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Cabisbaixa, a moça se afasta do caixa da farmácia sem se sentir autorizada a apanhar e poder sair com a pequena sacola de compras. Recolhe l...

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Cabisbaixa, a moça se afasta do caixa da farmácia sem se sentir autorizada a apanhar e poder sair com a pequena sacola de compras. Recolhe lentamente o cartão da máquina, olha receosa as pessoas da fila — eu e uma outra — e sai meio sem jeito, sem fazer ideia do constrangimento mudo e surdo em que nos deixava.

Alguma coisa mudou, realmente. Falta apurar por conta de quem ou de quê, mas que mudou, mudou. O Pantanal pegando fogo; a Amazônia queima...

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Alguma coisa mudou, realmente. Falta apurar por conta de quem ou de quê, mas que mudou, mudou.

O Pantanal pegando fogo; a Amazônia queimada, revirada e pelada; a capital do Império, da República, de todas as culturas, o Rio, virou antro sem trégua de ladrões públicos...

Deve estar pisando nos 90 anos. Em 1945/46, aluno do Pio XI do padre escritor Odilon Pedrosa, eu me via sem cancha para entrar no time em qu...

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Deve estar pisando nos 90 anos. Em 1945/46, aluno do Pio XI do padre escritor Odilon Pedrosa, eu me via sem cancha para entrar no time em que ele e Cabralzinho jogavam por todo o resto. Balduíno de Taperoá, mas na rua de Campina, com João Loureiro, mandando nos frangotes do seu tope. Olhavam por cima no jogo ou em qualquer outra encrenca. João Loureiro do G.A.D., Balduíno do colégio do padre.

Com os cuidados que, aos poucos, se vão incorporando à vida normal, desci no elevador e fui tomar sol, cedinho, na quadra vizinha que o nos...

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Com os cuidados que, aos poucos, se vão incorporando à vida normal, desci no elevador e fui tomar sol, cedinho, na quadra vizinha que o nosso condomínio incorporou desde um bom tempo. A falta de sol e de um pouco de liberdade para sair olhando as árvores vem me roubando da melhor distração, que é não parar nem pensar o tempo. Na minha idade, o tempo, quanto mais afastado melhor.

Queria poder escrever sobre o Amazonas ou a Amazônia. Quem, no ramo, não curte essa vontade? O rio imenso, primeiro orgulho interno e fama...

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Queria poder escrever sobre o Amazonas ou a Amazônia. Quem, no ramo, não curte essa vontade? O rio imenso, primeiro orgulho interno e fama universal do Brasil, irrigando o maior bioma do mundo, a Amazônia. Mas bem cedo, menino ainda (e ainda mais por ser menino), o mapa que mandaram o menino pintar de verde de mangueira foi perdendo a alegria, ficando sempre mais escuro e impenetrável.

Súbita e casualmente cogitada, correu num rastilho, como se aguardada há tempos, a candidatura de Ângela Bezerra de Castro para concorrer...

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Súbita e casualmente cogitada, correu num rastilho, como se aguardada há tempos, a candidatura de Ângela Bezerra de Castro para concorrer à presidência da Academia de Letras, na próxima segunda-feira, 14, 79º aniversário da entidade.

Fechada a última página do jornal, Leocádio apaga as luzes, e desabalamos pela escada em caracol da velha A União, Cabo Doge ou Doge Patada...

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Fechada a última página do jornal, Leocádio apaga as luzes, e desabalamos pela escada em caracol da velha A União, Cabo Doge ou Doge Patada – como tratávamos Dorgival Terceiro Neto - repicando o projeto várias vezes adiado de, um dia, descermos até as cabeceiras do rio Paraíba, ainda que de quatro, pelas encostas de Monteiro.

A lembrança do nome da professora Ângela Bezerra de Castro como candidata à presidência da Academia Paraibana de Letras, simultaneamente co...

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A lembrança do nome da professora Ângela Bezerra de Castro como candidata à presidência da Academia Paraibana de Letras, simultaneamente compartilhada por um número expressivo de confrades, não é mais que o reflexo da presença peculiar de quem se orgulha em não buscar mais que ser professora, dito isto no discurso de posse, há 21 anos: “Venho de outra experiência existencial. Da utopia concreta que é a resistência de uma vida inteiramente dedicada à causa da educação. Não à teoria nem aos postos burocráticos, onde o distanciamento costuma esmaecer o impacto da realidade. Venho da linha de frente desta batalha que, se perdida, com ela também se perdem todas as perspectivas da sociedade”.

