Do que vivi, estou morto. Mas, no porvir, ressurreto. Haverá sempre algum porto onde ancorar meu desejo. Ao recuar, continuo. Na falta, me complemento. Na dispersão, me situo. Do “não”, extraio o consenso.
Espólio Do que vivi, estou morto. Mas, no porvir, ressurreto. Haverá sempre algum porto onde ancorar meu desejo. Ao recua...
O amor faz parte da poesia da vida. A poesia faz parte do amor da vida. Amor e poesia engendram-se mutuamente e podem identificar-se um c...
As flores do jardim de Juca Pontes
Edgar Morin, em “Amor, poesia, sabedoria”.
Quando quinta-feira (3) chegar, completará 120 anos que nasceu, em berço paraibano, um ilustre escritor, que conquistou projeção além-cont...
O universo de José Lins do Rego
LUA De tão distante eu te observo Pelas frestas da janela, Noite alta, escura a rua. Só eu desperta a te sonhar ó Lua. Quem...
Sonhos distantes
O poeta Jorge de Lima ao leito da morte, agonizante, sem perder a esperança, registrou em diário pensamentos que ajudam pessoas a edificar...
As últimas páginas são eternas
Ocorreu-me lembrar do gesto do poeta alagoano ao escutar as palavras derradeiras do jovem prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas, que encarou a proximidade da morte com serenidade. Somente homens penhorados com harmonia espiritual são capazes de elevados gestos.
Era onde ele espatifava o minguado dinheiro recebido como escrevente de repartição pública estadual. Andava na ginga. Paletó lascado atrás...
Noivado perene
Napoleão Ângelo, dileto companheiro de jornal, pergunta onde fica o Conjunto João Goulart mencionado em algumas crônicas. Não acontece ...
O conjunto João Goulart
Não acontece muitas vezes: o João Goulart foi construído pelo Ipase num despenhadeiro depois dos Expedicionários que esbarra na Beira Rio. Recebeu esse nome, existiu, portanto... mas perdeu a identidade. No Guia da Cidade de Ernani Seixas já não constava.
Aqueles que têm mais idade irão lembrar, principalmente, os nordestinos que chegaram a ter o prazer de assistir a shows, ou mesmo de dança...
Como surgiu o prefixo musical de Luiz Gonzaga
Eu tinha 13, 14 anos quando meu pai me deu o livro “Primeiro Encontro com a Arte”, da Melhoramentos, do alemão-depois-baiano Karl-Heinz Ha...
Um grande momento (fake) de minha vida
Todos nós temos a ideia falsa de que pessoas inteligentes são sensatas. Nem sempre. Aliás, estamos vivenciando um tempo em que aumenta c...
Inteligência versus insensatez
“Les croque-morts descendaient le cercueil. Maussade sous la bise, le prêtre attendait; et des fossoyeurs étaient là, avec des pelles. Tr...
Os dez não eram mais que sete
Desejos Mergulhar no talento, na missão, no que sei fazer Mergulhar na amorosidade e na entrega Nadar na direção da vida que pu...
Saber voar
Mergulhar no talento, na missão, no que sei fazer Mergulhar na amorosidade e na entrega Nadar na direção da vida que pulsa e que se refaz Ao mesmo tempo, saber que sou um peixe capaz de olhar em toda direção Estar atenta, ciente que no mergulho não estou só Perceber, saber ver, saber nadar Há peixes de diferentes qualidades na água caudalosa do rio Existem peixes que sobrevivem comendo peixes.
Na Paraíba, tudo começou com a Rádio Clube, em 1932. Era uma época em que a radiofonia brasileira emergia da iniciativa de um ou outro gru...
Sempre no ar (desde 25 de janeiro de 1937)
É recorrente na tradição greco-romana o tema da catábase, κατάβασις, que literalmente significa a ação de andar para baixo. Trata-se da des...
O poder fantástico e transformador da psicanálise
a dor em pessoa no hipocondríaco eu-lírico de Pessoa doía mais a dor fingida do que a dor em pessoa pessoalmente ...
Mar lusitano
Tenho por hábito fazer alguns exercícios de memória. Costumo buscar nos escondidos do tempo, passagens de minha primeira infância lá nos e...
Eu, entre o mar e a serra
Em tempos de clonagem, golpes virtuais e fraudes, percebo que alguma coisa está errada com meu telefone.
Conto ou não conto?
Quando as ruelas já quase nem são caminhos, é impossível lembrar a última vez que certas portas e janelas foram abertas ou fechadas. Antes...
