Nascida por volta de 1507 a.C., Hatshepsut (que significa “a primeira das nobres senhoras”) era uma princesa legítima, filha do rei Tutmósis I e da rainha Ahmose. Após a morte de seu pai, o trono passou para o seu meio-irmão e marido, Tutmósis II, que viria a falecer por volta de 1479 a.C. após um curto reinado. Como o seu enteado Tutmósis III era ainda criança (teria cerca de 2 ou 3 anos de idade), Hatshepsut assumiu o papel de faraó-regente, governando por quase 22 anos (de 1479 a 1458 a.C.).
A única filha conhecida de Hatshepsut foi a princesa Neferuré (também grafada como Neferura), do casamento com o faraó Tutmósis II.
Mesmo após Tutmósis III ter atingido a maioridade, Hatshepsut recusou-se a devolver o poder. Paulatinamente, Hatshepsut introduz os conceitos ideológicos e imagéticos que a farão faraó corregente do Egipto. Por volta do 7º ano de reinado, cerca de 1473 a.C., tomou para si todos os títulos e símbolos masculinos da realeza e coroou-se faraó com o nome de trono oficial Maatkara (ou Maat-ka-re), traduzido frequentemente como “A verdade (Ma’at) é a força vital (Ka) de Rá”, “Manifestação Divina”.
Outros títulos assumidos por Hatshepsut foram: “Hórus de Ouro” (Woserkau), “Aquela cujos kaus são poderosos” (conceito que refletia a multiplicidade de energias divinas e a proteção dos deuses que sustentavam o poder e a autoridade da governante no trono), Nebty e Wadjet renput (que se traduz mais comumente como “Florescer de Anos”, “Aquela cujos anos são florescentes” e “Rei protegida pelas Duas Senhoras”), “Aquela cujas coroas são divinas”, “Rei do Alto e do Baixo Egipto” e “filha do Sol”. Ademais, num genial golpe de propaganda política a um nível a que o Antigo Egito Antigo até então não conhecia,
Estátua de Hatshepsut, esculpida entre 1473 e 1458 a.C. em calcário endurecido. A obra, encontrada em Deir el-Bahari, integra o acervo do Metropolitan Museum of Art, NY.
a fim de legitimar a sua posição, Hatshepsut mandou esculpir em Deir el-Bahari a história do seu nascimento divino: o deus Amon ter-se-ia unido a sua mãe Ahmose, o que lhe atribui um caracter divinizado e validade deífica, fazendo dela filha direta de um deus...
Enquanto Tutmósis III seria lembrado para a posteridade como conquistador (alcunhado de “o Napoleão do Antigo Egito” pelas suas brilhantes vitórias militares, já por volta de 1457 a.C., tinha liderado as forças egípcias na supressão de uma revolta em Kadesh, na famosa Batalha de Megido, uma campanha possivelmente antecipada e organizada pela rainha-faraó), Hatshepsut é recordada como construtora e comerciante, priorizando o comércio internacional, grandiosos projetos arquitetónicos e a estabilidade diplomática em detrimento de campanhas militares expansionistas. Ela ousou romper com o tradicionalismo faraónico desafiando a ética e as convenções do Egipto. Como faraó, Hatshepsut legitimou-se de forma lendária e introduziu uma nova interpretação do poder no Egipto com novas formas de idealizar, produzir e organizar. De forma pacífica, sem episódios bélicos, instituiu a sua visão da divina realeza egípcia, impondo-se de forma vanguardista, numa sociedade patriarcal.
Relevo pintado do templo funerário de Hatshepsut, em Deir el-Bahari. As cenas decorativas preservam a riqueza de cores e a estilização característica da arte egípcia durante o reinado da rainha-faraó. ▪ Foto: C. Raddato
Hatshepsut soube ler o contexto político e social da época e descortinar uma forma inteligente de se legitimar sem colocar em causa todo o tradicionalismo egípcio, tendo sido uma líder visionária e corajosa que ousou desafiar alguma da tradição, implementando ideais que acabaram por conduzir a um período de prosperidade e estabilidade durante o seu reinado. Em termos de política externa, deu primazia às relações diplomáticas e alianças comerciais. Importou para o Egipto novos produtos, restabelecendo rotas interrompidas pelos Hicsos (expressão egípcia heqa-khase, que se traduz como “soberanos estrangeiros”; grupo misto de povos de origem semita asiática que governaram a região do Baixo Egito, o Delta do Nilo, aproximadamente entre 1638 a.C. e 1530 a.C.) e instituindo outras novas.