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Linha de frente iniciada ainda estudante como professora do Estadual de Cruz das Armas e exercida além da Escola Técnica Federal, além da cadeira de Literatura da Universidade, no fazer, divulgar e incutir os valores da terra, sempre omitidos nas antologias da consagração nacional.

O militante literário preso à geografia da Paraíba era um escritor da “caixa prego” como sua Universidade, assim recebida, como todos lembram, pelo articulista maior dos Associados, o Austregésilo de Ataíde, presidente, até morrer, da Academia Brasileira de Letras. E nós, poetas municipais, íamos aos federais como quem vai ao Olimpo. Foi um tento extraordinário do governo de Pedro Gondim sediar na Paraíba um congresso brasileiro de crítica literária, mesmo que, com Pedro Américo, Augusto dos Anjos, Pereira da Silva, José Américo, Zé Lins e Chateaubriand, constássemos do painel de estrelas das letras e artes nacionais. Mas nem Zé Américo nem Zé Lins constavam dos exemplos inscritos nos textos passados aos alunos. Entravam em aulas com Juarez Batista e Virginius. Dávamos a vida por uma manga, mas tínhamos que comer maçãs.

Surgia um nome que haveria de se dedicar com orgulho, sem utopia, da isolada república paraibana das letras
Então, me comovi incrédulo quando Nathanael Alves entrou na redação do jornal e me deu a notícia: “Estamos lidos e passados como exemplo na escola.” E entre cético e irônico: “No lugar de Bilac, o que pouco viu e sentiu na morte de Augusto. É conosco, material de segunda, que Ângela, a filha de Miriam, minha colega do TRE, está se vingando do poeta das estrelas”.

Surgia um nome que haveria de se dedicar com orgulho, sem utopia, da isolada república paraibana das letras. Demoro nesse marco por ter sido um dos acontecimentos mais emocionantes de toda a minha militância. Tanto ou mais quanto a generosa outorga do honoris causa da nossa Universidade. Ser dado como exercício escolar a quem se inaugura no mundo da leitura é ser chamado à responsabilidade.

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E é sempre assim que, daí até hoje, me coloco diante de ngela Bezerra de Castro. Não deve ser diferente para quem a tem acompanhado na cátedra, no livro, no ensaio esparso, nas conferências de puríssima aula. E a Academia, desde a sua posse, tornou-se a sua linha de frente. Não estranha, portanto, a simultaneidade de opções por seu nome numa instituição fundada por um professor emérito para o culto e o cultivo da nossa fortuna literária.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

Volto à marca em que havia deixado, há duas semanas, a leitura de “Os olhos no exílio” de Francisco Barreto Filho.

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Volto à marca em que havia deixado, há duas semanas, a leitura de “Os olhos no exílio” de Francisco Barreto Filho.

Domingo, comecei pelo meu cronista e terminei com o meu poeta, distintos no estro, nos modos e no tempo. Dando as cartas, comecei pela crôn...

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Domingo, comecei pelo meu cronista e terminei com o meu poeta, distintos no estro, nos modos e no tempo. Dando as cartas, comecei pela crônica de Martinho Moreira Franco e cheguei à linha final sob o clarão da memória na nevrose de Augusto dos Anjos face à “ultrajante invenção do telefone”.

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Na crônica, Martinho extravasa a queixa de quem é invadido em seu tugúrio pela chamada cortante, perturbadora. Augusto, que não teve a abstração usurpada pela novidade de privilegiados do seu meio, erigiu-o, qual Internet na globalização de hoje, como simbolização da dependência ou achincalhamento do mazombo e do morubixaba ao jugo do colonizador. No seu tempo era o inglês, de onde vinham todas as máquinas com seu preço e para onde iam todo o algodão e todo açúcar ao preço deles.

O telefone não entra no poema (Os doentes) a pretexto da rima. Augusto não era disso. A Paraíba, com a sua capital, estava ainda muito longe de se perturbar com a vibração ruidosa da invenção do dr. Graham Bell. A julgar pelos anúncios no Almanach de 2010 (que ganhei de Fernando Moura), era rara a casa do alto comércio de João Pessoa com telefone. Mesmo as importadoras de nomes estrangeiros ou indústrias como a Tibiry. O irmão de Augusto, Arthur de C. R dos Anjos, com escritório na Maciel Pinheiro e morando num palacete de Tambiá, não insere telefone em seu anúncio de advogado.

