O tempo faz perder o fio da memória. Os encontros se dissolvem em segundos, mas permanecem em fragmentos que resistem dentro do corpo....

Um Vau na memória

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O tempo faz perder o fio da memória. Os encontros se dissolvem em segundos, mas permanecem em fragmentos que resistem dentro do corpo.

Fazer, todos os dias, um espetáculo como Vau da Sarapalha é um ato de permanência, um gesto de resistência poética diante do tempo. Ensinar, reconstruir o personagem, dialogar com o texto e com o público também é revisitar os afetos, as lembranças e as presenças que formam o alicerce de um grupo.

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Everaldo Pontes, Nanego Lira e Buda Lira ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
O grupo Piollin, nascido nas clareiras da Caatinga, fez do teatro um modo de existir. Não apenas encenava, mas vivia o teatro. Desde suas origens, o coletivo aprendeu que criar é conviver e que a cena se constrói na partilha. A convivência era o ensaio permanente, o lugar em que o humano e o artístico se confundiam.

Assim nasceu Vau da Sarapalha, a partir do conto de Guimarães Rosa, em que dois primos, Ribeiro e Argemiro, isolados no vau de um rio, enfrentam o silêncio, a febre e a paixão. Mas o que o Piollin fez não foi apenas adaptar: foi transformar essa solidão em rito coletivo, traduzindo a palavra literária em gesto, corpo e som.

Em 2026, completam-se 80 anos da publicação de Sagarana, livro que reúne o conto “Sarapalha”. Também se completam 70 anos da publicação de Corpo de Baile e Grande sertão: Veredas. A lembrança dessas datas acompanha a memória do espetáculo nascido de um conto de Rosa.

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Cena de Vau da Sarapalha ▪️ Fonte: quatroloscinco.com
A memória da peça não está apenas nas apresentações, mas nas relações que ela provocou. Cada ensaio era uma reconstrução do mundo. O corpo dos atores se tornava o espaço simbólico do sertão: o vento, a sede, o calor, a espera. Cada ator trazia sua história, seu ritmo e sua forma de lidar com o tempo. A cena, como o rio, não era a mesma duas vezes.

Em um novo lugar, o público era outro, o salão tinha outra luz, o ar tinha outro peso. O espetáculo nascia de novo, e com ele nascia a memória de todos os que o fizeram.

Vau da Sarapalha é a soma dos gestos e silêncios de Luiz Carlos Vasconcelos, Nanego Lira, Soia Lira, Everaldo Pontes, Escurinho e Servílio. Cada um trouxe uma parte da existência, da voz e da escuta. O grupo não construiu uma obra estática, mas um organismo vivo, onde cada apresentação era uma metamorfose. A memória se construía com o suor, a respiração e o olhar trocado entre os atores e o público.

Assisti à peça Vau da Sarapalha, do grupo Piollin, na sua estreia em março de 1992, no Teatro Piollin, em João Pessoa. A data coincidia com o Dia do Circo no Brasil; no dia seguinte era meu aniversário.

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Estreia de Vau da Sarapalha no Teatro Piollin (João Pessoa - PB) ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
O processo de criação era também um processo de escuta. Escutar o outro, escutar o espaço, escutar o tempo. A solidão individual se encontrava na coletividade. O teatro do Piollin se fez assim: do gesto simples, do olhar partilhado, da construção do comum. Nessa construção, a memória se tornava matéria e o tempo se transformava em presença.

A cada nova montagem, o grupo revisita sua própria história. Não para repeti-la, mas para reconhecê-la. O que permanece não é a cronologia das apresentações, mas a experiência partilhada.

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Everaldo Pontes, Soia Lira e Nanego Lira em Vau da Sarapalha ▪️ Fonte: quatroloscinco.com
A memória de Vau da Sarapalha é feita de momentos efêmeros: o instante em que a luz toca o rosto do ator, o som da respiração antes da fala, o silêncio da plateia quando o gesto se encerra. São memórias que se mantêm no corpo, no invisível e no afeto.