Detalhes de relevos pintados do templo funerário de Hatshepsut, em Deir el-Bahari, preservando parte das cores originais da decoração egípcia. ▪ Foto: C. Roddato
O paradoxo de Hatshepsut está na forma como ela se representava. Nos monumentos oficiais ela aparecia como faraó homem, com barba postiça (postiche), o schenti (uma peça de vestuário masculina básica, consistindo numa tira de linho branca enrolada ao redor da cintura e presa por um cinto ou nó) e ora ostentava na cabeça a coroa real atef (associada ao deus Osíris, simbolizando a ressurreição,
Estátua colossal de Hatshepsut, representada com os atributos tradicionais do faraó. A escultura de quase três metros revela a combinação entre a iconografia masculina da realeza egípcia e os traços femininos da rainha-faraó.
o domínio sobre o submundo e a autoridade divina do faraó) outorgando ofertas de vinho a Amon, ora a coroa azul de guerra khepresh (coroa azul, conhecida como “coroa de guerra”, frequentemente usada pelos faraós em batalhas, paradas militares e cerimónias importantes, destacando o seu papel de líder guerreiro) com uraeus (a serpente sagrada) ou o nemes (toucado real de linho listrado tradicionalmente usado pelos faraós). Mas em estátuas ou esfinges ela surge mantendo os traços femininos. Algo que poderá ser interpretado como estratégia, sendo que Hatshepsut precisava de ser legitimada pelos sacerdotes, pelo exército e pelo povo. Por outro lado, a arte egípcia era extremamente estilizada e criar representações novas seria algo trabalhoso e moroso para os escultores e pintores. Os faraós eram sempre representados de uma forma masculina, atlética e jovem, independentemente da sua idade ou do seu verdadeiro aspeto físico. A arte egípcia era representativa de uma realeza customizada e não de uma realidade. Tendo em conta também este fator e pesando a tradicional figura do Faraó, Hatshepsut optou por manter a figura varonil e estilizada do rei do Egipto. E é essa imagem que vemos configurada na estatuária que usa para se representar.
Hatshepsut apresenta oferendas ao deus Amon em relevo pintado de seu templo funerário, em Deir el-Bahari. A cena integra o programa iconográfico que legitimava o poder divino da rainha-faraó. ▪ Foto: M. Gaylard
Depois da sua morte em 1458 a.C., Tutmósis III finalmente governou sozinho e tornar-se-ia num dos maiores faraós guerreiros do Egito. Cerca de 20 anos depois, perto do fim do seu reinado, ele ordenou que os nomes, imagens e todo o reconhecimento público de Hatshepsut fossem apagados dos monumentos e da memória coletiva.
Estela dupla com Hatshepsut e Tutmósis III, representados lado a lado em uma cena acompanhada por inscrições hieroglíficas. O monumento reflete o período em que ambos exerceram conjuntamente o poder no Egito.
Os escribas posteriores nunca a mencionam e os seus templos e monumentos passaram a ser creditados aos faraós posteriores. Há muitas teorias para esta decisão. Umas apontam para o facto de, sendo a principal responsabilidade do faraó a manutenção da Ma’at (harmonia, equilíbrio), uma mulher ocupar uma posição normalmente atribuída a um homem poderia ser entendida como prejudicial a esse equilíbrio. O faraó representava um modelo de comportamento para o seu povo e provavelmente Tutmósis III teria receado que outras mulheres pudessem buscar inspiração em Hatshepsut, seguindo o seu exemplo e, dessa forma, afastar-se da tradição, segundo a qual os homens é que deviam governar o Egito e elas serem apenas consortes, assim como nos primórdios, quando o deus Osíris governava com sua esposa, Ísis. Muito conservadora em vários aspetos, a cultura do antigo Egito não valorizava a mudança ou alterações na tradição. Uma faraó feminina, a despeito do quão bem-sucedida, afastava-se da compreensão do papel da monarquia e, assim, todas as memórias daquela faraó precisavam de ser apagadas.
