Em 1986/1987, ganhei uma bolsa de estudos sanduíche, do Conselho Britânico e da Capes, para passar 9 meses na Inglaterra como parte do meu mestrado na UFPB. Meu projeto era sobre a peça emblemática Look Back in Anger, de John Osborne, e eu tinha como foco a raiva masculina. O meu momento de vida era de admiração por isso nos homens, diante da impotência das mulheres. Mas, logo em seguida, viria a perceber que o que me provocava mesmo era o silêncio feminino. Mudei todo o projeto para mergulhar nessa apatia que me atormentava na época. Corpus e vida pessoal envolvidos. Vida e arte.
Ana Adelaide Peixoto (Warwick, Inglagerra - 1986) ▪️ Fonte: facebook
Para viver esse tempo fora como uma estudante visitante na Universidade de Warwick, tive que deixar o meu filho Lucas, com então dois anos e 10 meses de idade, com o pai, uma funcionária doméstica e toda uma família de ambos os lados a cuidar dessa criança. Quem não deu conta fui eu, que tinha na minha frente um sonho a ser realizado e a cobrança para que eu, mãe, me sacrificasse. E eu segui em frente, mesmo com todas as limitações psicológicas que tive. Uma delas foi ter uma insônia grave (logo eu, uma dorminhoca). Depois de noites em claro, um amigo me deu de presente uma fita cassete (sabem o que é isso?) com algumas sonatas de Beethoven. E foi assim que eu comecei a dormir, ouvindo essas maravilhas ao piano. Piano Sonatas: nº 8, “Pathétique”; nº 14, “Moonlight”; nº 15, “Pastoral”; e nº 24, tocadas por Wilhelm Kempff. Eu tive as minhas noites de sono e êxtase, a contemplar, pela janela do meu quarto, as quatro estações do ano. E a viver todas as emoções e aprendizados que poderia, naquele quase ano na Universidade de Warwick, um campus arrojado, com estudantes do mundo todo e perdido no meio do countryside verde e de belezas plácidas.
Cena da série Quatro Mãos e Duas Sonatas ▪️ Fonte: IMDb
Pois bem, assisti por esses dias, para me abstrair do estresse pré-eleição, à série coreana (indicada pela amiga Lenita Faissal) Quatro Mãos e Duas Sonatas, de 2026, dirigida por Park Hyun-seok. Ambientada em Seul, numa escola de artes, a série acompanha a vida de três jovens: Kang Pi-o, Choi Jeong-yo e Hong Jae-in, que se conhecem na escola e exploram suas amizades, aprendizados, romances, rivalidade e crescimento pessoal enquanto vivenciam seus dias de escola e se tornam músicos clássicos de sucesso.
Confesso que tenho dificuldades com as séries coreanas, doramas, mas assisti a mais duas que me encantaram: Navillera (2021) e De Volta às Raízes. Uma dessas dificuldades é a língua. Não gosto dos sons abruptos nem do ritmo. Parece que as pessoas estão brigando o tempo inteiro. Mas me seduz a beleza dos jovens, uma certa inocência das pessoas. Gosto de ver o país, as paisagens, a arquitetura, a natureza, as comidas, os comportamentos, a forma como se relacionam, como lidam com o sexo, o amor, a frustração e as sombras: ganância, ciúmes, mesquinharias, inveja, natureza humana.
A trilha sonora da série é um escândalo! Tantas músicas lindíssimas para o piano. Não sou uma especialista no assunto, nem tenho o ouvido apurado, nem sou uma ouvinte assídua de música clássica, mas elas têm algo que me toca profundamente na alma quando escuto as sonatas de Beethoven, Clair de Lune, de Debussy, Tchaikovsky, Chopin, Rachmaninoff, Liszt.
A Sinfonia número 7 de Beethoven me leva às estrelas, e mais algumas obras-primas do mundo. Quando dei por mim, essas maravilhas lá estavam na série coreana, as minhas sonatas particulares, do meu Tocil Flats, na University of Warwick. O filme passou na cabeça. O meu encantamento por aquela universidade. Os tantos amigos que lá fiz, ingleses, italianos e gregos. O silêncio por entre as árvores no outono; o frio gelado do inverno e eu indo fazer mercado para me deliciar nos alhos-porós e frutas vermelhas. A biblioteca a que eu tinha acesso, todos os livros de que precisava e mais outros; o Word Processor que surgia e eu conseguia digitar nos teclados que não eram meus, mas que me davam o conforto que, na minha máquina Olivetti (presente do meu pai), eu não tinha. Me bateram saudades das minhas amigas chinesas, tão jovens e lindas; de Safia, minha amiga de Bangladesh, de quem nunca mais ouvi falar; dos meus queridos amigos de Thessaloníki, que uma vez na vida me mandam notícias; do meu grande amigo de Milão, que tive oportunidade de ver em 2014, apresentar meu filho Daniel e brindar à vida. As sonatas tocando e eu a me lembrar de mim. Das minhas saudades de Lucas, tão pequenino e circunspecto, que não falava com a mãe ao fone, e, ao mesmo tempo, do meu alumbramento diante de toda aquela experiência a que tive acesso; àquela atmosfera, aos trens e seus destinos, aos livros, aos países e ao mundo.
Ana Adelaide e Daniel Peixoto em Milão (2014) ▪️ Facebook
A vida que vivi em Warwick ficou por lá, por entre os plátanos alaranjados. Meu filho, hoje um homem, pai de família. Eu envelheci. Essa experiência já vai longe, longe. Mas as sonatas de Beethoven me invadiram, cara a cara comigo, aqui na sala de TV.
Vida que segue. E, para aliviar as angústias pré-domingo de eleições, me peguei de novo com o piano. Com a Pathétique, com a Pastoral, a Moonlight e celebrações do domingo e segunda de uma lua cheia radiante.