Quem imaginaria que um dia o bicho gente voaria para lá e para cá nas asas de um passarão de metal movido a hidrocarbonetos? Incrível! E, por mais que eu decole e pouse, não perco o encantamento. Geralmente, grudo o nariz na janelinha, abro os olhos e viajo.
Unsp
Primeiro vem aquela aceleradona que até empurra a gente contra a poltrona; depois, o frio na barriga no momento em que as rodas deixam a pista (confesso, nessa hora eu rezo); depois, respiro tranquilo e identifico alguns pontos conhecidos da cidade. O passarão sobe mais um pouco e tudo vai se aglutinando: ruas, prédios, escolas e hospitais se misturam; logo, o mundo fica distante e milhões de suposições chacoalham meus pensamentos.
Unsp
Espero que isso aconteça com vocês também, para eu não me sentir tão estranho. Lá embaixo, aquele formigueiro de gente, milhões de seres humanos que construíram e organizaram essas estruturas recortadas por linhas, cercadas de fios, eletricidade, encanamentos, portas, pontes, rodas, túneis, torres e prédios. Uma complexidade inimaginável para quem cozinhava com lenha, andava descalço e comia frutas no pé.
E agora, a 10.000 pés acima do chão, o piloto informa uma zona de turbulência à frente. Eu sinto uma pontinha de medo e, imediatamente, o bicho treme e balança de leve. Em volta, uns dormem, outros leem revistas e a maioria gruda os olhos no celular em “modo avião”. Meu nariz volta mais uma vez para a janelinha oval e vou contornando o litoral; vejo navios fundeados parecendo barquinhos de brinquedo.
Unsp
Reparo que, mesmo com o crescimento das cidades, ainda há mais áreas verdes e desabitadas que centros urbanos. Acho que a gente gosta mesmo de se aglomerar. Se pegar aquele pedacinho ali perto do mar, acho que soma 1 milhão de pessoas; se contar quantas há naquela parte mais agrupada, passam de 2 milhões; na outra, mais 1 milhão… Só numa olhada, 4 milhões de bichos gente, todos se movimentando, comendo, dormindo, dirigindo carros, outros plantando, cozinhando, arrumando a cama, tomando banho, namorando, calçando sapato… e eu, de nariz na janelinha oval, só viajando…