Li com sobressalto e tristeza a notícia da interdição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em razão de estado avançado do mal...

FHC interditado

fernando henrique cardoso alzheimer interdicao
Li com sobressalto e tristeza a notícia da interdição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em razão de estado avançado do mal de Alzheimer. Ele está com 94 anos e não tem mais condições de gerir sua vida cotidiana. A solução foi os filhos requererem a interdição judicial para que possam cuidar do pai e de seu legado, sob as regras da lei. Para a família, deve ter sido uma dolorosa decisão; para o Brasil, foi uma notícia impactante.

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Impactante. Esta é a palavra que bem pode definir a triste notícia. E aqui atenho-me exclusivamente aos aspectos puramente humanitários da questão, para além, muito além das admirações ou divergências políticas e/ou ideológicas. Quem não lamentará um fato desses? Quem não se tocará com a literal degradação de uma brilhante inteligência e de uma refinada e vasta cultura? A simples morte da vítima provavelmente doeria menos que a sua decadência mental. Pois a finitude é natural, mas não a progressiva transformação do ser humano num vegetal.

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Fernando Henrique Cardoso, professor, sociólogo, escritor e político brasileiro com carreira acadêmica destacada, sendo um dos principais nomes da sociologia na América Latina, ligado à teoria da dependência. Foi ministro das Relações Exteriores, ministro da Fazenda e Presidente da República do Brasil por dois mandatos consecutivos ▪️ Fonte: ABL
Fernando Henrique provavelmente foi o presidente mais preparado intelectualmente de nossa história republicana. Páreo para ele, só D. Pedro II, no Império. Homens notáveis, sob vários aspectos, goste-se deles ou não. E é importante para o país ter, mesmo que poucas, essas figuras referenciais que se destacam em meio à mediania geral. Elas provam que somos capazes de produzir esses espécimes que atenuam nosso complexo nacional de “vira-latas”. Que país não se orgulharia de contar entre seus cidadãos um Machado de Assis, um Gilberto Freyre, um Pelé, um José Guilherme Merquior e uma Nise da Silveira, para citar apenas alguns ícones tupiniquins fora da curva?

FHC, ninguém poderá negar, teve porte de estadista. E assim foi visto e recebido no exterior. Mais que um presidente, era um scholar, um pensador, um intelectual de primeiro plano, ouvido respeitosamente por gregos e troianos. Menos, claro, pelos pigmeus de sua própria tribo, invejosos de seu preparo e de seu brilho. Em 2002, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da universidade de Oxford, na Inglaterra, em cerimônia histórica, embelezada pelos seculares rituais acadêmicos daquela que é uma das mais respeitáveis instituições do mundo. Que outro governante brasileiro estaria à altura de tamanha honraria? Só mesmo o cultíssimo Pedro II, que trocaria de bom grado o cetro imperial por uma cátedra de professor.

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Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, idealizadores do Plano Real ▪️ Foto: Lula Marques (Fundação FHC)
Dele pode-se dizer o que a professora Aspásia Camargo disse sobre Afonso Arinos de Melo Franco: “Poucas vezes no Brasil um intelectual levou tão longe o exercício da política”. E sobre ambos, FHC e Arinos, pode-se dizer também que para eles a vocação era antes a vida intelectual, sendo a política um destino, no caso do mineiro, e um acidente, no caso do carioca-paulistano.

Ao lado do ex-presidente Itamar Franco, FHC, então ministro da Fazenda, estimulou e apoiou a criação do notável Plano Real, responsável pela derrota da hiperinflação em nosso país, já há décadas. Só isto bastaria para assegurar-lhe – e aos brilhantes economistas envolvidos - um lugar honroso no panteão nacional. Mais uma vez, quanto a isso, só os eternos invejosos, donos de almas pequenas, negam-lhe essa glória incontestável. Desde então, e até os nossos dias, a inflação brasileira segue sob controle, preservando o poder aquisitivo principalmente dos mais pobres. Mais que qualquer outra benesse decorrente de programas sociais, é a estabilidade econômica trazida pelo Plano Real que tem protegido milhões de trabalhadores brasileiros contra a carestia e a perda do poder de compra.