Janelas, portas e paredes
Em que medida o elemento autobiográfico se insere na poesia de Augusto, autor de um único livro sintomaticamente intitulado Eu? Para res...
Autobiografia e lirismo em Augusto dos Anjos
“Você tem um ouvido muito bom”. “Ele toca tudo de ouvido”... Tantas vezes escutamos alguém dizer isso sobre certos talentos, quando se fal...
O dom de ouvir
Entende-se que ter um bom ouvido está associado a boa memória auditiva, o que também ajuda aos considerados “afinados”, os bons de solfejo, que sabem entoar uma melodia ou tocar um instrumento.
Tenho um amigo-jardim. Ele planta flores nos meus dias. Cria quarentenas imaginárias, lugares povoados de rara beleza, fartas doses de poe...
Um amigo-jardim
Há muito tempo que eu adiava o horror que seria ir à casa onde morei e da qual carrego ainda comigo coloridas embora indesejáveis lembrança...
Essencialidades
Conheci Rita Lee nos Mutantes . Ando meio desligado me pegou e nunca mais me des-conectei dessa turma. Mas quando li sua autobiografia (...
Rita Lee: uma ovelha de todas as cores
Até hoje gosto muito. E fui dançar num certo ano novo passado, nas areias de Tambaú, com a roqueira do cabelo vermelho mais alegrinha, recém saída de um auê em Aracaju.
Originado do sânscrito e que significa “professor”, o termo guru tornou-se popularmente a qualificação de alguém ,com extraordinária sab...
Meu Guru
Resolvi ir longe nesta caminhada mental que ainda me fica. Dessa vez aonde nunca imaginara, mesmo andando para trás e por caminhos nunca p...
Como sair dessa
Apeio-me onde a eletricidade ainda não chegou, tampouco o telefone. Automóvel nem pensar, sendo as febres, as endemias e epidemias, de um modo geral e cada uma a seu tempo e mais carregadas, os grandes incômodos de sempre.
O menino que se chamava Leonardo Francisco Salvatore Laponzina, nascido no Brooklin, filho de pais imigrantes sicilianos, sempre quis ser ...
Da Broadway para o Beco das Garrafas
Ontem eu saí para ver a rua. Estava deserta e silenciosa. Uma mancha prateada no céu dizia que a lua estava lá. As nuvens esvoaçavam lembr...
Ventos do passado
Veio uma brisa fria com cheiro de chuva. E como numa espécie de encanto ouvi uma nuvem dizer:
“Se você quiser posso contar uma história?! “
Então ela começou a contar...
Cuité, julho de 1974.
Uma noite dessas de pandemia, sonhei com Albertina a senhora que trabalhou por muitos anos na casa do meu avô, onde vivi desde que nasci. ...
Albertina, um ser especial
Quando eu era criança ela não gostava que eu ficasse na cozinha, mas eu estava sempre lá fazendo alguma traquinagem. Nessa época, a galinha era comprada viva na feira e morta no quintal, horas antes do preparo, e eu acocorada acompanhava tudo bem de perto, mesmo com os protestos dela. Um corte no pescoço, rápido para tirar o sangue e fazer o molho à cabidela,
Datilografei meus primeiros romances – nos anos 70 - e algumas peças de teatro – nos anos 80. Os filmes de que participei como ator, naq...
A estrutura de cada época
Quando do último grande embate na faixa de Gaza, era o ano de 2009, escrevi os primeiros 3 poemas abaixo e inclui, de última hora, no meu ...
Céu de bombas
Outros momentos críticos ocorreram, e escrevi mais alguns poemas motivado pela crise humanitária na terra de origem de minha família.
Hoje, uma nova crise se instala na região. Muito triste ver o extremismo se instalando, novamente com força, no Mundo.
Escrevi o último poema, agora com uma mensagem de esperança. Compartilho com os amigos deste espaço literário dedicado à palavra.
Estaria reservado no escaninho dos deuses tão impensada tormenta? Movimento primevo: revoada dos pombos. Quebrado o instante, brancas penas restaram na praça. Crianças absortas, festejando o dia, imaginaram dragões e fadas. Anciões se entreolharam e cismaram do céu... Ato contínuo: zunido, estrondo, perplexidade. Malfadado encontro: pó e silêncio. Os primeiros gritos, embotados pela poeira do subentendido. O som antecipou a imagem suspeitada. Fez-se a desolação nos rostos que se ergueram. Os primeiros gestos, lentos, não acompanharam o frenesi do pensamento. Desespero. – Como é possível minar tanta água desses rostos de areia? Coube ao acaso a seleção dos fortes (que recolheram os corpos). Ao poema, cabe despejar sobre o chão, e na cara dos facínoras, uma resma de dúvidas. De algum ponto, cabe o recomeço.
