Há momentos em que a história deixa de ser uma sequência de fatos e passa a operar como um espelho incômodo de quem busca revisitar a história e a literatura. Foi assim que me ocorreu revisitar o Decameron, de Giovanni Boccaccio, não como erudição, mas como quem busca um espelho antigo para entender o presente.
Em seu Decameron, Boccaccio erigiu o arquétipo.
GD'Art
Ali, longe da morte, narravam histórias picantes e satíricas, que escarneciam da Igreja corrupta, da burguesia emergente e dos primeiros sinais de uma linguagem mais carnal e humana, prenúncio do Renascimento. A fuga era ato de sobrevivência racional; as narrativas, bálsamo contra o caos.
Pier Paolo Pasolini, no século XX, leu Boccaccio com olhos marxistas e pessimistas. Sua Trilogia da Vida, especialmente Il Decameron, celebra o corpo, o sexo e a vitalidade popular contra a alienação burguesa. Não é mero erotismo; é a alegoria da sociedade de consumo e da “quebra da moral” dos anos 1970, onde o poder se torna sadismo institucionalizado.
No plano da literatura do absurdo, onde a razão humana se dissolve em face da calamidade e da hipocrisia institucional, três pestes dialogam através dos séculos: a Peste Negra de 1348, a pandemia de COVID-19, em 2020, e a peste moral de um “castelo intocável” do STF, em 2026.
GD'Art
No castelo do STF e nas narrativas corruptas dos PeTralhas e nas trapalhadas fascistas homicidas dos Bolsominions, que assolam o Brasil. No século XIV, a peste era biológica. No Brasil contemporâneo, ela é institucional. Espalha-se não por ratos, mas por decisões, omissões e conveniências. Não se anuncia com febre, mas com despachos, suspensões e interpretações criativas da lei.
E, como toda boa peste, produz um efeito curioso: desorganiza o senso de realidade, enquanto reorganiza os interesses de quem sobrevive melhor a ela.
Boccaccio reuniu dez jovens que fugiam da morte e, no isolamento, contavam histórias para suportar o absurdo. No Brasil, não há
GD'Art
Não se trata mais de narrativas isoladas, mas de um sistema de histórias que se alimentam mutuamente. Pasolini, ao adaptar essas histórias, retirou o verniz moral e expôs o corpo, o desejo, a hipocrisia e a fraude como força vital. Se estivesse vivo, talvez não precisasse de ficção para filmar o Brasil atual. Bastaria uma câmera estática diante do noticiário. O grotesco já está dado, com trilha sonora institucional e roteiro jurídico.
Chegamos, então, a 2020. E aqui abandonamos qualquer pretensão de sutileza, porque a realidade não colaborou. Enquanto o mundo recomendava distanciamento, máscaras e algum bom senso, o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, optava por um experimento social involuntário: incentivar aglomerações em plena pandemia dos bolsominions.
Uma espécie de anti-Decameron, onde, em vez de se esconder para viver, reunia-se para testar a sorte. E a sorte, como sabemos, não é política pública. Mais de 600 mil mortos depois, a conta não fechava, mas a narrativa seguia aberta. Faltou vacina, sobrou retórica. Faltou planejamento, sobrou descaso e convicção.
GD'Art
O castelo de Florença abrigava personagens que, entre erotismo e astúcia, revelavam a falência moral de seu tempo; o castelo do STF abriga intérpretes da lei que, entre votos e sentenças monocráticas, expõem outra forma de adaptação ética. A arquitetura protege ambos: lá, contra a doença; aqui, contra o escrutínio externo.
O Supremo Tribunal Federal, que deveria funcionar como guardião da Constituição, assume, nesse contexto, um papel mais complexo. Não é apenas árbitro; é protagonista. E, como protagonista, participa diretamente da construção do enredo.
GD'Art
Em decisões monocráticas, suspendeu multas bilionárias de acordos de leniência envolvendo empresas como a J&F, com valores que ultrapassam R$ 10 bilhões. E não para por aí.
A suspensão de multas da Novonor, antiga Odebrecht, na casa de R$ 8,5 bilhões, segue a mesma lógica, com a anulação de provas. Ao invalidar essas bases, não se desfaz apenas um caso, mas compromete-se uma cadeia de processos. A absolvição, ou a suspensão, cumpre o mesmo papel.
Como Frate Alberto, do Decameron, semelhante aos clérigos corruptos que absolvem pecados enquanto os praticam, Gilmar Mendes surge como figura análoga: suas sentenças monocráticas operam como indulgências modernas, onde a retórica jurídica substitui a confissão e o poder substitui a penitência. Não é desvio, mas método, uma liturgia na qual o rito legitima o resultado e a dúvida nunca prospera.
GD'Art
No Brasil, a versão contemporânea não precisa de leito de morte nem de confissão final. Basta uma narrativa bem construída e uma decisão adequada. Digamos: o primeiro golpe.
Enquanto isso, Alexandre de Moraes atua em outro eixo do mesmo teatro. Se, de um lado, há decisões que suspendem punições, de outro, há decisões que ampliam o alcance do poder punitivo.
Em contraponto, amealha para o escritório de advocacia dos familiares a bagatela de R$ 129 milhões, em um contrato espúrio com o Banco Master, fazendo do banqueiro dândi Daniel Vorcaro seu cliente prime.
GD'Art
Avancemos para 2026, onde entra em cena o Supremo Tribunal Federal. A corrupção, nesse ambiente, não desaparece. No Decameron, os jovens retornam à cidade após o período de isolamento. A peste, eventualmente, recua. No Brasil, não há esse retorno claro. A crise não se apresenta como evento delimitado, mas como condição permanente.
A exceção se normaliza, e o extraordinário passa a ser rotina. A comparação com Pasolini ganha, então, outra camada. O cineasta via na vitalidade popular uma forma de resistência à moral burguesa. No Brasil, essa vitalidade ainda existe, mas convive com uma estrutura institucional que parece operar em lógica própria. O corpo resiste, mas o sistema absorve.
Como em um conto do Decameron, o episódio recente expõe a traição como eixo central da narrativa. Peronella, mulher astuta que, no conto, engana o marido em uma trama com o amante, na qual negociam um barril de vinho, conduzindo a situação à sua vista, torna-se a chave interpretativa, com nítida semelhança com a atualidade no Congresso Nacional.
GD'Art
A diferença é apenas de linguagem, não de essência. No castelo medieval, Peronella enganava o marido diante de seus olhos; no contemporâneo, os enredos se desenrolam à luz dos autos, com a mesma naturalidade. A ética, como antes, entra como figurante e sai sem fala. A moral é maleável, moldada conforme o episódio.
O rito permanece, mas o sentido se desloca: a traição não rompe o sistema, ela o confirma. Não é a decisão de um ministro, nem o valor de uma multa suspensa.
E assim, sem necessidade de ficção adicional, o país constrói seu próprio Decameron. Não com dez jovens em fuga, mas com milhões de espectadores em espera. Não com histórias para esquecer a peste, mas com episódios que a confirmam.
GD'Art
O público, como nos contos de Giovanni Boccaccio, oscila entre acreditar e desconfiar. E, ao final, não é a verdade que se impõe, mas a narrativa mais eficaz em sobreviver ao desgaste do tempo.
Assim, resta apenas a constatação final: como no castelo florentino, onde Ciappelletto se tornava santo e Peronella triunfava à vista do marido, o grotesco não desaparece, ele se organiza. E, quando institucionalizado, deixa de chocar. Ele passa a funcionar.
















