Todos os dias, quando cruzo o espaço que vai do meu quarto à sala de estar, ele me espia da parede. O coração de Chico Pereira. Famili...

Chico Pereira: o demiurgo

chico pereira arte pintura
Todos os dias, quando cruzo o espaço que vai do meu quarto à sala de estar, ele me espia da parede. O coração de Chico Pereira. Familiar de mudanças e deslocamentos ele me acompanha nas andanças por aí que foi a minha vida até ancorar novamente no velho porto da Filipeia de Nossa Senhora das Neves. E isso me basta. Trata-se de um desenho de um imenso coração, solto em uma nuvem de pequenos pontos coloridos, que me traz a ideia do universo e suas constelações ou, por vezes, me lembra também do caos e suas representações. O coração, perdido em meio às estrelas coloridas, está envolto por uma serpente azul que ora a toca ora se afasta.

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Arte: Chico Pereira / Acervo: M. Zaccara
Não sei onde aprendi, nas minhas leituras do tudo e do nada, que o coração simboliza a união entre os sentimentos profundos, a força instintiva, a sabedoria ou a transformação e que a serpente, que troca de pele, representa a cura, a renovação e a evolução pessoal. E que também tem tudo a ver com a minha história de vida e com o coração vagabundo de Caetano Veloso. Semiótica ou simples poesia?

O coração na minha parede tem história. Em um artigo anônimo do Jornal da Paraíba de 1978 descobri que o seu autor, o artista multimidia Francisco Pereira Junior, naquela década, encontrou nos arquivos do recém-criado Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) em João Pessoa, do qual ele foi o facilitador e um dos fundadores, uma publicidade de um analgésico.
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Arte: Chico Pereira
Segundo ele "Era uma gravura com o coração de Jesus e a frase: 'Alivia, acalma e reanima'. Daí a inspiração central para a série que se seguiu e da qual ganhei um registro, uma parte. Para sua pesquisa, reflexões e confecção ele levou algum tempo até sua exposição, em 2013, que reúne conceitos que se interligam na mostra “Semiótica, Sociologia e Arte da Imagem do Coração”.

Francisco Pereira da Silva Júnior, nascido em Campina Grande-PB (1944) e falecido em João pessoa aos 81 anos foi um artista interdisciplinar, mas, acima de tudo, um estrategista, um organizador /criador e executor de ideias. Era uma das pessoas por trás dos bastidores das realizações artísticas paraibanas. E lutava nas fileiras da frente. Se valia de políticos e de suas trocas, sim. Mas ao contrário daqueles que o fazem por trinta moedas ele morreu sem as pedir para ele. À sua maneira, interligando galáxias ou pontos como no espaço onde paira o coração vermelho, ele foi uma espécie de demiurgo para a cultura paraibana.

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O jovem Chico Pereira ▪ Fonte: YT TVCidade
Ainda insistindo sobre o exemplo do caso do Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) de cuja fundação fui observadora próxima me lembro das palavras do crítico de arte(então monstro sagrado, Roberto Pontual) que disse, numa noite qualquer de boemia daqueles anos, lá em casa: “O NAC cumprirá seu papel na medida em que a universidade que o acolheu o aceite”.

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Sede do Núcleo de Arte Contemporânea (NAC), na rua das Trincheiras, 275, João Pessoa ▪ Fonte: GMaps
Não foi bem assim que as coisas aconteceram. Houve tensões entre o ímpeto vanguardista de inserção da arte contemporânea no espaço conservador da cidade das quase inexistentes acácias e o da própria universidade. Bem como dúvidas, em uma época de muitas incertezas, sobre uma possível interferência do estado em tempos de ditadura. A comunidade não compreendeu e a academia não deu o suporte necessário para uma iniciativa que juntou os artistas Antônio Dias e Raul Córdula, o crítico Paulo Sergio Duarte e o sociólogo Silvino Espínola. Mas Chico fez. Possibilitou. Uniu. E graças a essa capacidade enquanto artífice ou criador do mundo físico ou divindade que possibilita o espaço material, humano e aproxima o homem do divino pudemos na época conversar com Tunga e suas instalações, Cildo Meirelles e suas obras de arte de forte teor político ou Ana Maria Maiolino a artista multidisciplinar que explorou o desenho, a escultura e a performance. Estes criadores, entre os tantos outros que pareciam vir na época de um universo paralelo ao da pacata em todos os sentidos João Pessoa, fizeram a diferença.

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Chico Pereira (1944—2025), escritor, artista plástico, desenhista e professor paraibano, natural de Campina Grande ▪ Imagem: Instagram @ochicopereira
Não vou me deter nas tantas articulações de Chico Pereira. Uma já é grandiosa o suficiente. E outros tempos, outros saberes, provaram que a instituição podia deslanchar e ir além de mais um espaço burocrático expositivo. Mesmo mudando de rota ao longo dos anos, principalmente nos últimos. Lembrando só mais uns poucos fatos ele foi o primeiro diretor do Museu de Arte Assis Chateaubriand (MAAC), de 1969 a 1974, numa época de chumbo, e coordenador do Museu da História da Paraíba em tempos bem mais recentes do seu caminhar.

Estamos num mês de homenagens a Chico. Merecidas todas. Ele trouxe um pouco de luz na densa treva dos tempos.

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