Andei coisa de um mês ausente de nossa “Capital das Acácias”, deste ponto mais oriental das Américas. Obrigações de família, e lá fui para assistir ao casamento do meu rebento caçula, o que já justifica essa minha desaparição.
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Nem vou estender aqui a narrativa de como é bom espalhar um pouco de preguiça ao nosso redor. Acordar tarde sem a angustia de abrir o rol das obrigações e começar a lida, a faina diária.
Já estou de volta aos afazeres e cá me sinto novamente cativo dos ponteiros. Está aí uma idiossincrasia que me escraviza, a pontualidade. Por aqui, horário... Se bem que essa “despontualidade” é suprida por outras tantas virtudes de nossa Filipeia, que nem damos conta dos atrasos e deixamos isso para lá. Só essas ausência, como a que tive é o que nos faz lembrar, como é bom viver aqui.
Mas qual o motivo de me fazer aqui e ocupar espaço neste poderoso rotativo? Teria nessas minhas andanças encontrado algo relevante? Sim, encontrei. Pode até parecer de pouca importância ao amigo leitor e à amiga leitora, mas para mim não é, ao contrário, fez-me viajar no tempo em algo que sempre teve um pouquinho de fumaça com cheiro de ternura. Pode uma coisas dessas? Pode sim!
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Tenho que voltar no tempo, entre a segunda metade da década de 1950 e à primeira da década seguinte. Quero levá-los então, à casa dos meus avós paternos , lá no alto da Mantiqueira. À época, as residências em Campos do Jordão usavam alvenaria apenas onde passassem componentes hidráulicos (canos, tubos, etc). No mais, somente madeira, pinho, já que as araucárias se faziam endêmicas naquelas bandas. As edificações eram suspensas em pequenos pilotis de tijolos para que o piso da casa não tivesse contato com o solo quase sempre úmido e frio. É dessa edificação que brotam lembranças, mas propriamente, da cozinha, onde havia um fogão à lenha.
Hoje os arquitetos não consideram mais a cozinha como um espaço de convivência, o que projetam mal cabem fogão, geladeira e pia.
Dali, daqueles causos que ouvi, agasalhado pela quentura daquele aposento, é que me surgiu essa mania de escrever.
Mas naquela casa, era em torno desse primitivo fogão que a família se reunia para esquentar a prosa naquelas noites de inverno. Sobre a chapa do fogão, mas não em contato com as chamas, o bule de café, sempre quente e na frigideira a cada quinze minutos uma safra do "bolinho de chuva" à base apenas de trigo, ovos e sal. Assava-se pinhão na brasa, uma iguaria, se é que querem saber. A prosa corria, os causos, as aventuras de meu avô, pai e tios naquelas matas ainda virgens, onde onças pintadas andejavam à sombra do pinho bravo e das araucárias. Hoje não entendo como cabia tanta gente naquele espaço que agora me parece tão restrito, tão pequeno. Essas são doces lembranças de minha infância. Dali, daqueles causos que ouvi, agasalhado pela quentura daquele aposento, é que me surgiu essa mania de escrever.
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Isso sempre teve um canto especial em minha memória. Algo fez essas lembranças virem à tona. Filha que se mudou para Campinas com marido e dois totós. Lá fomos, eu e mulher, visitá-la pela primeira vez em sua nova residência. E o que descubro num anexo à sua cozinha (hoje se chama espaço gurmê)?: um fogão à lenha e a ele acoplados forno e churrasqueira.
Não bastasse, sobre a boca daquelas fornalhas, duas panelas de ferro pedindo serviço. Fomos eu e genro buscar lenha de eucalípito e uns dias depois de minha chegada, aquela geringonça ganhou serventia, arroz bem soltinho,
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refogado no alho com costelinha de porco, tudo preparado em panela de ferro. Acreditem e nem sei o porquê, mas no fogão à lenha ou a carvão, panelas de barro ou de ferro, a comida ganha sabor especial.
Mais para frente, repetimos a dose, desta vez o cupim nem foi para a brasa, nem para a panela de pressão, foi para para aquela panela da qual estou fazendo reclame aqui. Tempão ao fogo para pegar sabor. Um pitéu. Ainda vou convencer filha e genro para trazerem a mesa mais próxima daquela quentura. É ali lugar para prosear e receber gente.
Mas meus amigos, minhas amigas, é essa uma das saudades que trago de lá. Para espantar esse desconforto é sentir cheiro de maresia e ir ver o Sol nascer lá no Farol que aí o coração se acalma.