Impressões de leitura de: Crônicas, ensaios do escritor Francisco Gil Messias Editora Ideia Logo que li o título das crônicas de G...

A mosca na parede e outros textos de crônicas a ensaiados ensaios.

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Impressões de leitura de:
Crônicas, ensaios do escritor Francisco Gil Messias
Editora Ideia
Logo que li o título das crônicas de Gil Messias, me veio à lembrança um livro de contos de Virginia Woolf, A arte da brevidade, achando que um de seus contos possuía o mesmo título. Na verdade, intitula-se A marca na parede. Em inglês: The Mark on the Wall. Os títulos se assemelham, há um parentesco entre eles. Todo leitor faz esse tipo de ilações; os livros se comunicam de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente.

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Francisco Gil Messias ▪️ Instagram: fatoseletrasculturaparaibana
Gil Messias escreve sobre livros, autores, comportamentos, museus, a vida na cidade em que mora e seus autores. “A mosca na parede” dá o tom do cronista. O autor compara o cronista a uma mosca na parede, dada a sua invisibilidade. “Ninguém se dá conta da sua presença enquanto ele registra na mente ou à mão a matéria em que trabalhará.” Também diz que o cronista se assemelha a um poeta, este, um fotógrafo do flagrante, do fugaz e do ínfimo. Cita nossos grandes cronistas, como Rubem Braga e sua crônica A viúva na praia, Drummond e o vendedor de limões, Otto Lara Resende refletindo sobre certo constrangimento de colocar no papel aquilo que observa, e Gil Messias se pergunta se haveria de se valer apenas da imaginação...

No conto de Virginia Woolf, a marca na parede é o pretexto que desencadeia o fluxo de consciência; o ínfimo detalhe leva a uma onda ininterrupta de associações livres e encerra de forma prosaica, revelando a marca na parede como a de um caracol. A autora tece um caminho tortuoso para falar de muitas coisas a um só tempo, de forma breve. Insinua-se por desvios e até parece se perder pelo caminho quando se permite falar do insignificante ou do imperceptível e até da vertigem dos abismos humanos, sem se descuidar do fio condutor que une e dá forma ao seu texto aparentemente disforme.

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Na crônica de Gil Messias, a mosca na parede busca o pretexto; ela é o cronista em ação. O autor revela sua grande acuidade para as sutilezas e seus significados. Seu olhar pode ser profundamente reflexivo ao observar um fato do cotidiano, ou apenas um gracejo pode virar assunto, uma pintura do dia, um traço de caráter de um escritor. Tudo serve de matéria para a sua crônica.

Gil Messias, em sua abrangente fonte de leituras, sempre fértil de comentários originais, convida o leitor a compartilhar sua viagem não apenas pelo mundo dos livros; o autor nos faz visitar museus, como a casa de Mário de Andrade, aponta para o gosto de alguns turistas por túmulos de famosos, como o túmulo de Marx, e relata a saborosa história, contada por Germano, sobre a visita do pai, Carlos Romero, e da esposa, Alaurinda, ao Père-Lachaise, que, ao final da visita, tiveram dificuldade de encontrar a saída e já era hora de fechar, quando avistaram um funcionário que comentou: “Monsieur, aqui quem entra nunca mais sai.”

O autor também chama atenção para comportamentos de escritores e artistas, como o gesto discreto de Han Kang comemorar seu prêmio Nobel, tomando chá em silêncio; a contradição do icônico psicanalista Lacan em relação à filha; a curiosa reação de Graciliano Ramos ao chorar a morte de Stalin; a solidão maior de Susan Sontag por não aceitar o fim ao se confrontar com a própria morte; e a brasileira que esnobou Alain Delon.

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Han Kang, aclamada romancista e poeta sul-coreana, vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2024, primeira autora sul-coreana e a primeira mulher asiática a receber a distinção ▪️ Fonte: time.com
Também escreve sobre Picasso e suas relações destrutivas com as mulheres.

