Neste começo de outono penso em você. A cidade está coberta de folhas douradas, marrons e alaranjadas. Um tapete orgânico sobre o duro...

O tempo, Sofia. O tempo.

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Neste começo de outono penso em você. A cidade está coberta de folhas douradas, marrons e alaranjadas. Um tapete orgânico sobre o duro asfalto. Depois haverá o frio. Quando chegar o calor e as primeiras floradas, você virá. E será como se sempre tivesse estado aqui. A sua presença encherá a casa, ocupará os móveis, se derramará pelos cômodos. Você vai ser a flor no vaso, o rastro de luz se infiltrando entre as cortinas da sala, zumbido de abelha, página de livro e nota musical.

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Rufinochka
Você virá com a primavera. Por isso, a primeira coisa que desejo te falar, παιδί, é sobre o tempo. Ele é juiz, é medida, é o veículo da memória e é matéria dos poetas e dos homens de ciência. Mas é sobretudo um grande ilusionista. Ele nos envolve na esteira das horas e nos confunde. Faz pensar que somos eternos, que o teremos sempre ali, à mão. Sussurra distrações em nossos ouvidos enquanto nos subtrai minutos preciosos. Presos em sua teia de delícias e preocupações cotidianas, deixamos de ouvir o tic-tac do relógio cósmico.

Não se deixe enganar pelas miudezas. Esteja sempre de olho naquele canto de sereia que faz ansiar pelos fins de semana, acelerar os dias de trabalho ou entregar-nos a mil nadas que nos consomem e afastam do essencial. Quando nos damos conta, o dia acabou (tão curto!), a semana se foi (que breve!), o mês terminou (como passou rápido!), o ano se foi (já é dezembro?) e a vida se aproxima do fim (ontem mesmo eu era criança!). Tudo é fugaz.

A existência é a travessia entre nosso começo e nosso fim. Às vezes breve, curta como um suspiro; às vezes longuíssima.

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Iloliloli
Alguém há de dizer que estou repetindo clichês. Talvez esteja, mas não me importo. O julgamento alheio é outra distração dispensável. Há uma grande liberdade em se fazer o que gosta, sem esperar aprovação.

Certo é que o tempo é mesmo areia fina escorrendo rápido na ampulheta da nossa jornada. Uma hora, dente de leite; outra, dentadura. Dura é a vida, Sofia. Se lhe disserem que é um mar de rosas o tempo todo, não acredite. Ao contrário, prepare-se para habitar o mundo sabendo que é um lugar cheio de armadilhas. Viver vai exigir coragem e espero que você a tenha. E embora seu começo seja cercado de amor, em alguma hora você encontrará os desafios. Esteja pronta para eles.

Nas dobras do tempo, que suas horas sejam bem aproveitadas. Mesmo a mais longa vida humana é um sopro. Portanto, esteja sempre disponível para os seus amores: a vida é imprevisível e pode tirá-los de você num piscar de olhos.

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Germano Romero
Aproveite cada segundo, viva intensamente. Tome banho de chuva, olhe os desenhos nas cascas das árvores, conte estrelas e ame os outros seres que dividem conosco a casa planetária. Enxergar a beleza da natureza é uma arte que nos faz valorizar o tempo que passamos em um lugar tão magnífico. Que privilégio...

Siga serenamente, fazendo que entre o nascer e o pôr do sol as horas sejam proveitosas, divididas entre deveres e prazeres, conhecimento e sentimento. É uma técnica complexa, bem sei, mas até agora a única possível para não se deixar sufocar pelo manto de ilusões da existência.

Faça do tempo enganador um amigo. Olhe-o bem nos olhos e diga: vem, vou brincar contigo enquanto aqui estiver. As tuas horas são minhas; eu te vejo e te tenho, te bebo e recebo na odisseia desta minha vida que agora começa. Se ele concordar com um sorriso manhoso, desconfie.

Vem aí a Sofia, nome grego (Σοφία) de lindo significado. Para ela escreverei aos domingos uma pequena crônica, alternando com os textos sobre literatura. Uma menininha chamada Sofia será a minha primeira neta e eu quero dar a ela, além do meu amor, as palavras mais bonitas que encontrar. Palavras para falar de vida, de ganhos e perdas, de sonhos e da grande arte de viver a nossa odisseia no mundo. Quando ela nascer, eu estarei na Grécia, certamente emocionada com esta nova vida, plena de promessas, que se tornará parte essencial da minha própria existência
(Sonia Zaghetto)

Originalmente publicado em
www.soniazaghetto.com

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