Ou o inusitado caso das cinco moscas
Dona Camila e Seu Durvalino estavam ali muito perto das bodas de ouro. Criaram dois rapazes e uma moça que já estavam pelo mundo, como se diz, ganhando a vida com suas próprias famílias.
Viviam em harmonia essa fase outoniça de suas vidas. Boas aposentadorias, casa confortável, planos de saúde que evitavam as demoras do serviço público. Enfim, com a vidinha que haviam pedido a Deus.
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Só que, além de esperto, era intolerante com perguntas óbvias. Pois, até mesmo na cerimônia religiosa de seu casamento com Morzinho, quando o sacerdote perguntou se a aceitava como sua legítima esposa, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separasse, ele disparou:
— O que o senhor acha que eu estou fazendo aqui? Claro que sim!
Ele era desse jeito.
Já Morzinho não era assim. Alma boníssima, tolerante e gostava de usar o diminutivo para expressar sua meiguice:
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Só "Morzão" ela dizia no aumentativo. Ainda conservava traços de alguma belezura dos tempos de namoro. Muito sagaz em algumas situações, mas não acompanhava as perspicácias do marido no quesito ironia.
Naqueles anos distantes, domou as ousadias de Morzão, pois ele queria fazer coisas que ela, moça de família, não faria de jeito nenhum, embora os hormônios estivessem pululando, os dela e os dele. Mas casou de véu e grinalda e só permitiu "aquelas coisas" a Benzão depois das alianças trocadas com o aval da Igreja e do cartório. Não digam que não era esperta e que não tivesse ascendência sobre a outra metade de sua laranja.
Tinham suas idiossincrasias, mas não se incomodavam: ele com as dela, nem ela com as dele. Pois vejam: Dona Morzinho passava um tempão ao telefone para saber notícias da prole, dos netos (os que já estavam no mundo e dos que estivessem a caminho) e conversar com as amigas, trocando receitas e alguns fuxicos.
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Mas, enfim, pensem num casal que sempre se deu bem. Para ilustrar essa bem-aventurança com pitadas de bom humor, vou relatar o episódio das cinco moscas ocorrido entre eles ("eles", no caso, é o casal e não os insetos).
Num domingo, Dona Morzinho estava preparando o tradicional arroz de forno, que vinha sempre acompanhado de salada de rúcula com alface, enquanto o marido resolveu abrir uma garrafa daquela "loira" bem geladinha, ao ponto. Foi quando nossa amiga se incomodou com algumas moscas que andejavam pela casa.
— Morzão, tem umas mosquinhas me atrapalhando — reclamou a meiga senhora.
— Pode deixar, Morzinho, vou dar um jeito nelas — respondeu o prestimoso marido.
E, de pronto, pegou aquela raquete que mata as moscas eletrocutando-as e partiu à caça das bichinhas.
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— Olha aqui, Morzinho, as cinco criaturas deletérias que estavam incomodando seus afazeres.
— Estão mortas, Morzão?
— Não, estão descansando. Não está vendo que estão mortas?
Como já dissemos, ele era muito intolerante com certas perguntas.
— Ah, Morzão, não precisa falar assim.
— Você tem cada pergunta... Antes que você queira saber, já vou dizendo: são três fêmeas e dois machos.
— Como você sabe, Morzão?
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— Nossa, Morzão, você é tão sabido.
Esse é um dos episódios na vida de Morzão e de Morzinho. Foi o que me contaram.