Françoise Gilot escreveu sobre sua relação com Picasso com a ajuda do amigo Carlton Lake: Vivre avec Picasso, Col. 1018. É um livro interessante porque ela, sendo também artista plástica e muito jovem quando viveu com ele, tinha 40 anos menos que ele e vivia o início de sua própria obra. Ela conta também o lado positivo da relação: os anos de aprendizado, observando na intimidade o trabalho desse gigante da arte, sofrendo influências, abrindo horizontes.
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Françoise Gilot e Pablo Pucasso (1953) ▪️ Museu Picasso (Antibes)
Certamente, um patrimônio técnico e cultural admirável que nenhuma escola lhe daria. Mas Gil Messias tem razão em mostrar a brutalidade de suas relações tóxicas com as mulheres. Não à toa, duas de suas mulheres se suicidaram. Recentemente, li depoimentos de seus netos sobre o comportamento austero, distante, pouco afetivo do pintor. Ele, de fato, deixou sequelas psicológicas brutais em seus familiares. Aparentemente, para Picasso, somente sua obra importava. Viveu exclusivamente para ela. A prova está no número gigantesco de obras de arte produzidas no curso de sua vida, compreendendo telas, trabalhos sobre papel, argila, esculturas, cerâmica, desenhos, cerca de 50.000 peças únicas, segundo historiadores da arte.

Gil Messias também comenta sobre a arte contemporânea e a inusitada banana de seis milhões de dólares. Perplexo, conclui com humor: “De fato, esta obra era insubstituível, pois seu comprador a comeu.”

Discorre sobre as entranhas da ABL, e o leitor se diverte com o comportamento, por vezes tão risível, da vaidade humana.

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Carlos Romero, escritor, cronista, jornalista, professor universitário e magistrado paraibano (1923-2018) ▪️ Acervo ALCR
Lindo o título de uma de suas crônicas: “Essa moça chamada Antígona.” A tragédia grega em forma de crônica, fazendo Sófocles mais próximo de nós.

O autor comenta com interesse sobre escritores da sua cidade, como Carlos Romero, Luiz Augusto Crispim, Virgínio da Gama e Melo, Gonzaga Rodrigues, Hildeberto Barbosa Filho, José Nêumanne Pinto, Jomar Moraes Souto, Manoel Jayme, João Batista e tantos outros. Vale ressaltar: João Pessoa sempre teve nomes que se destacaram na cena literária do país. Hoje, ela possui um fórum produtivo de alcance valioso, com muitos autores de grande vulto que fertilizam e impulsionam a vida literária da cidade.

E, para encerrar minhas impressões de leitura de A mosca na parede, ressalto sua bela crônica sobre as cartas de Celso Furtado publicadas por Rosa Freire d’Aguiar Gil Messias chama atenção para o vulto dos correspondentes de Celso Furtado e emociona o leitor quando mescla um dos temas das missivas à sua lembrança pessoal, despertada por uma das cartas: a de Thiago de Mello escrevendo da Alemanha para
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Rosa Freire D'Aguiar ▪️ Fonte: Companhia das Letras
Celso Furtado sobre o perfume dos cajueiros de João Pessoa. Gil Messias volta à própria infância e relembra os entardeceres em casa do amigo Nilsinho, filho de Seu José Luna, quando iam “com cestas e varas na mão colher esses cajus que pareciam eternos”. Relembra ao leitor que “toda a orla marítima até Cabedelo era um imenso cajueiral nativo até os anos 1970. Pouquíssimas casas de veraneio quebravam a uniformidade da paisagem colorida pelos cajus vermelhos e amarelos que alimentavam os passarinhos.” Não seriam essas associações narrativas que constroem a poética de um texto literário de valor?

A mosca na parede é bem mais que a figura da invisibilidade do cronista; ela é também a escrita e o estilo de Gil Messias, um perito consolidado na memória de seus leitores, a de um cronista já veterano e acolhido pela Academia Paraibana de Letras.

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