Começo transcrevendo os primeiros versos do poema “O fim das coisas”, de Carlos Drummond de Andrade. Este poema consta do livro Boitem...

Os cinemas que morreram

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Começo transcrevendo os primeiros versos do poema “O fim das coisas”, de Carlos Drummond de Andrade. Este poema consta do livro Boitempo, a autobiografia poética do bardo que viveu a infância em Itabira do Mato Dentro e a juventude na Belo Horizonte das primeiras décadas do século passado. É livro de minha cabeceira há muitos anos, certamente o mais revisitado de toda a extensa obra drummondiana, nem sei dizer porquê. E foi numa dessas recentes revisitações que tive a atenção chamada pelo poema citado, que assim se inicia:

Fechado o cinema Odeon, na Rua da Bahia. Fechado para sempre. Não é possível, minha mocidade fecha com ele um pouco. Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são, sendo de outrem, e até aplaudi-la, quando for o caso.
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Fachada do antigo Cinema Odeon, em Belo Horizonte (MG) ▪️ Instagram: @arquitetos.de.bh
Temos aí o fechamento de um cinema que devia ser importante na vida do jovem Drummond, ao ponto de ser lembrado muitos anos depois, ressuscitado pelo poder inigualável da literatura. O poeta lamenta: “Não é possível, minha mocidade fecha com ele um pouco”. Sim, pois quantas fantasias não terá o futuro poeta experimentado, no corpo e no pensamento juvenis, a partir da tela e das cadeiras desse cinema extinto? Não foram apenas os filmes que povoaram a imaginação
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Carlos Drummond de Andrade (1929) ▪️ @educacao.mg.gov.br
do rapazinho na sala mítica, mas também as garotas, principalmente as inacessíveis, aquelas que, como frutos não colhidos, são as que de fato ficam para sempre. Daí a justificada lamentação, que, imagino, deve ter sido também a de muitos de seus contemporâneos.

Não sei, para as gerações atuais, frequentadoras de cinemas de shoppings, qual o significado existencial dessas salas de exibição de filmes, cheias de confortos mas vazias de encantamento. Provavelmente nenhum, desconfio. Não se lembrarão delas daqui a alguns anos. Neste particular – e em muitos outros –, não invejo a moçada de hoje, pois parecem ser atores de experiências vitais mais rasas que as dos que vieram antes. Ironicamente, em muitos casos, ser jovem nem sempre significa vantagem; só os tolos, guiados pela testosterona e obcecados exclusivamente pela vitalidade física da juventude, pensam o contrário.

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Cine Brasil (João Pessoa-PB) ▪️ Facebook: @zemarcos.mello
É claro que o poema de Drummond conduziu meu pensamento aos antigos cinemas da aldeia, principalmente os das décadas de 1960 e 1970, dos quais, pelo menos em parte, usufruí dentro do possível. O Municipal, o Plaza, o Rex, o Brasil, o Filipeia, o Astória, o Metrópole e o Santo Antônio, estes de que me recordo mais. Existiam outros e aqui deixo de evocar o cinema do Hotel Tambaú e o Banguê, por serem os mais recentes, este último ainda funcionando. Entretanto, os outros, que já morreram, são os que, uns mais outros menos, marcaram a minha geração.

Lembro-me perfeitamente de que nas matinais e matinês do Rex, por exemplo, havia o célebre comércio de gibis antes de começar as sessões. Sem falar nos baleiros à porta, com suas guloseimas, dentre as quais o drops Dulcora, inesquecível. Os gibis eram tantos; não duvido que deva a eles o gosto da leitura que adquiri à época e me acompanha até hoje. Benditos gibis, portanto.

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Cinema Municipal (João Pessoa-PB) ▪️ Facebook: @petronio.souto.9
No Municipal, com suas elegantes cadeiras listradas de azul e branco, via-se com frequência, junto ao bilheteiro da entrada, a presença de Luciano Wanderley, o dono, cumprimentando os conhecidos e também, não duvido, talvez fiscalizando o correto recolhimento dos ingressos. Ainda alcancei a presença do Padre Zé em sua cadeira de rodas, a bater levemente num e noutro com uma espécie de vara, a pedir esmolas para os seus pobres. A cidade se encontrava nos cinemas e neles, quase democraticamente, os espectadores confraternizavam na fruição de uma arte que era – e continua sendo – para todos – ou quase.

Quantos não tiveram seus destinos traçados por esses cinemas de rua de outrora. E aqui evoco João Batista de Brito, nosso grande crítico, que praticamente deve às salas de Jaguaribe, seu bairro, a formação cinematográfica inicial que depois lhe possibilitou o prazeroso e consagrado ofício de hermeneuta da sétima arte. E Willis Leal, Mirabeau Dias, João de Lima, Antonio Barreto Neto, José Mário Espínola, o pessoal todo da Academia Paraibana de Cinema e tantos mais.

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João Batista de Brito, Mirabeau e Suely Dias ▪️ @imagensamadas
Em seu nostálgico poema, verdadeiro necrológio, prossegue Drummond, inconsolável:

Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória, maior, mais americano, mais isso e aquilo. Quero é o derrotado Cinema Odeon, o miúdo, fora de moda Cinema Odeon. A espera na sala de espera. A matinê com Buck Jones, tombos, tiros, tramas. ... As meninas de família na plateia. A impossível (sonhada) bolinação, pobre sátiro em potencial. Exijo em nome da lei ou fora da lei que se reabram as portas e volte o passado ...

Do meu cantinho na aldeia, também exijo tudo isso. Mas adianta?

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