O tempo faz perder o fio da memória. Os encontros se dissolvem em segundos, mas permanecem em fragmentos que resistem dentro do corpo.
Fazer, todos os dias, um espetáculo como Vau da Sarapalha é um ato de permanência, um gesto de resistência poética diante do tempo. Ensinar, reconstruir o personagem, dialogar com o texto e com o público também é revisitar os afetos, as lembranças e as presenças que formam o alicerce de um grupo.
Everaldo Pontes, Nanego Lira e Buda Lira ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
Assim nasceu Vau da Sarapalha, a partir do conto de Guimarães Rosa, em que dois primos, Ribeiro e Argemiro, isolados no vau de um rio, enfrentam o silêncio, a febre e a paixão. Mas o que o Piollin fez não foi apenas adaptar: foi transformar essa solidão em rito coletivo, traduzindo a palavra literária em gesto, corpo e som.
Em 2026, completam-se 80 anos da publicação de Sagarana, livro que reúne o conto “Sarapalha”. Também se completam 70 anos da publicação de Corpo de Baile e Grande sertão: Veredas. A lembrança dessas datas acompanha a memória do espetáculo nascido de um conto de Rosa.
Cena de Vau da Sarapalha ▪️ Fonte: quatroloscinco.com
Em um novo lugar, o público era outro, o salão tinha outra luz, o ar tinha outro peso. O espetáculo nascia de novo, e com ele nascia a memória de todos os que o fizeram.
Vau da Sarapalha é a soma dos gestos e silêncios de Luiz Carlos Vasconcelos, Nanego Lira, Soia Lira, Everaldo Pontes, Escurinho e Servílio. Cada um trouxe uma parte da existência, da voz e da escuta. O grupo não construiu uma obra estática, mas um organismo vivo, onde cada apresentação era uma metamorfose. A memória se construía com o suor, a respiração e o olhar trocado entre os atores e o público.
Assisti à peça Vau da Sarapalha, do grupo Piollin, na sua estreia em março de 1992, no Teatro Piollin, em João Pessoa. A data coincidia com o Dia do Circo no Brasil; no dia seguinte era meu aniversário.
Estreia de Vau da Sarapalha no Teatro Piollin (João Pessoa - PB) ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
A cada nova montagem, o grupo revisita sua própria história. Não para repeti-la, mas para reconhecê-la. O que permanece não é a cronologia das apresentações, mas a experiência partilhada.
Everaldo Pontes, Soia Lira e Nanego Lira em Vau da Sarapalha ▪️ Fonte: quatroloscinco.com
A peça tornou-se um arquivo vivo de lembranças. Em cada ator, uma história diferente; em cada plateia, uma leitura singular. Não se trata apenas de preservar o passado, mas de reinventar o presente. O Vau não se encerra, continua correndo, levando consigo os ecos de suas margens.
Um fato que me surpreendeu e deixou profundamente admirado foi presenciar, na estreia da peça, um ator no chão, na entrada do Piollin, representando um cachorro. Servílio era tão convincente e expressivo que parecia realmente pertencer àquele espaço, surpreendendo o público e anunciando, desde o início, a potência poética do espetáculo que veríamos.
O sertão de Guimarães Rosa, atravessado pelo corpo dos atores, alcançava novos territórios e se misturava ao tempo das pessoas que o assistiam.
Evaraldo Pontes ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
A relação com o público é sempre uma travessia: o ator oferece o gesto, o público devolve o olhar. Nesse intervalo, nasce o teatro. E é nele que se guarda a memória mais profunda, a do instante compartilhado.
Os atores de Vau da Sarapalha carregam o legado de um modo de fazer teatro que uniu a poética de Guimarães Rosa à expressividade corporal dos atores do Piollin. A musicalidade do texto se converteu em respiração; o sertão, em gesto. A obra ensinou que a palavra pode ser som, e o som pode ser silêncio.
O teatro se tornou o espaço de um encontro entre o mito e o cotidiano, entre o que se lembra e o que se esquece. A memória, nesse contexto, não é apenas registro, mas continuidade. Cada reapresentação é
Grupo Piollin ▪️ Fonte: @centroculturalpiollin
Vau da Sarapalha: uma história que atravessou o tempo, os corpos e as paisagens, para tornar-se lembrança viva da arte como partilha e da cena como espelho do sertão. Mais que uma história do teatro paraibano, Vau da Sarapalha é um testemunho do fazer e do ser teatral.
Uma experiência que ultrapassa o tempo e o espaço, porque sua essência está no encontro humano. O grupo Piollin construiu um modo de existir que fez do teatro
GD'Art
E, assim, a memória do espetáculo segue viva, como um rio que nunca deixa de correr.
Hoje, Vau da Sarapalha é lembrado como uma travessia artística e humana. Uma experiência que uniu o sertão à cena, o conto à corporeidade, o silêncio à presença. Luiz Carlos Vasconcelos, Soia Lira, Nanego Lira, Everaldo Pontes, Escurinho, Servílio e a equipe técnica transformaram um fragmento da literatura brasileira em um legado de teatro.
Em cada lembrança, uma cena. Em cada cena, um gesto de permanência. O Vau da Sarapalha continua atravessando o tempo, guardando em si a beleza e a resistência da arte que nasce da memória e da convivência.
Ao longo dos anos, Vau da Sarapalha passou a ser mais do que um espetáculo. Tornou-se um lugar de memória e de permanência. Não importa o país ou o palco, a cena mantém o mesmo sentido de encontro.
Axé, Guimarães Rosa. Axé ao grupo Piollin, que fez do palco um vau, lugar de passagem, memória e permanência.













