Dou com Tristão de Ataíde em confissão de grande dívida para com a influência de Chesterton. Como sou grato a Tristão, desde muito, pelo...

A viva luz do olhar

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Dou com Tristão de Ataíde em confissão de grande dívida para com a influência de Chesterton. Como sou grato a Tristão, desde muito, pelos fundamentos e segredos que os cristais do seu ensaio traziam à rudeza de minha percepção , ponho-me agora a correr atrás de Chesterton. Impressionou-me a veemência da confissão. Como poderei bicar esse escritor e pensador de tamanha influência?

Não me ocorreu que nesta minha idade a mente perde o visgo. Não reconhece páginas inteiras já lidas. Há vocábulos com não sei quantas marcas de retorno no dicionário. Mas sempre fica um resíduo. Algo me dizia já ter visto por cima o gigante de Alceu. E terminei achando uma seleta do conto inglês de 1944 com G. K. Chesterton, antecedido de nota biográfica.

Fui lá, virei três ou quatro páginas e veio o sono do almoço. Não deve ter vindo da leitura, mas de mim mesmo, olhando há mais de cinqüenta anos para os mesmos dorsos da estante. A avidez da procura desmerece, e até a cadeira já não parece tão confortável quanto achava o freguês de Henrique da Pernambucana, vizinho da Agência Nova, livraria dos irmãos Macedo, única com suprimento para as esquerdas.

E procuro em que desparecer. Abro a gaveta de baixo, atrás de um radiosinho velho e avisto uma foto emborcada e amarelecida. Duvido que deixemos uma foto à margem da nossa curiosidade. Quanto mais velha e desprezada mais apetecida. E quem me aparece?

Não só me aparece como me arrasta a seu núcleo ou a seu tempo. Alguém está fumando perto, o cheiro é forte. Ou vindo para perto do antigo viciado, adentrando nos doze metros de minha tenda.

Na foto, estão inaugurando a sede nova da Rádio Tabajara, e D. Lucia encabeçando a assistência com o velho Abelardo Jurema e Amir Gaudêncio, está de olho em mim, eu de mangas de camisa com a aflição de quem procura palavras para o seu discurso. É que me bati pela preservação da joia de prédio da Tabajara antiga com aquele auditório de prestigio nacional. Mas não fui ouvido ao lado de Linduarte, de Martinho Moreira Franco, de Lauro Xavier, dos românticos da preservação. E me vendo ali, Wilson Braga, por castigo, manda me anunciar ao microfone. E fiz lá minha lenga-lenga, aqui rediviva, sob os olhares de uma assistência ou um público do qual só restou a foto.

O que havia de passar, passou. As gravatas e os paletós solenes já não têm a quem vestir, todos ou quase todos foram recolhidos, mas deixando no olhar, que é luz do espírito, o seu momento.

“ Acenda a luz, o que é que você está vendo no escuro?!” – é a patroa reclamando uma falta de luz que eu não havia notado.

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  1. Neste lamentar de Gonzaga, há um que de lembranças cada dia mais recolhidas a baús de esquecimento que infelizmente se multiplicam.
    Já se foram prédios icônicos, como o de A União e outros, enquanto remanescentes aguardam sua vez para entrar nessa listas de perdas, como o Solar de Walfredo Rodrigues e sua notável coleção de fotos; a casa onde nasceu nosso Virgínius da Gama e Melo; os prédios do Porto do Capim, onde funcionaram órgãos federais como a Alfândega, a Capitania dos Portos e outros e os armazéns que serviram, segundo se fala, de entreposto para recebimento de munição destinado à nossa Polícia Militar, durante a chamada "Guerra de Princesa", e tantos outros.
    Infelizmente, parece-me que só nos resta o lamento...

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