A palidez foi considerada beleza da Idade Média ao século XIX, porque indicava status social. Não trabalhar ao sol era um luxo para...

Palidez

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A palidez foi considerada beleza da Idade Média ao século XIX, porque indicava status social. Não trabalhar ao sol era um luxo para poucos.

No Brasil dos anos 1980 e 1990, já não era assim. Ser corado e bronzeado era preferível a ser pálido. Crianças tinham de ter bochechas rosadas, e adolescentes e jovens, um tom dourado ou queimado.

Senti isso literalmente na pele.

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Quando eu ainda atravessava os primeiros anos da infância, havia um rito que se repetia com precisão quase litúrgica. Minha mãe me conduzia ao pediatra, um dos mais respeitados da cidade, com o olhar vigilante de quem não delega ao acaso aquilo que diz respeito ao cuidado. Eu a acompanhava entre a curiosidade e a resignação, já familiarizado com o cenário: o cheiro insistente de álcool, a frieza impessoal da balança, o toque inesperadamente gélido do estetoscópio sobre o peito.

O médico me examinava, fazia perguntas, anotava alguma coisa… e então vinha o comentário de sempre: “esse menino é muito pálido”. Dizia aquilo com convicção, apontando algo que precisava ser corrigido com urgência. Minha mãe, claro, saía de lá preocupada. Se ele dizia, era porque tinha motivo.

Começou uma operação alimentar lá em casa. Entraram em cena o fígado, a rapadura, a banana com melaço, a farinha de milho… tudo o que pudesse, de alguma forma, “fortalecer o sangue”.

Depois de mexer na alimentação, o médico passou a tentar de tudo um pouco no campo dos remédios. Vieram os frascos de sulfato ferroso, aquele gosto metálico difícil de esquecer, as recomendações
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de tônicos fortificantes, tão comuns na época, como Emulsão de Scott, Biotônico Fontoura, Hemovita, Ferronal, além de complexos vitamínicos com ferro e até combinações com ácido fólico e vitamina B12. Era uma pequena farmácia doméstica se formando, com colheres medidas, horários anotados e a esperança de que, em algum momento, a cor do meu rosto resolvesse acompanhar o esforço.

Depois de um tempo, voltávamos ao consultório. Novo exame, nova avaliação. E o médico dizia algo como: “as taxas estão boas… mas ele continua pálido”. Aquilo parecia nunca mudar. Eu continuava sendo um menino com aspecto anêmico, independentemente do que comesse ou tomasse.

As olheiras também não ajudavam. Elas destacavam ainda mais o contraste do meu rosto e acabavam reforçando aquela impressão de que havia alguma coisa errada. Mas, nos exames de sangue, não aparecia nada de anormal. Não havia anemia. Estava tudo dentro do esperado.

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Foi só um dia, numa conversa mais simples, dessas que acontecem sem cerimônia, que minha tia ouviu minha mãe comentar, mais uma vez, sobre a preocupação do médico. E então disse, quase como quem resolve um enigma óbvio: “mas você nunca percebeu que ele não é pálido… ele é branco?”.

Eu não estava doente, nem faltava alguma coisa no meu sangue. Eu apenas tinha aquela cor, aquele jeito de parecer sempre um pouco mais claro, com olheiras que vinham no pacote.

Ainda assim, as circunstâncias não ajudavam. Meu cabelo escuro e escorrido, “como um macarrão”, no dizer de um primo, estabelecia um contraste com a minha pele, acentuando uma alvura esquisita, sobretudo numa missa de sétimo dia. E foi exatamente esse o caso: lá estava eu, um menino pálido, trajado de luto, com um aspecto quase fantasmagórico. Alguém comentou com um parente, que depois relatou o episódio aos meus pais: “quem era aquele menino tão branco?”.

Ao que tudo indica, confundiram-me, por um instante, com alguma aparição. A impressão não foi de todo injusta: naquela ocasião, eu era praticamente um cosplay involuntário de Pugsley Addams, irmão de Wednesday.

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Eu segui comendo farinha de milho de vez em quando, mais por costume do que por dieta médica, e indo menos ao pediatra por causa de uma palidez que, no fim das contas, nunca foi exatamente um problema.

Na adolescência, a história ganhou outro cenário. Saí do consultório e fui parar na beira da piscina. Eu fazia natação à noite, num conhecido clube esportivo, com refletores fortes que deixam a água meio azul elétrica e tudo em volta mais exposto do que o normal.

Eu não era muito de praia naquela época. Enquanto a maioria já vinha bronzeada de sol, sal e fim de semana na areia, eu chegava do meu jeito, mais reservado, carregando ainda aquela mesma pele.

Antes de cair na água, tinha o aquecimento. Às vezes eu vinha cedo, às vezes os outros ainda estavam chegando, e eu ficava ali, dando voltas ao redor da piscina, alongando, tentando entrar no ritmo. Era nesse momento que começava.