Ser o vento desperdiçando a força nas folhas mortas (Um passo, ou outra maneira de deslizar na existência) E ao saber o nome das pedras atiradas, demovê-las da urgência de sangue.
Águas Sinto o chamado das águas! Vou em ânsia buscando um antigo caminho Margeado de flores quase secas. Incapazes de lut...
O rio que deságua no meu peito
Sinto o chamado das águas! Vou em ânsia buscando um antigo caminho Margeado de flores quase secas. Incapazes de lutar contra o sol causticante Elas não pedem nada, querem apenas ser No limite do tempo que lhes foi destinado. Nada têm a fazer senão florir, eu tenho. Junto palavras, costuro frases, histórias Colhendo vagos vestígios
Tenho falado de uma visão sistêmica do fato literário, o que, em si, não é nada de novo. É quase impossível falar isoladamente de um texto...
Abra seu horizonte de expectativa!
Você consegue imaginar uma música que, muitas vezes, parece ser guiada pelos silêncios e pausas entre os acordes e notas, e não propriamen...
Debussy e Jobim: uma ponte impressionista
Surge um sinal alvissareiro de abertura ou de meio alívio na recomendação da autoridade americana de se poder baixar a máscara, certamente...
Vacinando, dá
Vacinando, dá.
Ricos, ainda os mais ricos do planeta, à hora em que chegou um governante que considerasse a imunização questão de vida e morte, o resultado veio à tona. Dinheiro não faltou e, bem mais importante, a vontade firme e, com perdão da má palavra, autoritária. Nesses casos tem de ser autoritária, quando a vida humana está em jogo.
Os Estados Unidos, pelas condições imperialistas particulares da ciência e tecnologia que desenvolvem, e, claro, dos meios de acioná-las, nos apavoraram a todos, a povos de todos os níveis, quando se deixaram dominar pelo inimigo invisível, ainda hoje sem origem. Os americanos começaram a desconhecer o seu presidente.
Chegou com 1 quilo e 400 gramas. Mal ficou em pé e já saiu andando desengonçada pelo corredor, cheirou todos os cantos até fazer o primeir...
A chegada de Lola
Pela grade fechada com dois cadeados e correntes vejo duas borboletas fazendo uma ronda no gramado da praça. Parecem voar aleatoriamente...
Borboletas e soldadinhos
Levei muito a sério aquela máxima escrita em alguma página do Livro Sagrado: “Crescei-vos e multiplicai-vos”. Não sei se cresci tanto as...
A raspa do meu tacho
Certa vez percorri o Rio Gramame, a barco, realizando desejo desde quando aqui cheguei, em meados de 1971. Conhecer os arredores des...
Um rio que entrou na minha vida
Conhecer os arredores deste rio, penetrar na profundidade mítica do manguezal, até certo ponto acalentador, era minha vontade. Foi um passeio inesquecível e de recordações porque, conhecendo-o de passagem, agora eram suas águas que me transportavam lentamente, enquanto observava sua paisagem. Um lenitivo para a alma.
Estreando em livro no auge da efervescência das vanguardas, Águia Mendes não fez do concretismo e seus desdobramentos uma espécie de cláus...
Uma obra em progresso
Na turma, todos queriam ser escritores. Rabiscavam contos, poemas ou trechos de romances e mostravam uns aos outros em mesas de bar ou nu...
Alguma coisa
Marcos precisou se mudar para uma cidade maior que a sua. Demorou mais do previsto. Depois de tantas tentativas, finalmente passou no ves...
Nunca é tarde para rever
Conforme seu pai descreveu, quando chegou na pensão Paraíso, encontrou o sábio Sr. Manoel sentado na sua cadeira de balanço, pitando seu cigarro de palha enquanto viajava pelos pensamentos.
“Isto é o caos em vez de música”. Assim intitularam um artigo publicado no Pravda, o jornal oficial do Partido Comunista da União Soviétic...
