Toda caminhada começa com uma espécie de salto no desconhecido, e o primeiro passo é um dos atos mais filosóficos da existência hum...

Descobrir quem somos

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Toda caminhada começa com uma espécie de salto no desconhecido, e o primeiro passo é um dos atos mais filosóficos da existência humana. Ele representa a passagem entre aquilo que somos e aquilo que ainda podemos ser. É o instante em que abandonamos, mesmo que por alguns centímetros, a segurança do lugar conhecido, para nos aproximarmos daquilo que ainda não conhecemos.

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Arte: Alphonse Legros, 1878
Há momentos na vida em que sabemos exatamente para onde queremos ir, mas permanecemos parados. Sabemos qual caminho desejamos seguir, percebemos dentro de nós uma direção, uma inquietação, um desejo de mudança, e mesmo assim, não nos movemos. Não porque nos falte vontade, mas porque o primeiro passo parece grande demais.

Diante de uma estrada desconhecida, a nossa imaginação costuma ser mais cruel do que a própria realidade. Antes mesmo de atravessarmos a primeira curva, já imaginamos os abismos, os fracassos, as perdas e as dificuldades. Pensamos no que pode dar errado, no que os outros poderão pensar, nas consequências de uma escolha que ainda nem fizemos. E, enquanto calculamos todos os riscos da caminhada, esquecemos uma verdade simples. Nenhuma caminhada começa com a certeza de chegar ao destino.

Talvez seja justamente aí que a liberdade se manifeste.

Ser livre não significa não ter medo. Significa poder escolher apesar dele.

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Arte: Thomas Fearnley, 1830
O primeiro passo quase nunca é grandioso. Às vezes, é uma decisão silenciosa tomada numa manhã qualquer, quando ninguém está olhando. Enviar uma mensagem, aceitar um desafio, começar um projeto, pedir desculpas, abrir um livro, mudar um hábito, abandonar aquilo que já não faz sentido ou simplesmente dizer a si mesmo: “Eu vou tentar.”

Uma palavra pode ser pequena diante de uma reconciliação. Uma escolha pode parecer insignificante diante de uma vida inteira. O começo, quase sempre, possui a modéstia das coisas que ainda não revelaram sua grandeza. Depois do primeiro movimento, alguma coisa muda. A estrada continua desconhecida, mas já não somos os mesmos. Deixamos de ser espectadores da
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Arte: Gustave Caillebotte, 1884
nossa própria história e passamos a participar dela.

Há uma diferença profunda entre imaginar uma vida e vivê-la. Na imaginação, podemos controlar todas as variáveis, na existência, somos obrigados a conviver com o inesperado. É por isso que viver exige coragem. Porque viver é aceitar que jamais teremos conhecimento completo sobre o próximo capítulo.

Existe uma sabedoria escondida no caminhar, muitos caminhos só aparecem depois que começamos a percorrê-los. Enquanto permanecemos parados, queremos enxergar toda a estrada. Queremos saber onde ela termina, quais obstáculos encontraremos, quem estará conosco e se valerá a pena. Quando começamos a caminhar, descobrimos que não precisamos enxergar a estrada inteira. Basta enxergar alguns metros à frente.

A vida é exatamente assim. Ela não nos entrega o mapa completo, entrega apenas o suficiente para o próximo passo. E talvez seja esse o seu modo silencioso de nos ensinar confiança.

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Arte: Max Slevogt, 1904
Confiar não significa acreditar que tudo dará certo, significa compreender que, mesmo quando algo não sair como desejávamos, ainda poderemos aprender, corrigir, mudar de direção e recomeçar.

Há uma grande diferença entre fracassar e permanecer imóvel por medo. Quem caminha pode errar. Quem permanece parado pode até evitar alguns erros, mas também evita encontros, descobertas, experiências e possibilidades. Por isso, tantas oportunidades se perdem não porque eram impossíveis, mas porque esperamos demais para tocá-las.

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Arte: Arthur Hardwick Marsh, S.XIX
Esperamos o momento perfeito, mas essa talvez seja uma invenção da nossa insegurança. A vida inicia no imperfeito, começamos imperfeitamente, amamos imperfeitamente, aprendemos imperfeitamente, recomeçamos imperfeitamente. E talvez seja justamente nessa imperfeição que exista alguma beleza.

Não é preciso ter todas as respostas para começar. Não é preciso estar completamente preparado. Às vezes, é caminhando que adquirimos a força que julgávamos precisar ter antes. É no movimento que descobrimos nossas pernas. É na dificuldade que descobrimos nossa resistência. É na dúvida que aprendemos a escolher.

O primeiro passo também nos ensina sobre nós mesmos. Descobrimos que alguns medos eram maiores na nossa imaginação do que na realidade. E descobrimos também que mudar de direção não significa necessariamente fracassar. Há caminhos que não nos levam ao destino que desejávamos, mas nos levam a nós mesmos.

Talvez, essa seja uma das maiores descobertas da existência. Nem sempre caminhamos para chegar a algum lugar. Muitas vezes caminhamos para descobrir quem somos.

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