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Os meninos que vinham do futebol, mais soltos, mais barulhentos, percebiam logo. Sob a luz dos refletores, minha pele parecia ainda mais clara, quase refletindo mesmo. E aí vinham os xingamentos: “olha a vela branca”, “faixa de luz”, “Gasparzinho”. Sempre nessa linha.

Não era nada elaborado, nem profundo. Era repetitivo, direto, daquele jeito que adolescente faz quando encontra uma diferença e resolve transformar em apelido. Eu ouvia, às vezes fingia que não era comigo; às vezes só acelerava o passo e continuava o aquecimento, esperando dar a hora de entrar na água.

Não houve nenhum trauma. Foi mais uma dessas experiências que vão acontecendo, que a gente vai atravessando em silêncio, aprendendo aos poucos a conviver com o olhar dos outros e, principalmente, a não depender tanto dele.

Quando eu já achava que esse assunto estava resolvido, arquivado junto com as histórias da infância e da adolescência, outro episódio surgiu. Eu já era visto como moreno, mais bronzeado, integrado ao tom comum das pessoas ao meu redor. Ninguém mais falava disso.

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Então veio a apendicite estrangulada. A coisa complicou, houve risco sério, uma recuperação mais longa do que o esperado. Passei um bom tempo em convalescença, praticamente um mês ou mais, afastado de tudo, inclusive do sol, que até então já fazia parte natural da minha rotina.

Aos poucos, sem que eu percebesse muito, aquela cor mais clara foi voltando. Era o mesmo corpo, a mesma pele, só sem a intervenção do sol. Um dia, um amigo foi me visitar. Olhou para mim, meio sério, e depois comentou, visivelmente preocupado: “rapaz, eu estou lhe achando muito pálido”. Aquilo me soou estranhamente familiar.

O tempo passou, eu me recuperei, voltei para casa, retomei a rotina, voltei a pegar sol. E, como antes, a cor foi mudando de novo, sem esforço, sem plano. Num desses reencontros, já melhor, esse mesmo amigo me olhou com mais calma, como quem revisa uma impressão antiga, e disse, meio rindo da própria conclusão: “agora eu entendi. Eu pensei que você estava anêmico, que tinha perdido muito sangue na cirurgia… mas não. Esse é o tom da sua pele”.

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Era só uma constatação, sem alarde, sem rótulo. Como se, depois de tantos anos, aquela frase finalmente tivesse encontrado o tom certo.

Ninguém mais comentou. Sumiram os apelidos, sumiram as observações, sumiu aquele olhar que parecia medir alguma coisa fora do lugar.

Mas, como se a vida gostasse de fechar ciclos com um certo senso de ironia, veio um outro episódio.

No velório da minha mãe, em meio àquele silêncio pesado e às presenças que surgem depois de muito tempo, percebi uma mulher me olhando do outro lado da sala. Um olhar demorado, meio desconfiado, analítico, como quem tenta encaixar uma lembrança antiga numa imagem atual.

Depois de algum tempo, ela se aproximou e perguntou, com cuidado:

“Você é o filho mais velho dela?”

Eu confirmei. Ela fez uma pausa curta, ainda me examinando, e disse:

“Eu estava ali te olhando de longe… estranhando. Você está tão diferente...”

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Sorri de leve, achando que vinha algum comentário sobre o tempo, essas coisas inevitáveis. Eu mesmo comentei:

“É… depois de velho, né… a pessoa vai ficando…”

Ela interrompeu, meio sem saber onde queria chegar:

“Não, não é isso não…”

E foi aí que concluiu, quase aliviada por finalmente entender:

“É que eu estou achando você muito moreno. Eu me lembro de você muito branco.”

Naquele contexto, a frase poderia soar deslocada. Mas não soou. Pelo contrário, teve algo de curioso, quase leve, no meio de tudo aquilo.

Era uma lembrança antiga encontrando uma versão diferente de mim. Como se, depois de tantos anos, aquela velha história tivesse mudado de tom…

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Hoje, a rotina é outra. Toda manhã eu saio cedo, atravesso três ou quatro quadras até o supermercado, já debaixo do sol das sete, que aqui não brinca. É um caminho simples, quase automático, mas constante. E a pele responde.

Sem esforço calculado, sem aquela intenção de “preciso me bronzear”, fui ficando com um tom mais fechado.

Se alguém me olha, dificilmente vai suspeitar de alguma história desse tipo. Estou moreno, de um jeito natural, incorporado mesmo.

Eu não preciso pensar em praia, nem em tomar sol por estratégia, nem em qualquer tipo de bronzeamento, natural ou artificial. A vida comum deu conta do recado.

Não há mais comentários, não há mais rótulos. Só o cotidiano.

E fico com a impressão sincera de que, enfim, esse tom moreno se assentou em mim. Decidido a ficar.

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