Até 1993, eu me julgava ateu. Como documentarista, trabalhando para o Centro Peixe-Boi, do Ibama, durante uma gravação na Reserva Bi...

Elegi meu Deus mulher

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Até 1993, eu me julgava ateu. Como documentarista, trabalhando para o Centro Peixe-Boi, do Ibama, durante uma gravação na Reserva Biológica dos Lagos Piratuba, no Amapá, tive uma epifania, ao amanhecer.

Vivi uma experiência que alterou profundamente a minha forma de compreender a existência. Era o amanhecer. A umidade era intensa. Naquele instante, a câmera simplesmente não funcionou.

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Depois de tentar, inutilmente, fazê-la funcionar, senti a frustração de perder a oportunidade de registrar uma paisagem de rara beleza.

Diante daquela imensidão, vi-me impotente. Sem qualquer alternativa, deixei de insistir na máquina e passei a observar aquilo que ela não poderia mais registrar.

Enfrentei o improvável. Sem ter o que fazer, parei fui contemplar o que estava ao meu redor. Então, percebi e senti a profundidade da beleza e a essência da natureza. Que lei divina me cercava em todos os sentidos? interroguei-me?

Diante do tudo, me senti em um éden, com a real presença de Deus. Vi e me senti com a Deusa. De pronto, percebi que Deus era mulher.

Aquela fertilidade, aquela abundância, pujanças de belezas em harmonia, não poderia haver e nem ser o Deus masculino, pela barbaridade e da inconsequência do homem em suas atitudes contra a natureza.

Assim, me vi diante de uma mudança de paradigma que me levou a refletir e a construir outra visão de mundo para a minha vida, acreditando em um Deus mulher.

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Me sinto necessariamente feminino, apesar de intimamente ser machista. Sonhei e tive a felicidade de ajudar a criar duas filhas, com amor e com a maior dedicação possível. Tenho ao meu lado a mulher que me escolheu para ser seu companheiro e para, juntos, criarmos nossas filhas. A ela me dedico plenamente em meu cotidiano, admirando a sua sensibilidade e a sua razão, e a maneira como percebe as nuances das nossas vidas como mãe e mulher.

Tenho profunda admiração e percebo o quanto a mulher é determinante em minha vida.

Minha mãe foi importante em todos os aspectos da minha criação e da minha formação, apesar de meu painho ter sido meu ídolo supremo, meu guia na busca da espiritualidade, por meio da qual enxergo e sonho, um dia, reencontrá-lo.

Na minha mainha, vi o poder de transformação de uma mulher dentro de um lar, na construção e na estruturação de uma família. Minha mãe foi uma guerreira como mãe, irmã, filha e avó.

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Talvez seja exatamente essa trajetória que explique por que continuo associando o divino ao feminino. Não se trata de uma afirmação religiosa, mas da forma como passei a compreender a capacidade de gerar, proteger, reconstruir e manter a vida.

Foi justamente dessa convicção íntima que nasceu minha inquietação, quando ouvi a afirmação de um homem qualquer, que disse em suas redes sociais que as mulheres não sabiam votar!

As mulheres sabem votar.(?!)

Indaguei, em um primeiro momento, incrédulo. Era uma pergunta que nunca pretendi diminuir as mulheres. Pelo contrário. Ela nasce justamente da admiração que tenho por elas.

Pensei e, quanto mais penso, mais torto ficava, em busca de equilíbrio

As mulheres não sabem votar? Ou não percebem que podem mudar o Brasil a até mesmo os rumos da humanidade.

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Nefertiti, por exemplo, soube realizar uma das mais profundas transformações religiosas do Egito Antigo. Ao lado de Akhenaton, o faraó e seu marido, rompeu com tradições milenares ao defender uma visão monoteísta centrada no culto a Aton, o Sol.

Independentemente das interpretações históricas, sua presença simboliza a capacidade de influenciar decisões que ultrapassaram as dimensões sociais, políticas e religiosas, repercutindo por gerações e em diferentes lugares da humanidade.

Com o romance As brumas de Avalon, percebi que as bruxas representavam, no livro, o mundo matriarcal, no qual a Deusa, em suas múltiplas faces: donzela, mãe e anciã, ocupava o centro da espiritualidade.

As sacerdotisas druidas preservavam o conhecimento ancestral, a conexão com a natureza, os ciclos lunares e o poder mágico feminino contra a imposição patriarcal cristã. Elas simbolizavam a resistência, a intuição, a cura e o sagrado encarnado no corpo da mulher.

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Tenho algumas amigas que admiro em vários aspectos: mulheres inteligentes, cultas, empreendedoras, mães maravilhosas, companheiras dedicadas e amigas influentes que me fazem refletir. Mas, ao mesmo tempo, continuo me interrogando, diante da pergunta inicial e da polarização politica. As mulheres sabem votar?!

