As ruas desta cidade já foram mais curtas quando andávamos a pé. O desembargador Osias Gomes, advogado dos mais solicitados, secretári...

O Parque das madeiras brasileiras

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As ruas desta cidade já foram mais curtas quando andávamos a pé. O desembargador Osias Gomes, advogado dos mais solicitados, secretário de Estado, não via enfado em lombar a pé de sua casa, um daqueles chalés de quatro águas no alto da Almirante Barroso, até ao tribunal ou ao antigo convento dos jesuítas, quando secretário do Interior e Justiça.

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Av. Guedes Pereira (1932) J. Pessoa-PB ▪️ Instagram: @sospatrimoniohistorico /// GD'Art
O automóvel era para o alto comércio, a elite industrial do açúcar e das exportações de sisal e algodão.

Nós nos queixávamos do atraso da cidade, com o transporte coletivo limitado ao bonde, a área urbana começando a crescer com a pavimentação da Epitácio. Vem Pedro Gondim e recobre de paralelepípedos as ruas centrais. E, preparando as ruas para o futuro, que é o trânsito de hoje, arranca os trilhos da cidade que se foi com eles. E haja asfalto a deixar lisinhas, bem aplainadas, as vias do automóvel, enquanto a calçada, reservada por lei universal ao homem, é um desastre.

Testemunha ansiosa por tudo isto, pago hoje o meu preço, contando os passos, medroso a cada um deles, já não ousando pisar no asfalto.

E tudo ficou muito mais distante... muito longe. Ir à farmácia da esquina, a duas ou três casas, uma temeridade. A cidade dos meus afetos, das minhas ansiedades e dos meus pequenos êxitos parece ter se ido com os trilhos que Pedro Gondim, em nome do progresso, jogou fora.

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Bonde de Tambiá no antigo Centro Histórico de J. Pessoa (PB) ▪️ Instagram: @curtaomelhordejampa
Tentando fugir da nostalgia, corro à estante a me botar por outros mundos. Caem os olhos num best-seller americano, que abro ao acaso e não passo das três primeiras páginas. Já não se escreve mais como Faulkner, Hemingway, Steinbeck; o mundo do sonho, o mundo literário também mudou. E puxo um livro que se destacava do alinhamento: “Parque das madeiras brasileiras”, editado pela Cimepar dos portugueses, benditos portugueses ainda seduzidos pelo pau de tinta que deu nome ao nosso país.

Há pouco mais de vinte anos, revisitando a reserva florestal que cercava capela e casa-grande das antigas terras da fábrica de cimento, bem depois Cimepar,
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Degmar Peixoto Diniz ▪️ Instagram: @espacoecologiconoar
surpreendeu-me um recorte novo da mata, aberta em alamedas com plantio destinado às espécies genuinamente brasileiras, identificadas pelo nome popular e o científico. Até ali haviam plantado mais de 60 espécies de um projeto que chegaria às 100. “Muitas outras espécies, com certeza, merecem presença neste Parque, contudo, o pequeno espaço e o caráter simbólico do plantio impossibilitaram sua seleção” — ressalta a apresentação assinada por Degmar Peixoto Diniz, gerente do Centro de Produção.

Era iniciativa da velha fábrica de cimento que tantas vezes noticiei e reclamei como poluidora da Ilha do Bispo. Saí por dentro e corri até a fábrica a dar alvíssaras a quem respondesse pela obra. Ganho uma entrevista e um álbum ilustrado com as 100 espécies, a partir da Caesalpinia que nos batiza.

Sem mais fôlego nem pernas para essas aventuras e ver como prospera a iniciativa que tanto me surpreendera, tenho a notícia de que a reserva, adquirida por um grupo de empresários da construção civil, vai ser ocupada por condomínios residenciais, com área comercial e uma parte voltada para o espaço ambiental. Seria a parte pertencente ao parque? Quem garante?
  Publicado hoje, 13/09/26, no jornal A União

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