Quarenta minutos de aplausos
O Pravda se referia à obra de Dmitri Shostakovich, justamente após Stalin ter se retirado da plateia no intervalo da apresentação de uma de suas óperas, "Lady Macbeth", acompanhado dos demais membros da cúpula do Partido. A obra conquistara estrondosa repercussão, encenada 180 vezes em apenas dois anos, e não se sabe exatamente
A Teoria do Caos é até hoje intrínseca ao espetáculo da existência, celebrada em muitos campos do conhecimento científico. O próprio Universo, microscópico ou macroscópico, seria um fenômeno fundamentado em aparente imprevisibilidade, sujeita a condições não predeterminadas. Assunto que atraiu nomes como Fritjof Capra, Hubert Reeves, André Dreyfus, David Ruelle, Stephen Hawking e o próprio Einstein, entre muitos outros. Para a maioria, nada é presumível e totalmente conhecido no milagre infinito da vida. Pelo contrário, mistérios e buracos negros continuam assombrando, diante dos quais advertiu Hawking, à luz de Dante, na porta do inferno: "Deixai toda esperança, ó vós que entrais".
Parafraseando Alighieri, diríamos “enchei-vos de esperança, ó vós que ouvis a música de Shostakovich” na qual o imprevisível é a beleza. Não há obviedades formais, tonais, objetividade alguma, e sim uma infinda liberdade de expressão. Tal como inconstante é o fluir de tudo o que existe, a exemplo dos processos estocásticos em que o aleatório se contrapõe tão indeterminado quanto perfeito, é a sua música que evolui em direções imponderáveis.
Quiçá tenha sido o poder de criar com tamanha vastidão o que cativou e espantou Stalin, ao ponto de fazê-lo temer a contaminação emocional do povo que mantinha sob jugo político-ideológico. Ressalte-se que a música de Dmitri já havia rompido todos os limites nacionais e contagiado a Europa Ocidental de maneira surpreendente. Principalmente, quando ele foi repudiado a partir de Lady Macbeth e da crítica do Pravda, por não se adequar às normas do “realismo socialista” impostas pelos stalinistas e que todos os artistas e criadores deveriam adotar em sua linha de produção.
Ao viger das restritivas recomendações oficiais, o compositor estava escrevendo sua quarta sinfonia, mas resolve suspender e dar início à quinta, tentando se moldar aos preceitos políticos recomendados pelo Partido Comunista, e estreou-a com a Orquestra Filarmônica de Leningrado, em novembro de 1937.
Maravilhosamente “caótica”, ainda que sob criatividade supostamente restrita, a Quinta Sinfonia em Ré Menor, Opus 47, foi um imenso sucesso. Com impressionante riqueza temática que se insere em variada gama de possibilidades sonoras inimagináveis, a obra está muito longe de ser bem comportada, estética e formalmente. A diversidade de atmosferas, estilos, abordagens, combinações,
Em estudos científicos sobre códigos que transcendem a previsibilidade, a arte, a música e a poética se afinam à luz da matemática superior como complexas estruturas geométricas, por vezes associadas a organismos psicodélicos, caóticos e “enlouquecedores”, a exemplo dos fractais que cativam pela hipnotizante beleza.
Assim é a música de Shostakovich. Ramifica-se aleatória e imprevisivelmente como os caminhos de seu balé — “O Córrego límpido” (Op. 64) — pelo leito terreno e pelos raios que se estampam na cúpula celestial tempestuosa.
Apesar de ter sido escrita após a ordem para que os artistas guardassem “fidelidade” ao regime soviético e às “regras” estéticas impostas pelo governo stalinista, Shostakovich venceu todos os limites da liberdade de expressão em sua Quinta Sinfonia. Aliás, alguns críticos referem-se como superiores as obras concebidas durante o período intenso e doloroso de sua história — a Segunda Grande Guerra e o regime stalinista — quando, para poder se ajustar às exigências políticas, exerceu a inspiração de forma inteligente e subliminar, inclusive conseguindo criticá-las sutilmente sem que Stalin e a maioria do público percebessem.
Estruturada classicamente em 4 movimentos, a quinta é mesclada com impressionante diversidade na fruição musical inovadora. Não fosse infinita a fertilidade da divina arte, poder-se-ia dizer que ela contém tudo o que a música ousaria exprimir.
Já no movimento inicial (Moderato), o universo é amplamente difuso. Na fatídica introdução, eis o Shostakovich apresentado com a pompa de sua índole sinfônica . O primeiro tema circunscreve-se sob a peculiar seriedade, repetido delicadamente em timbres que se contrapõem variados, ora soando inteiro, ora fragmentado, para concluir a primeira exposição.
