“No fundo do mar há riquezas incomparáveis, mas se queres segurança, busca-a na praia.”
Citação do poeta e filósofo sufi Saadi de Shiraz, in “Jardim das Rosas”
O pensamento árabe-judaico, particularmente durante a Idade Média (séculos X-XIII), foi uma fusão intelectual rica na qual pensadores judeus, vivendo sob o domínio islâmico, escreveram em árabe e adotaram a filosofia grega (Aristóteles/Neoplatonismo) para interpretar a Torá. Esta simbiose, centrada na
GD'Art
Península Ibérica e no Norte de África, uniu fé e razão, influenciando profundamente a filosofia medieval europeia.
O pensamento árabe representou, nas suas mais remotas origens, uma dinâmica projeção dos grandes sistemas filosóficos gregos, ainda que vazado em língua semítica e fundamente modificado sob a influência oriental. A dimensão desse facto torna-se imensa quando se considera que o Ocidente deve aos filósofos árabes muito da preservação, já a nível crítico, do platonismo e, sobretudo, do aristotelismo.
A filosofia islâmica (al-falsafa) consubstancia o pensamento expresso em língua árabe, intimamente ligado aos dogmas religiosos e escatológicos que floresceram entre os séculos VII e XV. Excluem-se dessa denominação as tendências modernas e contemporâneas da filosofia árabe, analisadas apenas como floração do Oriente dentro e fora dos limites da Idade Média latina.
GD'Art
Nos primórdios, e em rigor até ao século IX, as especulações filosóficas do mundo árabe restringiam-se às discussões teológicas das primeiras seitas e escolas ascéticas, cuja suprema preocupação residia no exame de questões éticas e morais. O primeiro grande representante dessa época terá sido Hassan al-Basri (nascido no ano 642 em Madinah, atual Reino da Arábia Saudita, e falecido em 728 na cidade de Basrah, no Iraque), notável cultor da reflexão moral de índole teórica e responsável pelo início da maioria das discussões teológicas que logo se cristalizariam na constituição de seitas e escolas teológicas, como a de Antioquia (século III), de Nasibim e de Nasibim-Edessa, a principal delas, que prosperou entre
GD'Art
os séculos IV e V e reuniu os nestorianos condenados como heréticos pelo Concílio de Éfeso (431). A esses nestorianos somaram-se depois outras seitas, como a dos monofisitas (responsáveis pela introdução do misticismo e dos ideais neoplatónicos), de zoroastras persas, de pagãos de Harran e até mesmo de judeus.
No interior dessas Escolas, destacaram-se nomes de craveira universal como:
Abu Nasr Al-Farabi (870-950), conhecido no Ocidente como Alpharabius, também chamado de “O Segundo Mestre” (al-Mu’allim al-Thani), um dos mais influentes filósofos e polímatas da Era de Ouro do Islão;
Cédula do Cazaquistão, emitida em 1993, com o retrato de Al-Farabi, filósofo, músico e cientista nascido na Ásia Central e uma das figuras centrais do pensamento islâmico medieval, conhecido como “O Segundo Mestre”, após Aristóteles.
Al-Ghazali (1058-1111), jurista, teólogo, filósofo e místico persaconhecido no Ocidente como Algazel e Hujjat al-Islam (A Prova do Islão), por seu papel crucial na defesa da ortodoxia sunita e na integração do sufismo na teologia convencional;
Al-Arabi Al-Hatimi, nascido em Murcia (Espanha) em 1165 e falecido em Damasco (Síria) no ano de 1240), um dos mais destacados filósofos, sufis e poetas hispano-muçulmanos do Al-Andalus;
Estátua de Avicena (Ibn Sina), filósofo, médico e cientista persa cuja obra marcou profundamente a medicina e o pensamento medieval. Autor do célebre Cânone da Medicina, estudado durante séculos no Oriente e no Ocidente. ▪ Wikimedia
Abu Ibn Sina “Avicena”, nascido em 980, perto de Bukhara (atual Uzbequistão) e falecido em 1037, na cidade de Hamadan (Irão);
Ibn Bajja “Avempace”, nascido por volta de 1095, em Saragoça (Espanha) e falecido no ano de 1138 na cidade de Fez (Reino de Marrocos);
Ibn Rushd “Averróis”, nascido no ano 1126 em Córdoba (Espanha) e falecido em 1198 na cidade de Marrākuš (atual Reino de Marrocos).
Os três últimos, já na Espanha muçulmana, dedicaram-se inicialmente a debates de questões como a dos atributos divinos e os conflitos entre a predestinação e o livre-arbítrio. Contribuíram consideravelmente para a concretização de uma reflexão filosófica que já se poderia dizer autónoma, cujo expoente supremo foi Abu Yusuf Ya’qub Ibn Ishaq “al-Kindi” (801–873), erudito árabe, filósofo, matemático, médico e teórico musical, conhecido como “o filósofo dos árabes”. Al-Kindi dedicou-se não apenas às questões filosóficas abordadas
Selo iraquiano de 1962 com representação de Al-Kindi, filósofo, matemático e músico frequentemente chamado de “O Filósofo dos Árabes”. ▪ Wikimedia
pelos neoplatónicos aristotélicos de Alexandria, mas também a temas diversos como a astrologia, a medicina, a aritmética indiana, logogrifos, fabricação de espadas e culinária.
