Vou-me despedindo da leitura de O Nariz do Morto, no qual o escritor e crítico literário Antônio Carlos Villaça narra suas frustrações vocacionais — primeiro como noviço beneditino, depois como religioso dominicano e, por fim, como padre secular. Conheci Villaça e O Nariz graças a Francisco Gil Messias, que dedicou à obra uma excelente
crônica no livro O Redator de Obituários (Ideia, 2022).
Vários pontos de O Nariz tocaram fundo no meu coração. Não é à toa que Carlos Heitor Cony afirmou que “Villaça escreveu uma obra-prima”, como registra Gil Messias em sua crônica, acrescentando logo depois que “a crítica colocou o livro, em termos de literatura memorialista, acima de Joaquim Nabuco, de Gilberto Amado e de Pedro Nava. Não é pouca coisa”. Não é mesmo.
Poderia comentar muitos aspectos do livro, mas detenho-me em um que, a princípio, poderia parecer menor diante do drama humano enfrentado pelo autor: a descrição de uma viagem para Aparecida, num domingo de carnaval. Em dado momento, Villaça diz:
Tudo é Aparecida em Aparecida. Romaria. Ritmo de súplicas, promessas, milagre. Aparecida... A gente se lembra de Fátima, Lourdes, mesmo Chartres. Aparições. Sob forma de mulher ou imagem, o frêmito do invisível, do espiritual, do transcendente ao mundo, do mistério para além das nuvens e dentro de nós. A imagem mestiça e pequena emergiu do Paraíba, nosso rio manso e simpático, virgem cabocla. Conservada e procurada pelas melancolias humanas, lá está a singela imagem aparecida, náufraga, emergente e salva, escurinha, padroeira do Brasil — Regina Brasiliae.
Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em 1970. ▪ Fonte: Gov.SP
Ao ler esse trecho, lembrei-me de Nossa Senhora da Penha — a devoção mariana mais forte na Paraíba, não obstante termos por padroeira a Mãe de Deus invocada por outro título: o de Nossa Senhora das Neves. Talvez porque Nossa Senhora da Penha fale mais à nossa geografia, ao nosso clima: Virgem litorânea, praiana. Diplomaticamente, poder-se-ia dizer que a cidade começa com Nossa Senhora das Neves, no Sanhauá, e termina com Nossa Senhora da Penha, na vastidão do Atlântico.
A Basílica de Nossa Senhora das Neves (no alto), localizada no centro histórico, e o pátio do Santuário de Nossa Senhora da Penha, na praia que tem o mesmo nome, em João Pessoa, Paraíba. ▪ Imagens: Gmaps, Ruy Carvalho (via Wikimedia) e YT MProduções
Assim como “tudo é Aparecida em Aparecida”, tudo é Penha na Penha. O cheiro do sargaço; a brisa do mar cortando o rosto; o sol que ofusca o olhar; a vilazinha de pescadores; as fitinhas amarradas ao gradil; a escadaria; as casas simples e geminadas; as galinhas soltas no terreiro; o pequeno comércio; a sala das promessas com seus ex-votos.
Fachada lateral (no alto), escadaria e a estátua de Nossa Senhora Senhora da Penha que adorna a praça onde fica o Santuário. ▪ YT MProduções
Se a imagem de Aparecida do Paraíba do Sul é “náufraga, emergente e salva”, na Paraíba do Norte, quem foi náufrago, emergente e salvo foi o português Sílvio Siqueira. Naquele ano de 1763, ele comandava uma embarcação a caminho da Europa que enfrentou uma grande tormenta no litoral paraibano. Em meio à agitação das ondas, Siqueira reuniu a tripulação e pediu proteção à Nossa Senhora, prometendo erguer uma capela em sua honra no local onde conseguisse aportar em segurança. Minutos depois, o mar bravio se acalmou e a tripulação pôde desembarcar com tranquilidade nas areias da então Praia do Aratu, hoje Praia da Penha.
Estátua em homenagem ao português Sílvio Siqueira (em momento de oração à Nossa Senhora da Penha), instalada no modesto monumento do Santuário. ▪ Fonte: YT TVC
Cumprindo a promessa, Siqueira ergueu a capelinha, conforme registrou Irineu Pinto nas Datas e Notas para a História da Paraíba: “No corrente anno, é construída a capellinha de N. S. da Penha, da praia do mesmo nome”. Era a terceira capela no Brasil dedicada a esse título mariano: a primeira foi o Convento da Penha, em Vila Velha (ES),
Fachada frontal e interior da capela de Nossa Senhora da Penha. ▪ YT A. Moura
seguida pela Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, no Rio de Janeiro (RJ).
No ano seguinte, Siqueira trouxe uma imagem de Nossa Senhora da Penha para adornar a “igreja tosca”, assim como Villaça descreveu a primeira capelinha de Aparecida. A devoção à Penha remonta ao século XII, quando o eremita Simão Vela encontrou, no alto de um rochedo, uma imagem de Maria. “Penha” significa precisamente isso: rocha alta, penhasco, elevação pedregosa. Siqueira deve ter pensado nesse detalhe ao trazer a imagem, uma vez que ele e seus companheiros ergueram a igreja no cimo de uma suave colina — assim como Aparecida.
