Na crônica desta semana , no *Ambiente de Leitura*, para lembrar o sanfoneiro Sivuca, Gonzaga Rodrigues recordou os encontros dos sá...

Sivuca e nós

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Na crônica desta semana, no *Ambiente de Leitura*, para lembrar o sanfoneiro Sivuca, Gonzaga Rodrigues recordou os encontros dos sábados à noite no terraço da casa de Nathanael Alves, em Tambauzinho, entre amigos revelados e alimentados pela arte da leitura e pelo gosto de escrever.

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Sivuca e Miriam Makeba nos Estados Unidos (1966) ▪️ Fonte: senhorf.com.br
Lembrou o cronista da recepção ao galego Sivuca, que havia chegado dos Estados Unidos, onde, com sua genialidade no manuseio da sanfona e de outros instrumentos musicais, fazia os americanos arregalarem os olhos e abrirem os ouvidos para ouvi-lo.

Nesse encontro ao qual Gonzaga se refere, eu estava lá, anônimo. Jovem taciturno e encabulado, que andava como um camponês recém-chegado de Serraria, sempre num recanto do terraço, escutava mais do que falava. Na noite em que o sanfoneiro foi recepcionado na casa do meu amigo, formou-se uma roda de admiradores do conterrâneo que fazia fita no estrangeiro.

Foi a primeira vez que estive perto do maior sanfoneiro que tivemos, e deu vontade de tocar com a ponta do dedo na roupa dele. Outras oportunidades surgiram para estar próximo dele, como aconteceu na cidade de Zabelê, localizada no Cariri paraibano. Estava ao lado desse homem que soube cuidar da sanfona com maestria.

Vendo que um grupo de crianças dava continuidade aos folguedos de boi de reis, Sivuca se aproximou e foi tocando na
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Sivuca aos 15 anos (1945) ▪️ @medium.com
cabeça de cada uma delas, como a estimular a manutenção das tradições. Lembrava que, menino pequeno em Itabaiana, tomou gosto pela sanfona ouvindo tocar fole de oito baixos nos bailes à beira do Rio Paraíba e nas feiras de Itabaiana.

No encontro na casa de Nathanael, ao qual Gonzaga se refere, lembro apenas que um dos assuntos foi a entrevista concedida a Evandro Nóbrega, de duas páginas, publicada no jornal *O Norte*, na qual Sivuca fala de sua trajetória desde os tempos da juventude até a temporada nos Estados Unidos. Para encurtar a curiosidade, sem ter que esperar o dia seguinte para a leitura da entrevista, entre nós estava o próprio entrevistado, esmiuçando sua caminhada de sanfoneiro, saindo de Itabaiana para o mundo.

Tanto no primeiro deslumbramento, no terraço de Nathanael, quanto no encontro em Zabelê, o sanfoneiro que encantou Nova Iorque não se apresentou como uma dessas “raras figuras que suportam esse aumento, que se transformam em celebridade sem ficar bestas”, como revelou Gonzaga na crônica de domingo.

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Nathanael Alves ▪️ Fonte: A União
Se, no encontro do final dos anos 1970, na casa de Nathanael, eu me deslumbrava por estar junto de uma figura que arrancava aplausos das seletas plateias, maior foi o contentamento de vê-lo entre as crianças caririzeiras, despojado das pompas dos grandes palcos mundiais, recolhendo os eflúvios do entardecer com a brisa do Aracati.

A mesma grandeza que Gonzaga sentiu durante a conversa no encontro com os amigos no terraço de Nathan eu senti nessa ocasião em que Sivuca reuniu junto de si seus admiradores de Zabelê. Nosso conterrâneo foi uma grandeza aumentada aos olhos do mundo, mas que se mantinha em tamanho natural quando estava junto aos conterrâneos, como ressaltou o cronista de Alagoa Nova.

No tumulto da admiração anônima por Sivuca, busco a permanência e a continuidade dele nos gestos em favor da cultura musical. Recordo as palavras de estímulo aos jovens de Zabelê que Sandra Belê reuniu para a apresentação dos folguedos do folclore nordestino.

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Sandra Belê ▪️ Instagram: @sescpompeia
Ele aprofundou a linguagem da sanfona para o deslumbramento de muitos, que é a harmonia da alma, sem perder o olhar para a rapadura nem para a carne de sol de Itabaiana. Por isso, na tarde em Zabelê, quando tocou “Feira de Mangaio”, deixou crianças de olhos arregalados e certamente fecundou espiritualidade poética.

Como quem produz poemas que encantam, Sivuca manuseava a sanfona com recursos emotivos e magia que deixavam as plateias extasiadas pela emoção mística causada pela música.

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