“Uma geração passa, outra fica no seu lugar, desde o tempo dos antepassados.
Os deuses que viveram outrora repousam nas suas pirâmides, assim como os bem-aventurados, enterrados (...).
Construíram casas, mas o seu local desapareceu. O que foi feito delas? (...) As suas paredes esfacelaram-se. Desapareceram como se nunca tivessem existido.
Ninguém volta do lugar (onde se acham) para contar como estão, para dizer o que precisam, para serenar o nosso coração até irmos para onde eles foram.”
“O Canto de um Harpista”, tumba de Intef, XI Dinastia
No coração do Antigo Egito, às margens do rio Nilo, durante o período faraónico que se estendeu por mais de três mil anos os deuses (netjeru em egípcio) possuíam distintos nomes, assumiam diversas formas e enobreciam-se com vários atributos, consoante as circunstâncias ou segundo “a lenda e as ações em que participavam”. Uns exibiam formas animais, muitos assumiam uma forma humana (Amon, Atum, Hathor, Ísis, Min, Neith, Nebthet, Osíris, Ptah, Serket etc.) e outros possuíam formas híbridas, normalmente com corpo humano e cabeça animal (Anúbis, Bastet, Hórus, Sekhmet, Set, Sobek, Thoth ou Djehuty etc.).
Estatueta de Anúbis, divindade com cabeça de canídeo (332–30 a.C.). Esculpida em madeira revestida de gesso e policromada, a figura ergue as mãos para realizar ritos de purificação e transformação sobre o morto. ▪ Met Museum, NY
Nas figuras híbridas, a cabeça que encimava a figura humana comportava a identificação do animal sagrado, permitindo reconhecer a divindade representada, ainda que determinados deuses possuíssem mais do que um animal sagrado (em Amon, o carneiro e o ganso; em Thoth, o íbis e o babuíno), além de que o mesmo animal podia representar divindades diferentes (o abutre, Nekhbet e Mut; a leoa, Sekhmet e Tefnut).
De entre as divindades associadas não apenas à natureza e ao cosmos, mas também aos perigos invisíveis que ameaçavam a vida humana, estava a poderosa Serket ou Serket-Hetyt (Serqet, Selqet, Selket, Selkit, Selkis, hieroglífico grafado como srqt), que significa “aquela que faz a garganta respirar” ou “a que facilita a respiração na garganta”, uma das deusas mais antigas do Egito, simultaneamente temida e venerada e das mais misteriosas e respeitadas da mitologia egípcia. Cultuada no Baixo Egito (correspondente à região norte do território, situada na área do delta onde o rio Nilo desaguava no mar Mediterrâneo) como uma grande deusa-mãe no período pré-dinástico (cerca de 6000-3150 a.C.), Serket era representada na forma antropomórfica como uma mulher com um escorpião sobre a cabeça (por vezes mostrada a usar o toucado da deusa Hathor, um disco solar posicionado entre
Serket, deusa da proteção e da cura, representada com um escorpião sobre a cabeça, seu principal atributo. A pintura integra a decoração da tumba de Nefertari (QV66), no Vale das Rainhas, em Luxor, Egito. ▪ Wikimedia
dois chifres de vaca, simbolizando a fertilidade, o céu e a realeza).
Como guardiã do trono real e rodeada de profusa simbologia mágica, ela tinha o poder de curar as pessoas, sobretudo quando se tratasse de crianças e grávidas, que acidentalmente tivessem sido atacadas por escorpiões, serpentes ou outros animais venenosos. Era também deusa da união conjugal e ajudava as mulheres na hora do parto. Porém, na sua ambígua função, poderia punir os ímpios com esses mesmos venenos, levando-os à morte.
Na mitologia egípcia, uma das histórias mais populares sobre Ísis, descrita na Estela Metternich (também conhecida como Monólito de Metternich), datada do reinado de Nectanebo II (o terceiro e último faraó nativo do Egito), encontrada em Alexandria no ano de 1828 durante as obras de escavação para a construção de uma cisterna num antigo mosteiro franciscano, é aquela conhecida como “Ísis e os Sete Escorpiões”. Segundo esse mito, Quando Ísis fugia do deus Seth (deus do caos, do deserto, das tempestades e da violência) para proteger o seu bebé Hórus, pelos pântanos do Delta do Nilo, onde abundam papiros e os locais viviam e caçavam, a deusa Serket enviou sete escorpiões mágicos para lhe fazer companhia, chamados Tefen, Befen, Mestet, Mestetef, Petet, Tetet e Matet.