Nossa Senhora da Penha é, portanto, a Virgem do penhasco — aquela colocada no alto de uma rocha, guardando o mar. “Ave Maris Stella” — “Salve, estrela do mar” — é a inscrição latina que aparece no frontispício simplório da capelinha.
A Penha através dos séculos
Mais adiante, Villaça escreve que Aparecida — e a Penha, por sua vez — é anterior a La Salette, em “pleno século das luzes”, e Lourdes. Aparecida é, diz ele, “contemporânea de Voltaire, que morreu octogenário em 1788, anterior à Revolução Francesa, já existia quando Napoleão nasceu...” Prossegue Villaça:
A Salette [...] é de 1846. Lourdes é de 1858. A Aparecida já estava no seu monte. Há dois séculos, as mãos rústicas dos pescadores do vale do Paraíba a puseram ali, no seu ninho, e ali ficou. Viu dali Waterloo, 1914, 1917 [...] quando Pacelli foi sagrado bispo em Roma, a Revolução Russa mudou o rumo da história e aconteceu o fenômeno de Fátima.
Pintura representantiva do momento em que a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada no rio Paraíba do Sul pelos pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso. ▪ Autor: José Luiz Bernardes Ribeiro ▪ Fonte: Wikimedia.
Quando tudo isso aconteceu, Nossa Senhora da Penha também “já estava no seu monte”. Mas o que mais a Virgem da Penha assistiu ao longo dos séculos, desde o seu nicho, na capelinha rústica?
Além das cerca de 52 mil almas que habitavam a província em 1763, segundo as Datas e Notas de Irineu Pinto, ela viu a conclusão da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em 1778, e, no ano seguinte, o término da fachada do Convento de Santo Antônio.
Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em João Pessoa, Paraíba. ▪ Foto: Ruy Carvalho, via Wikimedia.
Presenciou a Paraíba recuperar sua autonomia como capitania em 1799, libertando-se da tutela de Pernambuco. Presenciou a efervescência da Revolução Pernambucana de 1817 e a cena sombria que marcou a repressão ao movimento: a exposição da cabeça e das mãos de José Peregrino Xavier de Carvalho, enforcado no Recife por defender o ideal republicano que pregava a separação das capitanias do Nordeste da Corte portuguesa.
A Revolução de 1817: José Peregrino recusa o pedido de seu pai, Augusto Xavier de Carvalho, de abandonar a causa republicana. ▪ Pintura de Antônio Parreiras (1860-1937), incorporada ao acervo do Palácio da Redenção, Paraiba, atual Museu de História da Paraíba. ▪ Fonte: Wikimedia
Viu a Independência do Brasil, em 1822, e, dois anos depois, a participação da Paraíba na Confederação do Equador. Acompanhou a ascensão política de D. Pedro II, em 1840. Assistiu ao “Ronco da Abelha”, em 1852, e a Revolta do Quebra-Quilos, em 1877, estremecendo a província. Viu a peste de cólera de 1856 e, três anos depois, a visita do próprio imperador, que percorreu a Paraíba com sua comitiva.
Testemunhou a primeira fotografia ser tirada em solo paraibano — ali mesmo, defronte à sua capelinha — durante a expedição do Imperial Observatório Astronômico para a observação do eclipse anular do Sol, em 1868.
Primeira fotografia registrada em solo paraibano: astrônomos posicionam-se na frente da capela de Nossa Senhora da Penha para observar o eclipse anular do sol ocorrido em 23 de fevereiro de 1868.
Do alto de sua colina, viu a Abolição da Escravatura, em 1888, e, no ano seguinte, a queda da Monarquia e a proclamação da República, que transformou a antiga província em estado da Federação. Assistiu à criação da Diocese da Paraíba, em 1892, e à chegada do seu primeiro bispo, D. Adaucto Aurélio de Miranda Henriques, bem como dos prelados que lhe sucederam.
Acompanhou a eleição de Epitácio Pessoa à presidência, em 1919. Assistiu à Coluna Prestes cruzar o estado, em 1926, e, na mesma época, viu os passos de Antônio Silvino, Chico Pereira e Lampião percorrerem o interior paraibano.
Francisco Pereira Dantas, o cangaceiro Chico Pereira (1900–1928), em registro raro do sertão paraibano. Figura marcada por disputas familiares e conflitos políticos nos anos 1920, liderou seu próprio bando e entrou para a história do cangaço como um dos personagens mais controversos do período. ▪ Fonte: Cariri Cangaço. ▪ Leia sobre ele no texto Vingança, não: a fatalidade histórica derrotada, da professora Ângela Bezerra de Castro.
Acompanhou a ascensão e a queda do Território Livre de Princesa. Em 1930, presenciou o assassinato de João Pessoa e, poucas semanas depois, a eclosão da Revolução incendiar a política nacional — além da mudança do nome da capital.
