire d’Aguiar Gil Messias chama atenção para o vulto dos correspondentes de Celso Furtado e emociona o leitor quando mescla um dos temas das missivas à sua lembrança pessoal, despertada por uma das cartas: a de Thiago de Mello escrevendo da Alemanha para
Rosa Freire D'Aguiar ▪️ Fonte: Companhia das Letras
A mosca na parede é bem mais que a figura da invisibilidade do cronista; ela é também a escrita e o estilo de Gil Messias, um perito consolidado na memória de seus leitores, a de um cronista já veterano e acolhido pela Academia Paraibana de Letras.