Vejo minhas amigas PeTralhas e Bolzolóides. Essa adjetivação surge no contexto em que ambas acreditam em falsos mitos e se dedicam a homens sem valores humanos. Homens machistas, corruptos e misóginos.

Tanto Lula quanto Bolsonaro não valorizam a mulher. Em vários depoimentos, ambos demonstram desejar, intimamente, uma mulher submissa, passível das cretinices masculinas. Por isso, vejo esses homens como seres desprezíveis.

Por isso, não compreendo como as mulheres brasileiras ajudaram a eleger os dois presidentes que considero os mais misóginos e corruptos que já apareceram.

As mulheres foram determinantes tanto para colocar Bolsonaro no poder quanto para tirá-lo. Ele foi eleito também pelo voto feminino, em um contexto marcado rejeição a corrupção dos governos Lula, então preso, enquanto a Operação Lava Jato apresentava ao país a corrupção relacionadas do PT.

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Ao mesmo tempo, essa mesma operação mostrou a farsa de como o poder do Judiciário, masculino, estava estruturado para prender e soltar, colocar algemas na política e negociar vantagens por meio de decisões questionáveis, além de perdoar empresários já condenados, mesmo diante da ampla divulgação de provas dos ilícitos pelas mídias.

Hoje imagino que as mulheres do Brasil não querem que nenhum dos dois retorne ao poder, nem Lula nem Bolsonaro, e que eles, juntamente com o STF, não tenham nem exerçam poderes de maneiras inconsequentes contra o Estado.

A honestidade, a ética e o compromisso público não pertencem a um gênero; pertencem ao caráter dos que integram os Poderes constituídos.

No Congresso Nacional, tanto na Câmara quanto no Senado, a representatividade feminina é baixa, apenas cerca 18% das cadeiras são ocupadas por mulheres, que também tem presença reduzida nos cargos relevantes das mesas diretoras.

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No Supremo Tribunal Federal, que considero desfigurado, pelos embates entre suas duas turmas, ambas questionáveis em algumas de suas decisões e sentenças, às vezes monocráticas e favoráveis a banqueiros acusados de corrupção, alguns ministros tentam dominar o jogo. Forma-se, assim, uma conjuntura de desmando e de corrupção estruturada, associada a escritórios de advocacias de Brasília para favorecer parentes e familiares.

Como demonstração do desequilíbrio existente no STF, temos apenas uma mulher como ministra, até agora isenta de qualquer quebra do paradigma da ética.

Assim, continuamos, como diria Frederico Fellini, em nave va. Fellini elegeu as mulheres como presença central de seu imaginário e declarou ter “verdadeira paixão” por elas. Em suas obras elas, aparecem como mães, esposas, tias, primas, freiras e prostitutas, muitas vezes ligadas ao sonho e à crítica social. Elas povoam seus sonhos e organizam a estética Felliniana, que também me faz navegar.

O realismo transcende todos os momentos, porque a decisão sobre o futuro do país estará nas mãos das mulheres.

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As mulheres brasileiras sabem votar! Por aqui, em meu torto desequilíbrio, considero que elas não souberam escolher seus homens, pois os últimos três presidentes da República foram presos por acusações de corrupção ou de golpe contra a nação.

A maioria saberá votar.

Estatisticamente, as mulheres demonstraram que, em sua maioria, não são corruptas, embora exista uma minoria envolvida em atos dessa natureza. Infelizmente, há juízas corruptas e desembargadoras que vendem sentenças.

Na Paraíba, não foi a maioria mulher, que se uniu ao “Excrotinho”, o ex-governador investigado e preso no âmbito de uma operação do GAECO do Ministério Público da Paraíba e considerado, um dos governantes mais corrupto que o estado já teve. Algumas mulheres, contudo, de mãos dadas com ele, compactuaram com suas ações.

A dignidade nunca deveria depender do gênero de quem vota, mas da ética de quem faz suas escolhas.

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Pois, mulheres mudaram o mundo. Basta recordar Margareth Tatcher, Golda Meir, Indira Gandi, Nefertiti, Penélope e aquelas que, com seus poderes infinitos, traçaram o rumo dos homens, como as Moiras: Clotos, Átropos e Láquesis, divindades da mitologia grega que fiam, tecem e cortam os fios da vida da humana.

Talvez seja exatamente a partir daí que minha pergunta inicial encontre sua verdadeira resposta.

O importante não é apenas saber votar, é preciso saber escolher com liberdade, leitura crítica e responsabilidade, para construir um futuro melhor para suas filhas mulheres e seus filhos.

Aqui, reafirmo! Eu acredito que Deus é mulher.

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