Relevo pintado do templo funerário de Hatshepsut, em Deir el-Bahari. A figura da rainha-faraó (no centro) foi deliberadamente apagada da cena, numa tentativa posterior de eliminar sua imagem dos monumentos egípcios.
Contudo, a teoria mais consensual é a de que este quereria consolidar a linhagem do próprio filho, Amenhotep II, apagando qualquer sombra de disputa dinástica. Mesmo com a damnatio memoriae a Hatshepsut, os esforços para suprimir a regente da História fracassaram, já que atualmente Hatshepsut é considerada como uma das maiores faraós do Antigo Egito.
* nesses lugares foram encontrados dois pares de obeliscos no complexo de templos de Karnak e um monumento arqueológico esculpido na rocha chamado Speos Artemidos, em Beni Hasan, no Médio Egito, local conhecido atualmente na região como Istabl Antar.
Muito do seu legado que se encontrava enterrado em local incógnito ou disperso por lugares remotos* sobreviveria e seria mais tarde exposto amplamente. O próprio Templo de Deir el-Bahari chegou intacto até aos nossos
Fotografia histórica mostrando um dos obeliscos de Hatshepsut, em Karnak, ainda caído entre as ruínas. Os monumentos da rainha-faraó sobreviveram, apesar das tentativas de apagar seu nome e sua imagem da memória egípcia.
dias em virtude de ter sido recuperado como mosteiro cristão séculos depois.
A descoberta do túmulo e da múmia da rainha-faraó Hatshepsut envolveu duas sepulturas diferentes no Vale dos Reis (KV20 e KV60) e uma investigação de mais de um século, solucionada apenas graças ao surgimento de... um dente. Em 1903, o arqueólogo e egiptólogo britânico Howard Carter (o mesmo que encontrou a tumba de Tutankhamun) descobriu a tumba de Hatshepsut, com o seu interior vazio. A múmia seria localizada noutra sepultura muito mais simples, a KV60, descoberta no mesmo ano pelo próprio Carter. Dentro desta tumba estavam os corpos de duas mulheres: uma identificada como Sitra In, a ama de leite de Hatshepsut, e outra mulher não identificada que jazia no chão. O seu braço esquerdo estava dobrado com a mão sobre o ombro e as unhas da mão esquerda estavam pintadas de vermelho, com contorno preto. Assim ficou a múmia, por mais de um século, catalogada como “mulher desconhecida”, depois guardada no Museu Egípcio do Cairo, sem que ninguém soubesse o seu estatuto real.
A múmia de Hatshepsut, identificada em 2007 após exames que associaram seus restos mortais a um dente encontrado em uma caixa com o nome da rainha-faraó. O corpo havia permanecido por mais de um século sem identificação.
O mistério só foi resolvido em 2007, através de uma investigação liderada pelo famoso egiptólogo Zahi Hawass, que comparou o ADN da múmia com o de um dente molar partido, guardado numa caixa inscrita com o nome de Hatshepsut. Ao fazerem tomografias computorizadas às múmias suspeitas, os investigadores descobriram que o dente encaixava milimetricamente na mandíbula daquela mulher anónima encontrada na tumba KV60.
Zelador local guarda a capela de Hathor no Templo Mortuário de Hatshepsut. ▪ Acervo: A. Rodrigues
Até hoje a região do complexo mortuário de Hatshepsut continua a revelar segredos. Recentemente, em 2025, arqueólogos descobriram mais de mil blocos de pedra coloridos e decorados nos arredores do seu Templo em Luxor (Al-Uqsur para os árabes, Waset para os egípcios e Tebas para os gregos), ajudando a reconstruir novas histórias sobre o seu reinado e os monumentos que mandou erguer.
Templo de Hatshepsut, Egito ▪ Acervo: A. Rodrigues
Não há dúvida de que o nome de Hatshepsut será sempre lembrado e ficará insofismavelmente gravado, em letras douradas, na história e na época de inegável esplendor egípcio.