Toda essa estratificação orgânica da filosofia árabe foi possível, em grande parte, graças à transmissão, ao universo muçulmano, de consideráveis vertentes dos sistemas gregos, sobretudo do aristotelismo e do neoplatonismo, a montante de versões sírias do helenismo, das atividades filosófico-religiosas dos nestorianos, do misticismo dos teólogos monofisitas egípcios, e finalmente, às traduções muçulmanas das versões sírias dos textos gregos.
Paralelamente às doutrinas desenvolvidas pelos arautos orientais Avicena (fundamental para a síntese entre a filosofia grega e a teologia) e Al-Ghazali, destacam-se aquelas que, a partir do século XI,
Estátua de Averróis (Ibn Rushd), em Córdoba, Espanha. Filósofo, jurista e médico andalusino, Averróis tornou-se célebre por seus comentários sobre Aristóteles, fundamentais para a transmissão da filosofia clássica ao mundo latino medieval.
foram disseminadas pelos pensadores muçulmanos do Al-Andalus, onde sobressai o nome de Averróis, o maior de entre todos os filósofos árabes. Antes dele, distinguiram-se: o filósofo judeu Avicebron ou Ibn Gabirol (uma das figuras mais importantes da escola hebraica de poesia religiosa e secular durante o chamado Século de Ouro Judaico na Espanha moura); o filósofo, médico e vizir andaluz, frequentemente citado no contexto do pensamento islâmico medieval Abubaker (autor de um curioso romance filosófico frequentemente referido como “Hayy ibn Yaqdhan”, que descreve a evolução de um Ser Humano sozinho numa ilha, alcançando a verdade filosófica e a união com o intelecto agente através da razão); e, sobretudo, Avempace, que descreveu o itinerário seguido pelo homem para se reunir ao intelecto agente, substância una e comum a todos os entendimentos possíveis.
Seria a doutrina de Averróis, contudo, a marcar três outros momentos históricos: no princípio do século XIII, com Siger de Brabante (indiscutivelmente o líder do “Averroísmo” latino durante as décadas de 1260 e 1270), por meio de Duns Scotus (1266-1308), Pietro d'Abano (1257-1315) e Marsílio de Pádua (1280 - 1343), e na segunda metade do século XV,
Estátua do historiador e pensador tunisiano Ibn Khaldun, em Túnis. ▪ Wikimedia
com os “averroístas” da Universidade de Pádua. Ao século XV pertence também o último valor expressivo da filosofia árabe, Ibn Khaldun, nascido em 1332, na cidade de Tunis (Tunísia), e falecido em 1406, no Cairo (Egito), de tendência neoplatónica, que desenvolveu uma das primeiras filosofias históricas não religiosas, contida na sua obra-prima, a Muqaddimah (Introdução), na qual descreveu a história islâmica como um ciclo de renascimento e declínio.
Zakariya al-Razi (865-925), médico, filósofo, alquimista e estudioso persa que produziu mais de 200 livros e artigos em vários campos da ciência, discípulo de filósofos pré-socráticos como Demócrito, foi um espírito enciclopédico, tendo repartido a sua vida entre Rayy (Irão) e Baghdad (Iraque). Médico notável, foi o primeiro sábio árabe (’alim) a afirmar a sua crença no progresso contínuo e, por conseguinte, no carácter provisório de qualquer investigação. Não era visto como um verdadeiro filósofo, no sentido em que era ateu. Atacava os profetas, as leis reveladas e os milagres: “é impensável”, escrevia ele, “que Deus haja distinguido certos homens para lhes dar a prevalência sobre a massa dos outros,
Busto moderno de Maimônides (Moshe ben Maimon), filósofo, médico e teólogo judeu nascido em Córdoba e uma das grandes figuras intelectuais do Mediterrâneo medieval. ▪ Wikimedia
conferir-lhes a missão profética e erigi-los em guias da humanidade”.
Numa curiosa simbiose ecuménica animada pela civilização islâmica, a cultura cristã e a judiaria Aquitânia, a Idade Média assistiu igualmente ao nascimento de toda uma literatura de teologia e filosofia escrita em árabe por eruditos judeus. Moshe ben Maimon (Maimonides) - que escreveu o “Guia dos Perplexos” (em hebraico: Moreh Nevukhim), originalmente em árabe, tentando harmonizar o judaísmo com o aristotelismo -, Saadia Gaon (Saadia ben Joseph), Yehuda Halevi, Bahya Ibn Paquda, Solomon Ibn Gabirol e Isaac Israeli (considerado o primeiro filósofo judeu medieval, que integrou a corte de califas e combinou medicina com filosofia neoplatónica) desempenharam um papel basilar nessa difusão cultural. O rabi Abraham bar Hiyya ou Abraham bar Hiyya ha-Nasi (“O Princípe”), falecido cerca de 1145, astrónomo, matemático e filósofo, difundiu, a partir de Barcelona, o pensamento filosófico muçulmano. Tradutor de várias obras para o hebreu e o latim, ministrou o ensino da ciência e do pensamento árabe em vários países da Europa.