A obra não se entrega à leitura passiva, tampouco se acomoda à linearidade do discurso tradicional. Seu projeto poético parece nascer ...

Abril Alienado, do poeta Percio Lima

A obra não se entrega à leitura passiva, tampouco se acomoda à linearidade do discurso tradicional. Seu projeto poético parece nascer justamente da recusa ao conforto, da negação de qualquer estabilidade semântica. Aqui, a linguagem não funciona como ponte: ela é abismo.

Desde os primeiros poemas, percebe-se que Percio Lima constrói uma poesia movida pela fratura. Existe, em sua escrita, uma consciência profundamente contemporânea da insuficiência das palavras.
Percio Lima, escritor e poeta brasileiro, nascido em Bragança Paulista, autor de diversas obras ▪️ Facebook: @perciolima.lima
O poeta parece escrever já desconfiando da própria linguagem, como quem sabe que toda tentativa de nomear o mundo inevitavelmente falha e transforma essa falha em matéria estética. O resultado é uma poesia marcada por deslocamentos, silêncios e imagens que não buscam explicar, mas provocar estados de presença e estranhamento.

Abril Aluenado apresenta ao leitor uma atmosfera febril, quase onírica. Os elementos que atravessam a obra — o cão morto, o fantasma faminto, o poeta tresnoitado — operam menos como símbolos fechados e mais como entidades errantes dentro de um universo em permanente decomposição. Há algo de espectral em cada poema, como se os versos fossem escritos à meia-luz, entre ruínas emocionais e lampejos de lucidez. Percio Lima compreende que a poesia não precisa resolver o caos: basta habitá-lo com intensidade.

Um dos grandes méritos do livro está justamente em sua coragem estética. Em tempos em que parte da produção poética contemporânea se apoia excessivamente na transparência discursiva ou no excesso de confissão
direta, Abril Aluenado escolhe o caminho oposto: o da linguagem como experiência radical. A gramática se desfaz, os sentidos escorregam, as imagens se multiplicam em vertigem. E, paradoxalmente, é nesse território instável que a obra encontra sua potência mais genuína.

A leitura exige entrega. Não se trata de um livro que oferece respostas ou sínteses reconfortantes. Ao contrário: Percio Lima convida o leitor a abandonar a expectativa de entendimento absoluto e aceitar o risco do desamparo. Ler Abril Aluenado é entrar numa casa onde os corredores mudam de lugar, onde os espelhos deformam o rosto da realidade e onde cada palavra parece carregada de um incêndio silencioso.

Ainda assim, há delicadeza na brutalidade de sua construção poética. O incômodo provocado pelos poemas nunca é gratuito. Existe um trabalho rigoroso de linguagem sustentando a aparente desordem. A escrita de Percio Lima revela domínio imagético, densidade sonora e uma percepção aguda do ritmo interno do verso. Sua poesia sabe exatamente onde deseja ferir e onde deseja suspender o leitor diante do indizível.

Na casa inventada das palavras, um cão morto, um fantasma faminto e um poeta tresnoitado dividem o mesmo espaço
Abril Aluenado confirma Percio Lima como um autor interessado não em reproduzir formas seguras de poesia, mas em tensionar os limites da própria experiência literária. Seu livro transforma a leitura em travessia sensorial e filosófica, recuperando algo essencial da grande poesia: a capacidade de nos retirar, ainda que por instantes, do automatismo do mundo.

Mais do que compreender seus poemas, o leitor termina a obra atravessado por eles. E talvez seja justamente essa a grande vitória deste livro: lembrar que existem linguagens que não vieram para organizar a realidade, mas para incendiar aquilo que julgávamos estável dentro de nós.

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Sobre o autor:
Percio Lima, bragantino de nascimento, iniciou seu trabalho em poesia no projeto "Sete histórias para cantar" (2007), em coautoria com outros escritores. Autor dos livros "Cartilha para o Ocaso" (2016), "Para recolher Auroras" (2018), "Errâncias" (2019),"Poemas e rimagens" (2021) e "Abril Alienado" ( 2026), continua em busca de simplicidade, beleza e metáforas em sua poesia.
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