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Os escorpiões posicionavam-se estrategicamente ao redor de Ísis: três iam à frente a abrir caminho (Petet, Tjetet e Matet), dois flanqueavam os lados (Mesetet e Mesetetef) e os dois mais ferozes (Tefen e Befen) protegiam a retaguarda, caso Set decidisse atacar por trás. Disfarçada de mulher pobre e humilde, Ísis pediu abrigo à porta de uma mansão rica. A dona da casa, uma abastada mulher de nome Usert, viu os escorpiões e fechou a porta com medo e desprezo, recusando-se a ajudar a peregrina. Por outro lado, uma humilde pescadora acolheu-os de bom grado.
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Irritados com a falta de empatia da mulher rica, os escorpiões juntaram todo o seu veneno no ferrão de Tefen, que entrou na casa rica e picou o filho da aristocrata. Ouvindo os gritos de desespero da mãe, Ísis sentiu compaixão pela criança. Usando o seu imenso poder e recitando os nomes secretos dos escorpiões, Ísis neutralizou o veneno e salvou a vida do menino. A mulher rica, arrependida, doou todas as suas riquezas à família da pescadora e aos escorpiões. Serket, que estava no pântano com Hórus, lamentou ter enviado o escorpião para atacar a criança inocente e jurou proteger todas as crianças no futuro. Este mito solidificou o papel de Serket,
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confirmando o seu poder de neutralizar o veneno e devolver o fôlego da vida.
O Egito da época conhecia dois tipos de perigosos escorpiões: o Scorpio maurus (Escorpião-africano-de-garra-larga) uma espécie escura (castanha ou preta), que vivia em tocas e possuía uma picada dolorosa, mas relativamente inofensiva se comparada à do amarelo; e o outro, o Leiurus quinquestriatus (Escorpião-amarelo-da-palestina), o mais temido e letal do deserto egípcio, com um veneno neurotóxico potente que causava asfixia quase imediata. Nas zonas áridas e nas dunas existiam outras subespécies do género Buthus (família Buthidae), um perigo real devido ao seu veneno potente (curiosamente, a fêmea, maior que o macho, possuía uma maior quantidade de veneno), que inspirava o pavor e um profundo respeito religioso associado à deusa Serket. Ou seja, numa terra onde as picadas de escorpiões eram normalmente fatais, Serket era considerada a senhora do veneno, mas também da cura. Os antigos egípcios acreditavam que a deusa possuía o poder de afastar criaturas perigosas e proteger as pessoas contra doenças e ameaças ocultas.
Serket, representada em forma híbrida, com corpo de escorpião e busto feminino. A figura de bronze, do Período Tardio do Egito (c. 663–346 a.C.), integra o topo de um cetro em forma de coluna de papiro, pertencente ao Museu Walters, em Baltimore, EUA.
Debates mais modernos sugerem que a identificação de Serket como um escorpião pode ser uma interpretação errónea do seu nome (que significa “aquela que faz a garganta respirar”, “a que facilita a respiração” ou “aquela que dá o fôlego”), já que é possível que se refira não a um escorpião venenoso ou tóxico para os seres humanos, mas sim a um escorpião-d’água da família Nepidae, que possui um longo tubo respiratório caudal que mantém à tona enquanto permanece submerso na lama ou na vegetação. De acordo com essa possibilidade, o significado do nome de Serket referir-se-ia à capacidade dos escorpiões-d’água de respirar debaixo d’água...