A peça tornou-se um arquivo vivo de lembranças. Em cada ator, uma história diferente; em cada plateia, uma leitura singular. Não se trata apenas de preservar o passado, mas de reinventar o presente. O Vau não se encerra, continua correndo, levando consigo os ecos de suas margens.

Um fato que me surpreendeu e deixou profundamente admirado foi presenciar, na estreia da peça, um ator no chão, na entrada do Piollin, representando um cachorro. Servílio era tão convincente e expressivo que parecia realmente pertencer àquele espaço, surpreendendo o público e anunciando, desde o início, a potência poética do espetáculo que veríamos.

O sertão de Guimarães Rosa, atravessado pelo corpo dos atores, alcançava novos territórios e se misturava ao tempo das pessoas que o assistiam.

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Evaraldo Pontes ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
A memória de Vau da Sarapalha é também a memória do trabalho coletivo. O Piollin fez do convívio uma pedagogia. O ensaio era aprendizado, o palco era experimentação e o cotidiano era pesquisa. Essa dimensão pedagógica é parte essencial do legado do grupo: ensinar é também criar. Cada gesto, cada som e cada pausa são vestígios desse aprendizado que se multiplica em gerações de artistas.

A relação com o público é sempre uma travessia: o ator oferece o gesto, o público devolve o olhar. Nesse intervalo, nasce o teatro. E é nele que se guarda a memória mais profunda, a do instante compartilhado.

Os atores de Vau da Sarapalha carregam o legado de um modo de fazer teatro que uniu a poética de Guimarães Rosa à expressividade corporal dos atores do Piollin. A musicalidade do texto se converteu em respiração; o sertão, em gesto. A obra ensinou que a palavra pode ser som, e o som pode ser silêncio.

O teatro se tornou o espaço de um encontro entre o mito e o cotidiano, entre o que se lembra e o que se esquece. A memória, nesse contexto, não é apenas registro, mas continuidade. Cada reapresentação é
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Grupo Piollin ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
um renascimento, uma nova leitura do mesmo rio, uma nova margem de Rosa. O tempo age sobre o corpo, e o corpo devolve o tempo em movimento. O personagem não é o mesmo, porque o ator já não é o mesmo. A cada gesto, o grupo reafirma o sentido da travessia: ser ator é ser passageiro, e a cena é o vau que liga uma margem à outra. No silêncio da cena, está a memória de tudo o que foi dito. No corpo dos atores, permanecem os traços das emoções vividas. No olhar do público, o reflexo de um sertão que se amplia e se transforma. O legado de Vau da Sarapalha é o de manter viva essa circulação da vida, esse ciclo entre o que se cria, o que se sente e o que permanece.

Vau da Sarapalha: uma história que atravessou o tempo, os corpos e as paisagens, para tornar-se lembrança viva da arte como partilha e da cena como espelho do sertão. Mais que uma história do teatro paraibano, Vau da Sarapalha é um testemunho do fazer e do ser teatral.

Uma experiência que ultrapassa o tempo e o espaço, porque sua essência está no encontro humano. O grupo Piollin construiu um modo de existir que fez do teatro
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um espelho do sertão e da vida.

E, assim, a memória do espetáculo segue viva, como um rio que nunca deixa de correr.

Hoje, Vau da Sarapalha é lembrado como uma travessia artística e humana. Uma experiência que uniu o sertão à cena, o conto à corporeidade, o silêncio à presença. Luiz Carlos Vasconcelos, Soia Lira, Nanego Lira, Everaldo Pontes, Escurinho, Servílio e a equipe técnica transformaram um fragmento da literatura brasileira em um legado de teatro.

Em cada lembrança, uma cena. Em cada cena, um gesto de permanência. O Vau da Sarapalha continua atravessando o tempo, guardando em si a beleza e a resistência da arte que nasce da memória e da convivência.

Ao longo dos anos, Vau da Sarapalha passou a ser mais do que um espetáculo. Tornou-se um lugar de memória e de permanência. Não importa o país ou o palco, a cena mantém o mesmo sentido de encontro.

Axé, Guimarães Rosa. Axé ao grupo Piollin, que fez do palco um vau, lugar de passagem, memória e permanência.

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