E por falar em programas sociais, que dizer daqueles que Dona Ruth Cardoso, com o explícito apoio do marido, implantou pioneiramente em nível federal, promovendo as camadas menos favorecidas da população?
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Ruth Corrêa Leite Cardoso, professora, antropóloga e socióloga ▪️ Fonte: @gov.br
Essa mesma Dona Ruth, antropóloga consagrada internacionalmente, que recusou o título de primeira-dama e fez da discrição um princípio de vida. Em matéria de brilhantismo de casal presidencial, só conheço o caso de Franklin e Eleanor Roosevelt.

Foi fundador de um dos mais respeitáveis partidos políticos da história do país: o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). E o próprio nome já diz tudo: um partido inspirado nas experiências exitosas dos países escandinavos, em que se preservam as liberdades individuais e coletivas e se promove, democraticamente, a justiça social. Um partido que reuniu uma rara galeria de notáveis homens e mulheres da melhor qualidade cívica e moral, como Franco Montoro, Mário Covas, Freitas Nobre, Tasso Jereissati, Pompeu de Sousa, Luiz Carlos Bresser Pereira, Fábio Feldmann, Geraldo Alckmim, Ruth Cardoso, Artur da Távola, Caio Pompeu de Toledo, Euclides Scalco, José Richa, Pimenta da Veiga, Sigmaringa Seixas, José Serra, Heloneida Studart e José Afonso da Silva, para citar apenas os mais conhecidos.

Alguns insistem em esquecer que ele foi um dos líderes da luta pela redemocratização do Brasil durante os chamados “anos de chumbo” e que foi perseguido e exilado. Mas não adianta esse boicote mal-intencionado, porque biografia é biografia, história é história - e ponto final.

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Fernando Henrique Cardoso ▪️ Fonte: TJSP
Falar em FHC é falar no brilhante sociólogo da USP e de tantas outras universidades estrangeiras, na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos, nas quais exerceu não só a simples docência mas também uma verdadeira liderança intelectual. Com vários livros publicados no Brasil e traduzidos pelo mundo afora, tornou-se uma referência na área da ciência política, alguém que era ouvido com atenção não apenas pelos alunos, mas também pelos próprios colegas docentes e políticos. E por esse invejável alicerce cultural elevou o Brasil à condição de ator respeitado no cenário internacional, já que não dizia tolices nem bravatas, sempre ouvindo mais do que falando, ancestral marca dos sábios.

Agora esse brasileiro de escol foi derrubado por uma enfermidade traiçoeira e cruel, que mata em vida o doente, suprimindo-lhe o passado, o presente e o futuro. Sabemos que milhares de famílias no Brasil e no mundo vivem drama semelhante, um drama que parece ter se acentuado expressivamente na contemporaneidade, constituindo-se hoje num dos maiores desafios da ciência. Sob um aspecto, como todas as enfermidades, pode ser vista como uma lição de humildade, principalmente para os ambiciosos, vaidosos e arrogantes, aqueles que pensam ser eternos e acima das contingências da vida, essa vida tão cheia de surpresas e ciladas.

Certamente não é o caso aqui de comentar os acertos e erros de seus dois mandatos presidenciais. Essa avaliação já pertence ao âmbito dos historiadores. Mas como cidadão leigo imagino que o saldo final seja positivo, o que não é pouca coisa, levando-se em conta as dificuldades internas e externas experimentadas por seu governo.

Como brasileiro, simples brasileiro anônimo e sem partido, lamento profundamente essa triste enfermidade envolvendo o ex-presidente, assim como lamento todas as demais vítimas desse mal nefasto. E solidarizo-me, de coração, com suas respectivas famílias atordoadas.

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