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Os seus símbolos, para além do escorpião, eram ainda o ankh (ou cruz ansata, o antigo hieróglifo egípcio que significa “vida” ou “vida eterna”) e o cetro de was (um bastão simbólico, composto por uma haste reta, uma ponta em forma de cabeça de animal e a base dividida em dois garfos, símbolo de poder, domínio e autoridade absoluta), todos eles transmitindo os seus aspetos absolutos e benevolentes. A sua importância ia muito além da vida quotidiana. O seu papel principal estava ligado ao culto funerário. Dizia-se que Serket era a protetora das tendas dos embalsamadores (ou Ibu, o “lugar de purificação”), pavilhões montados temporariamente perto das margens do rio Nilo e dos cemitérios, onde sacerdotes especializados realizavam o complexo ritual de 70 dias de mumificação dos corpos e garantir a vida eterna). Qebehsenuef (deus com cabeça de falcão), conhecido por ser o protetor dos mumificadores, dos intestinos mumificados dos falecidos e responsável por ajudar na transição do corpo físico para o mundo dos mortos, é considerado o guardião da arca canópica que guardava os vasos viscerais utilizados na mumificação e era dever de Serket, uma deusa conhecedora de venenos (os antigos egípcios associavam os intestinos ao veneno e daí a sua “função”) protegê-los juntamente com Neith, Ísis e Nebthet. Esse papel conferiu-lhe o título de “Dama da linda casa”, referindo-se ao pavilhão de embalsamamento.
Cena do Papiro de Hunefer, datado de cerca de 1300 a.C., que representa o ritual de abertura da boca realizado diante da tumba. Anúbis sustenta a múmia de Hunefer, enquanto a esposa e a filha do morto fazem gestos de lamento e sacerdotes executam os ritos funerários. À direita aparecem a estela do falecido e a representação da entrada da tumba, coroada por uma pequena pirâmide. ▪ Museu Britânico, Londres.
No processo de mumificação, as vísceras eram cuidadosamente retiradas, impregnadas de bálsamos, envoltas em linho e colocadas no interior desses vasos, depostos posteriormente na câmara funerária, junto do sarcófago do defunto. A cada um desses vasos viscerais, estava também associado um dos filhos de Hórus, mormente Imseti, Duamutef (figurado com cabeça de canídeo), Kebehsenuef (com cabeça de falcão) e Hapi (representado com cabeça de babuíno). Assim, o vaso de vísceras no qual eram guardados os pulmões, estava ligado à deusa Nebthet e ao deus Hapi. O fígado seria colocado no vaso cuja tampa representava Imseti, sendo Ísis a deusa tutelar. O estômago, preservado no vaso que representava Duamutef, estava também associado à deusa Neith. Por último, os intestinos seriam tutelados
Procissão funerária de Hunefer, representada no Livro dos Mortos (c.1275 a.C.). O cortejo conduz a múmia em um trenó puxado por bois até a tumba, com a presença de sacerdotes, familiares e objetos funerários. ▪ Museu Britânico, Londres.
por Kebehsenuef e por Serket, a deusa escorpião.
Serket era posicionada nas extremidades dos sarcófagos e caixões com os seus braços abertos para proteger o morto, acompanhada pela expressão “Palavras ditas por Serket” (fórmula hieroglífica egípcia Dd mdw in), seguida por discursos de proteção aos mortos, tais como: “Eu estendo os meus braços para proteger o que está dentro de mim”, “Senhora do Céu e de todos os Deuses: Eu dou-te uma passagem segura pelos caminhos do submundo” ou ainda “Eu trago o fôlego à tua garganta”. Como observou a prestigiada autora e egiptóloga inglesa Geraldine Pinch, autora, entre outras obras, de “Magic in Ancient Egypt”, “Egyptian Mythology: A Guide to the Gods, Goddesses, and Traditions of Ancient Egypt”, “Egyptian Myth: A Very Short Introduction” e “Votive Offerings to Hathor”, Serket é “uma das divindades que vigia uma curva do rio na rota aquática para o paraíso”.
Complementarmente, os quatro filhos de Hórus representam também os quatro pontos cardeais: a Imseti foi dado o domínio sobre o Sul, a Hapi o Norte, a Duamutef o Oriente e a Kebehsenuef o Ocidente, que era por excelência a região dos defuntos.
Serket, em estatueta de madeira revestida de folha de ouro, encontrada na tumba de Tutankhamon (KV62), no Vale dos Reis. Com os braços estendidos em gesto de proteção, a deusa guarda o santuário canópico com os órgãos internos do faraó. ▪ Museu Egípcio, Cairo
O culto de Serket estava profundamente ligado aos conceitos de regeneração, vigilância e proteção divina. Apesar da sua aparência intimidadora, ela simbolizava cuidado e segurança, simbolizando capacidade de transformar o perigo em proteção.
