Desde quando Chico Pereira fez sua passagem ao mundo desconhecido, busco na memória uma lembrança dos encontros, uma frase, um gest...

E agora, sem Chico

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Desde quando Chico Pereira fez sua passagem ao mundo desconhecido, busco na memória uma lembrança dos encontros, uma frase, um gesto dele como marca do nosso relacionamento de amigos. Depois de desanuviar da mente a dor de sua partida, construí o perfil dele como sendo um homem bom.

Não quero ter dele a derradeira imagem retida do ataúde, mas o Chico Pereira das conversas cheias de ensinamentos,
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Arte: Chico Pereira
da pintura que eternizou os momentos de sua embriaguez mística, da poesia escrita com o pincel. Ele foi o artista das marcas que guardam o passado da nossa cidade e perpetuam o tempo presente.

Quero falar de Chico Pereira que conheci nos anos de 1980, época em que raspava no tacho da memória minhas crônicas e poemas escritos em momentos de saudade e pousava, acanhado, pelos recantos da cidade, respirando cultura.

Nos anos de 1970, com retardo, depois de pitigorar a Biblioteca Pública, apinhada de livros, visitar exposições de pinturas e escutar conversas nas rodas de cultura, conheci Chico Pereira. Com a calma que lhe era característica, ele apontava caminhos construídos pelas artes e pela palavra. Como sempre fui de observar e escutar conversas mais do que arriscar pitacos, nesses encontros recolhia o sentido da arte como alimento espiritual.

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Chico Pereira (1944-2025), artista plástico paraibano, professor do Departamento de Artes Visuais da UFPB ▪️ Instagram: @ochicopereira
Ele teve a capacidade de observar as artes como um sonho. E, voando em seus sonhos, pintou imagens apontando para o alto, como se estivesse alçando voo.

Sabia observar com atenção uma obra de arte, penetrar no mundo dos livros, escutar uma música — música genuína, clássica, armorial, por exemplo — ou contemplar uma pintura. Muito nos ensinou a olhar o mundo com os olhos da alma.

Homem de bom coração, pacífico, não tinha gênio azucrinado. Sempre apontou caminhos para a contemplação da arte como forma de transformação. Tinha fina sensibilidade, calmo ao extremo, nunca pronunciou palavras ásperas.

Chico provou, com seu trabalho de artista, que "a arte é uma confissão de que a vida não basta", segundo Fernando Pessoa. A beleza real está no que observamos para além do que os olhos veem. "O essencial é invisível aos olhos", escreveu Saint-Exupéry.

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Chico Pereira por ocasião de sua posse como membro da Academia Paraibana de Letras ▪️ Fonte: TJPB
Certa vez, palestrando em nossa Academia, ele à cabeceira da mesa e eu ao lado, recordávamos momentos em que nos encontrávamos na elaboração da revista para o Conselho Estadual de Cultura, com o registro de tudo o que tinha acontecido na área cultural da Paraíba durante o ano findo. A obra era distribuída na Noite de Cultura, em momento de louvor às artes. A revista tornou-se um valioso documento para estudar os movimentos artísticos da época.

Chico sempre observava os lugares com um olhar diferente, captava o equilíbrio da vida urbana, mesmo que a natureza rural ganhasse destaque em sua obra. Na natureza está o estrato da poesia, que ele soube observar e extrair com afinação.

Deixou o registro de sua marca cultural, eternizou a vida pela arte. Explicava tudo com a calma de quem se deixa embriagar pela suavidade das artes. O silêncio das artes era a seiva que mantinha Chico em movimento. Foi assim
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Álbum editado por Chico Pereira com mais de 1200 imagens — mapas antigos, fotos históricas e ilustrações — sobre os diferentes aspectos da cultura paraibana ▪️ Editora Grafset, 2012
no decorrer de toda a sua existência: um inquieto artista que transformava os ambientes onde chegava, como a brisa fresca do entardecer umedece o campo. Com sua palavra calma e gestos contritos, dava suavidade ao ambiente onde tudo parecia pesado.

As palavras de seus filhos, por ocasião da despedida na Academia Paraibana de Letras, deram a dimensão de quanto era amado. Os gestos e as palavras de afeto emocionaram profundamente, fazendo do momento uma louvação à memória de quem cultivou as sementes da arte e do amor. Sentimos como se ele estivesse sendo conduzido pelas asas de anjos imaginários, entre cânticos de louvor e incenso perfumado.

Durante atuação na missão diaconal, procedi com diversas encomendações de corpos, mas nunca presenciei a despedida definitiva de uma pessoa com tamanha e intensa vibração de paz.

Como sempre, na última saudação ao falecido, fazemos sua encomendação a Deus, pois os ritos das Exéquias exprimem o caráter pascal da morte cristã, na perspectiva de consolo dos familiares em face da perda (2 Cor 5,5). Os cantos e orações dão esse sentido de acolhida na eternidade.

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