Assistiu à construção da escadaria de 145 degraus, entre 1948 e 1951, e de um novo templo para abrigar mais devotos. Só seus olhos viram, sem testemunhas, os rostos dos ladrões que roubaram sua imagem original em 1978. Também
João Alfredo Dias, o Nêgo Fuba (1932–1964), sapateiro e militante do PCB. Eleito vereador, tornou-se uma das vozes mais fortes na defesa dos trabalhadores rurais no Nordeste. Preso após o golpe de 1964, desapareceu sob custódia do regime militar.
acompanhou com o olhar o artesão Manoel de Souza confeccionar uma nova escultura sua, em 1979.
Viu João Pedro Teixeira ser assassinado em 1962, e Nêgo Fuba e Pedro Fazendeiro desaparecerem em 1964. Anos mais tarde, em 1983, viu Margarida Maria Alves padecer da mesma morte.
Já nas décadas seguintes, acompanhou as tensões que marcaram a política estadual e, em 1993, assistiu ao tiro de Ronaldo Cunha Lima contra Burity no restaurante Gulliver — episódio que paralisou a Paraíba. E viu, em 2004, o rompimento da barragem de Camará arrastar casas, memórias e vidas no Brejo paraibano, deixando mortos, milhares de desabrigados e um medo que jamais se dissipou.
Foi “procurada pelas melancolias humanas” de alguns poucos fiéis que criaram o hábito de parar na isolada capelinha para fazer suas preces. Viu o número de seus devotos aumentar, e outras mãos rústicas tirarem-na de seu nicho para organizar procissões populares, que, mais tarde, se converteriam no maior evento religioso do Estado.
Romaria da Penha. ▪ Fonte: Gov/PB
“Romaria, ritmo de súplicas, promessas, milagre”. Penha... Tudo é Penha na Penha.
E hoje, o que a Penha vê?
Muita coisa mudou ao longo dos anos. Dos anos 1960 para cá, os pessoenses deixaram as imediações do Centro e migraram em direção ao mar — e Nossa Senhora da Penha testemunhou esse movimento acontecer. Hoje, vê não apenas os habitantes locais redescobrindo o litoral onde Ela, há quase três séculos, foi colocada, mas também visitantes vindos de todos os cantos. Vê João Pessoa deixar de ser a “capital esquecida” para tornar-se a queridinha do Nordeste e um dos destinos mais procurados do mundo.
As cerca de 52 mil almas que ela assistia em toda a província, hoje são, só na capital, 897.633. Muitas delas — estima-se que 110 mil — vieram de outras cidades ao longo dos últimos 12 anos. Como consequência desse crescimento vertiginoso, a Penha acompanha os prédios de luxo surgirem por todos os lados, desafiando as alturas. O litoral tranquilo com o qual Ela esteve acostumada há tantos séculos tornou-se badalado: proliferam os beach clubs, hotéis e resorts ocupam áreas antes silenciosas; e o trânsito, que outrora fluía sem pressa, hoje já ensaia o caos nos horários de pico. Bancos de areia e corais em mar cristalino tornaram-se disputados, restaurantes se enchem de filas, e o custo de vida cresce junto com a procura.
O turismo desordenado tem degradado os recifes de corais do litoral paraibano, ameaçando a vida marinha que depende desse ecossistema frágil. ▪ Fonte: Wikimedia
Entre tantas mudanças, a Penha viu também o desmoronamento paulatino da Barreira do Cabo Branco. Viu o ponto mais oriental das Américas — onde o sol nasce primeiro — sofrer a violência silenciosa da erosão: calçadas cedendo, mirantes desaparecendo, o farol ameaçado, a falésia perdendo, ano após ano, pedaços de si. Entre o tráfego indevido no topo, as construções, a falta de vegetação e a força natural do mar, a barreira foi-se estreitando, lembrando à cidade que nem tudo o que parece eterno resiste sem cuidado.
Devastação da Mata Atlântica no litoral sul da Paraíba, em áreas próximas ao Santuário da Penha, para a construção de complexos hoteleiros e condomínios residenciais. ▪ Fonte: Revista Brasileira de Ecoturismo.
Do alto de sua colina, a Penha vê também o avanço do nível do mar, o desmatamento recorde das últimas décadas, a especulação imobiliária no litoral e as constantes ameaças à lei do gabarito — sinais de uma cidade que cresce mais rápido do que compreende a própria transformação.
“Estrela Matutina. Onipotência Suplicante. Mãe, Ave Maria, Gratia Plena...” — são alguns dos títulos com que Villaça se refere à Mãe de Deus. “Estrela Matutina” nunca fez tanto sentido quando aplicado a Nossa Senhora da Penha, que, do alto de sua colina, contempla o sol nascer primeiro em João Pessoa. “Ave Maris Stella” — Salve, estrela do mar — encontra igualmente seu significado mais pleno na Virgem que observa o Atlântico dia após dia. Diante dela, resta-nos apenas pedir: “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, como se reza na Salve Rainha. Olhai para João Pessoa, Regina Parahybensis.