Somos ensinados a desejar muitas coisas: um amor tranquilo, reconhecimento, estabilidade. Parece que a vida inteira é uma fila de e...

A frustração nasce do desejo de sermos validados pelos outros

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Somos ensinados a desejar muitas coisas: um amor tranquilo, reconhecimento, estabilidade. Parece que a vida inteira é uma fila de espera: esperamos a oportunidade certa, sermos reconhecidos, a reação positiva das pessoas. E talvez seja aí que as frustrações comecem a nascer, nesse hábito de esperar o parabéns do outro.

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Foto: Pablo Merchán Montes
Às vezes, penso se a expectativa não é uma espécie de idealização. Imaginamos conversas que nunca aconteceram, atitudes que o outro talvez nunca tenha pensado em ter, futuros que ainda nem sabem se querem existir. E, quando a realidade chega, ela quase sempre vem diferente daquilo que ensaiamos na cabeça.

O curioso é que nem sempre as expectativas são realmente nossas. Algumas parecem herdadas. Há sonhos que carregamos apenas porque alguém, um dia, disse que seriam importantes. Certas cobranças entram tão cedo dentro da gente que passamos anos acreditando que nasceram conosco. Talvez por isso exista tanta culpa em decepcionar os outros, mesmo quando estamos conhecendo a nós mesmos.

Também me pergunto se não esperamos demais das pessoas. Usamos a opinião do outro como régua. Achamos que o outro tem mais capacidade, mais delicadeza, mais gabarito. Mas cada pessoa habita um mundo interno que desconhecemos. Talvez soframos tanto porque, no fundo, tentamos encontrar espelhos onde só existem diferenças.

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Foto: Pablo Merchán Montes
Talvez a questão não seja eliminar expectativas, mas aprender a não construir nelas a nossa morada, e sim fazer nossa própria casa. Tenho pensado muito nisso: na diferença entre esperar e fazer. Porque, quando fazemos, mesmo pequenos movimentos parecem nos aproximar de nós mesmos. Esperar demais paralisa. Fazer, ainda que imperfeito, movimenta. Entre erros e acertos, criamos nossa personalidade.

Mas, claro, a emoção fala mais alto. Há dias em que a razão parece um conselho bonito escrito num livro, enquanto o coração continua insistindo em esperar mensagens, mudanças, reconhecimentos, retornos. Somos menos racionais do que gostamos de admitir.

Talvez amadurecer seja apenas isso: entender que nem tudo virá como imaginamos e, ainda assim, continuar levantando da cama, construindo nossa casa, tentando subir as paredes outra vez. Não porque temos garantia de dar certo, mas porque a vida parece acontecer mais no movimento do que nas promessas que fazemos ao futuro e esperamos do outro.

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Foto: Roberta Sant'Anna
E talvez seja por isso que gosto tanto de um verso que escrevi em um dos meus livros, quase como um mantra:

“Comece com o que está ao seu alcance. Mas comece. Faça o que se pode fazer. Mas faça.”


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