O segundo tema começa com reflexões poeticamente ritmadas , solfejado em cordas agudas, depois em sopros, que após uma segunda apresentação, converge em direção à primeira surpresa: o súbito aparecimento de um piano a dialogar solenemente com os metais! . Tudo muda, como sugere o “acaso”, sucedendo-se a rica e agitada profusão que ruma acelerando-se voluptuosamente para mais uma inesperada situação: a celebração marcial militarmente percutida com tímpanos caixas, tambores e, por fim, nos xilofones.
Esta parte é finalmente coroada com a aparição do terceiro tema, uma demonstração inequívoca de que um fraseado melódico é capaz de seguir inimagináveis caminhos, fortuitos como o traçado de riachos e auroras boreais, sem se afastar da coerência contextual de sua natureza criativa .
Seguindo-se à apologética conclusão, abruptamente despontam raios de ternura na insólita atmosfera que casualmente se instala na dulcíssima melodia conduzida pela flauta transversal que dialoga com o lamento das trompas. O clarinete entra, seguido de fagote, oboé, e, por fim, cellos e metais se fundem aos mistérios da etérea e crepuscular despedida, salpicada pelo brilho do flautim, das harpas e de uma doce celesta .
Eis que se instaura o jocoso segundo movimento, deliciosamente dançante e musicalmente debochado . O bucolismo campestre saltita valsando por sopros e madeiras como a parodiar o “efeito borboleta” da Teoria do Caos nos volteios de borboletas em um jardim florido.
Um tema sincopado extremamente gracioso e dançante marca este andamento com personalidade inesquecível . É o Shostakovich folclórico, circense, das valsas, da arte russa, do balé, sentido em cada nota, cada arpejo, cada frase do mundo colorido deste provocante Allegretto, intensificado por amoráveis pizzicatos e staccatos.
Notícias da época enfatizaram a grande emoção que o Largo (3º movimento) causou na plateia. Lágrimas foram vistas descendo dos olhos ao peito enternecido, com a alma nitidamente circunspecta. Neste andamento, o autor convoca o ouvinte a uma pausa para um encontro com questionamentos íntimos que só a consciência desnuda penetra. Lá se encontram dúvidas e reflexões existenciais que se lançam sobre vivências e experiências de todos os contornos do eu. Há no que é revelado pela música certo espanto perante a grandeza da criação: um convite à introspecção resignada que emerge da sabedoria de uma compreensão maior. É ternura o que soa, é poesia o que deflui da cativante sonoridade.
Ao longe, agudos violinos se juntam à latente nostalgia e conversam com os cellos para introdução da magia, no encanto das harpas que elevam o canto da flauta às alturas da sublimidade . Uma imensa paz toma conta do ser, que entra em transe com a mensagem acalentadora.
Mas em Shostakovich nada é estanque, tudo surpreende e o Largo prossegue com efusiva declamação orquestral, trêmula e trágica, martelada pelo xilofone, elevando o contexto ao ápice como se desejasse exorcizar toda a instabilidade provocada no íntimo do espectador . E a conclusão, outra vez inusitada, devolve o encantamento que cintila oniricamente no cosmo, com as harpas dando suporte ao
Finalmente esbraveja o velho Dmitri, bem ao seu entusiasmado estilo, anunciando o último movimento. Um verdadeiro desafio aos músicos diante da complexidade de execução com grandiosidade frenética a se infiltrar em todos os timbres, entrosados em perfeição logo coroada com o triunfante tema que remonta às suas composições cinematográficas composições cinematográficas .
A riqueza cromática em que se desenvolve o “Allegro non troppo”, último movimento, parece ter sido criada para enfeixar todas as intenções de Shostakovich para concluir a tão emblemática peça. Afinal ele precisava responder às fronteiras impostas pelo regime à sua criatividade em um nível de interpretação capaz de se impor com toda a personalidade a si consagrada pela inconteste admiração do povo russo. E conseguiu! Até hoje, a quinta sinfonia se inclui entre as obras mais tocadas no mundo erudito, havendo quem a considere como, sem dúvida, uma obra-prima.
Isto fica claramente enfatizado em vários momentos da sinfonia, mas com ênfase fortemente exacerbada no Allegro, em trechos que expõem o tema, sobretudo no glorioso e espetacular final . Quando se esclarecem as razões que abalaram o público presente à decantada “première”, aplaudindo por mais de meia hora um dos eméritos símbolos da música clássica soviética. Era a consagração de toda a maravilha que o caos inteligente pode produzir.












































