Na XXI dinastia foi representada como uma mulher com cabeça de leoa, tendo a nuca protegida por um crocodilo. No entanto, a imagem mais famosa de Serket é a deslumbrante estátua em madeira revestida a ouro descoberta no túmulo de Tutankhamon (KV62), onde atuava como uma das quatro divindades protetoras do cofre dos vasos viscerais. Essas divindades são facilmente reconhecíveis pelos seus toucados. O de Ísis é um trono, o de Nebthet consiste em dois hieróglifos que soletram o seu nome (uma casa sobre uma cesta), o de Neith é um escudo e o de Serket, como se pode imaginar, é um escorpião com a cauda erguida.
Os “Textos das Pirâmides” afirmam que Serket seria mãe (ou esposa) do colossal deus serpente de três cabeças, um demónio com pernas e braços humanos e ocasionalmente com asas, Nehebu-Kau, cuja função era proteger a realeza e que vivia no mundo dos mortos. Devido a esta associação, Serket era vista como guardiã de uma das quatro portas do mundo subterrâneo, prendendo os mortos com correntes.
Nehebu-Kau, deus egípcio de forma humana com cabeça de serpente, associado à proteção e ao mundo dos mortos ▪ Museu Egípcio, Turim, Itália
Nesses escritos sagrados gravados nas paredes das tumbas reais, o rei invoca a sua ajuda mágica dizendo: “Serket está diante de mim”, posicionada junto a Ísis, Nebthet e Neith na defesa do soberano.
Originalmente, Serket era adorada no Delta do Nilo, mas o seu culto era igualmente conhecido por todo o Egito, com centros de devoção em Djeba (Edfu) e em Per-Serqet (corresponde à localidade grega de Pselkis e à atual El Dakka). Em reverência para com ela, as pessoas usavam amuletos com formas de escorpião para se protegerem contra as perigosas picadas do animal e até mesmo curá-las. A própria deusa era invocada para prevenir e curar tais males, figurando sobretudo nas fórmulas mágicas ou nas paredes das tumbas com o objetivo de proteger o defunto de qualquer ataque.
Os sacerdotes de Serket, chamados de Kherep Selket (literalmente: “aquele que tem poder sobre a deusa escorpião”) eram geralmente médicos e mágicos (no Antigo Egito, a medicina era uma mistura de folclore, magia e ciência) que se dedicavam a curar picadas de escorpião e de criaturas venenosas através de esconjuros, rituais apotropaicos (projetados para afastar o mal) e remédios tradicionais. Embora tivesse um sacerdócio, até hoje não foram encontrados templos associados à deusa.
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Em janeiro de 2025, um grupo de arqueólogos franco-suíços descobriu o túmulo do médico-chefe do palácio em Saqqara, chamado Tetinebefou. Nesse templo, na célebre necrópole de Memphis, há referências à deusa Serket, sendo que Tetinebefou era considerado o “diretor de plantas medicinais e conjurador da deusa Serket”. A parte frontal do Papiro VII de Chester Beatty, em escrita hierática (Dinastia XIX, c. 1250 a.C.), escrito durante o reinado de Ramsés II (XIX Dinastia), contém diversos feitiços mágicos para proteção contra escorpiões. A maioria invoca várias esposas de Hórus que, segundo Sir Alan Henderson Gardiner
Papiro Chester Beatty VII, manuscrito da XIX Dinastia que reúne fórmulas destinadas à proteção contra picadas de escorpião, além de encantamentos relacionados à febre e outras enfermidades. ▪ Museu Britânico, Londres
(1879-1963), famoso egiptólogo britânico, linguista e filólogo, poderiam ser meramente denominações de Serket, e que são mencionadas no oitavo feitiço: “Alguém está se aproximando de mim”; “Não sou eu quem se aproxima, mas Wepet-sepu [“A que decide sobre os crimes”]”; “Venenos, apresentem-se diante de mim. Eu sou Serket”. Nesse feitiço, o médico recitava os versos como se o paciente estivesse a dialogar com a deusa ou deusas. Quando Serket recitava o último verso, acreditava-se que os venenos começavam a deixar o corpo do doente. Embora não seja mencionada nominalmente em todos os papiros ou inscrições, os seus poderes de cura eram invocados independentemente de quais outros deuses fossem evocados.
A história de Serket mostra-nos como os antigos egípcios procuravam compreender e enfrentar os desafios da vida através da espiritualidade e da religião. Mais do que uma simples deusa ligada aos escorpiões, ela tornou-se num símbolo de defesa, cura e esperança diante do desconhecido.