Algumas pessoas me perguntam por que, na língua portuguesa, o nome dos numerais cardinais 11, 12, 13, 14 e 15 não possui a mesma lógic...

Numerais...

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Algumas pessoas me perguntam por que, na língua portuguesa, o nome dos numerais cardinais 11, 12, 13, 14 e 15 não possui a mesma lógica dos cardinais 16, 17, 18 e 19, em que se vê a associação do 10 mais 6, 7, 8 e 9. Respondo que, realmente, não se vê com nitidez, mas a lógica é – acreditem – exatamente a mesma, pelo menos até o 17.

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Comecemos afirmando que a base do nome de nossos numerais é, como não podia deixar de ser, a língua latina. Em latim, temos os seguintes numerais, a partir do 10:

11undecim
12duodecim
13tredecim
14quattuordecim
15quindecim
16sedecim
17septendecim
18duodeviginti
19undeviginti
20viginti
Observa-se que a base é o 10 (decem), ao qual se somam 1 (unus), 2 (duo), 3 (tres), 4 (quattuor), 5 (quinque), 6 (sex) e 7 (septem), formando, assim, 11...17. Com relação aos numerais 18 e 19, a conta que se faz é uma subtração, cuja base é o numeral 20: duodeviginti (dois saídos de vinte) e undeviginti (um saído de vinte).

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No italiano, que é a língua mais próxima do latim, vemos com mais clareza essa construção de base 10, a partir do numeral 11 até o 16. Com relação aos numerais 17, 18 e 19, a formação é igual à nossa, transportando o 10 (dieci), para antes do 7, do 8 e do 9:

11undici
12dodici
13tredici
14quattordici
15quindici
16sedici
17diciassette
18diciotto
19diciannove
É o mesmo que acontece na língua francesa: 11 (onze), 12 (douze), 13 (treize), 14 (quatorze), 15 (quinze), 16 (seize), 17 (dix-sept), 18 (dix-huit), 19 (dix-neuf).

Se a base é o latim, como se explicaria, então, a mudança de undecim (11) para onze (português e francês, mesma grafia, pronúncia diferente), bem como as formas subsequentes? Trata-se de uma acomodação da fala, em busca de um menor esforço na prolação. Em outras palavras, são fenômenos, que se encontram em todas as línguas, ditados por leis fonéticas, embora, em algumas línguas, ditas neolatinas, tenham persistido formas próximas do latim, como na língua italiana: undecim/undici; duodecim/dodici; tredecim/tredici... e assim por diante.

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Na passagem do latim para o italiano, ocorreu, inicialmente, a apócope, que é a queda do fonema final, no caso o /-m/, depois a metafonia do /-e/ em /-i/, por ser mais fácil, para a prolação, havendo, ainda, no caso do numeral 12, uma síncope do /-u/, pela imposição fonética do /-o/:

undecim > undeci > undici duodecim > dodeci > dodici tredecim > tredeci > tredici

No caso do português e do francês, como houve um encurtamento das formas, outros fenômenos ocorreram. O mais corrente é a haplologia, definida como a queda da sílaba medial /-de/, e a sonorização do /-ci/, acompanhada de metafonia, resultando em /-ze/. Desse modo, se explica a presença dessa sílaba, tanto no francês, como no português, para os numerais 11 (onze/onze), 12 (douze/doze); 13 (treize/treze); 14 (quatorze/catorze), 15 (quinze/quinze). Registre-se que, no galego, língua de que o português se originou e se separou, o /-ci/, de undeci, duodeci..., sofreu metafonia para /-ce/, sem a necessidade de sonorizar-se em /-ze/, como aconteceu em português, persistindo até a atualidade:

11once
12doce
13trece
14catorce
15quince
Nos casos específicos de 13 e 16, no francês, ocorreram, além da síncope da línguo-dental sonora /-d/, em posição medial, fato recorrente no processo de transformação de uma língua para outra, a ditongação, no encontro de dois fonemas vocálicos iguais /-ee/:

undecim > undeci > unci > onze quattordecim > quattordeci > quattorci > quatorze tredecim > tredeci > treeci > treize sedecim > sedeci > seeci > seice > seize

Acredito mesmo que a permanência do sedicem e sua transformação em seize, decorreu de uma escolha possivelmente motivada por uma imposição da eufonia, tendo em vista que *dix-six (como estou especulando, criei uma forma hipotética...)
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não seria tão agradável aos ouvidos como dix-sept, dix-huit e dix-neuf, por exemplo.

A pergunta que se poderia fazer é a seguinte: Por que pessoas letradas, mesmo aquelas da área de Letras, incluindo professores, ignoram e acham estranho que onze, doze, treze, quatorze, quinze sejam uma construção diferente de dezesseis? Responderia que uma possível causa seja o fato de que já não se estuda fonética nas escolas, muito menos fonética histórica, o que poderia explicar as transformações ocorridas numa língua, chamadas tecnicamente de metaplasmos. Acrescente-se o fato de a língua latina ter sido banida da maior parte dos currículos de Letras. Sem o latim não é possível compreender que seize e sedici derivam da mesma forma, assim como onze e undici.

O apego aos estudos sincrônicos da língua, que busca excluir os estudos diacrônicos, agrava ainda mais a situação, por não se entender que não existe um presente sem um passado; por não se entender, sobretudo, que o presente nada mais é que um processo, a partir de uma sedimentação do passado.

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