Seguramente, o que acontece com Martinho, confrades e afins, aqui e ali obrigados a largar o texto ou a meditação, perder o fio da meada para atender à chamada invasora, estava longe, muito longe de perturbar física e mentalmente o poeta do Pau d’Arco.

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Sem nenhuma dúvida, o telefone, que simbolizava, ao lado do automóvel, mais um império a nos impor a língua, os negócios, a moral e a religião, fazia-nos sentir “pior que um vagabundo (...) desterrado na sua própria terra, diminuído na crônica do mundo”.

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"A hereditariedade dessa pecha
Seguiria seus filhos. Dora em diante
Seu povo tombaria agonizante
Na luta da espingarda com a flecha!”

Poeta da morte e da melancolia? Poeta do hediondo? Lorota. Dispensemos o receio de transcrever:

“Aturdia-me a tétrica miragem
De que, naquele instante, no Amazonas,
Fedia, entregue a vísceras glutonas,
A carcaça esquecida de um selvagem”.

E vem o remate:

“A civilização entrou na taba
Em que ele estava. O gênio de Colombo
Manchou de opróbrios a alma do mazombo
Cuspiu na cova do morubixaba.

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,
Recebeu (...) esse achincalhamento do progresso
Que o anulava na crítica da História”.

Em crônica no Correio da Manhã, Drummond, já na idade das poucas ilusões, e sem pretensões maiores, atribui ao leitor “descobrir e usar suas razões de viver. Suas razões e não as que lhe sejam inculcadas como exemplares”. Nesse sentido, mais adiante, ele confessa o soco recebido no estômago ao primeiro contato com a poesia de Augusto. Não o da terminologia cientifica a bater forte nas teclas musicais. Mas a do visionário de “Numa Forja” ou da aguda consciência social de “O lázaro da pátria” e “Os doentes”, vindo por tabela, agora, pelo telefone de Martinho.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

Um ensaio de pesquisa social do mestre Carlos Alberto Azevedo (Os reinventores do cotidiano: feirantes & fregueses do Mercado Central -...

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Um ensaio de pesquisa social do mestre Carlos Alberto Azevedo (Os reinventores do cotidiano: feirantes & fregueses do Mercado Central - 2020) logo de entrada levou-me a recordar o primeiro contato com a novidade do supermercado. Até então, a feira, os mercados públicos, adoçavam a divisão de classes sociais nas suas fontes primárias de abastecimento. Funcionava para quem enchia o balaio e para quem o levava.

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Já vivíamos os anos 1970, se posso precisar, quando me vi de cara com uma mercearia sem balcão, a mercadoria se despachando confiada aos escrúpulos do freguês. E achei um barato. Até duvidei, como o fizera antes, na velha A União, ouvindo Dulcídio Moreira contar que na Suíça o leitor apanhava o jornal, ele mesmo se despachava e se dava o troco, se fosse o caso. Menino que passara a mão nas moedas do pai, cubei por baixo, dei desconto nessa prosa do jornalista que fora marujo viajado e lido, de excelentes e cobiçados textos exclusivos do “Estadão”, de que era correspondente.

Num contraste, logo às primeiras linhas revivo a experiência alvissareira que senti ao entrar no primeiro Comprebem, na 1817, surpreso com um comportamento de gente adiantada, coisa de cinema ou de ouvir dizer. Longe de imaginar, com o passar do tempo, o exílio que a relação direta com o mundo disponibilizado da mercadoria haveria de me reservar.

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Carlos Alberto Azevedo aborda com adesão de pesquisador social (e creio mesmo que como freguês de feira) a sobrevivência das relações mais que sociais, humanas, que se cruzam através das compras nos mercados públicos. Não aborda apenas com a sua experiência, que seria o bastante, mas com referências de outros mundos, por onde se vê que a nossa feira ou mercado público, como de qualquer cidade brasileira ou estrangeira, continua aproximando as pessoas, qual troca de hormônios que guia as formigas, favorecendo a comunicação e a sociabilidade. Funciona a confiança dos que compram nos que vendem.

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Diz um autor citado por Azevedo que há gente que vai ao mercado mais para encontrar o conhecido que a mercadoria. Antes da peste que parece não terminar, um dos Trócollis ia diariamente à Torre, ao seu tamborete, apenas para manter nos olhos o colírio das pessoas. Nau, meu amigo Nau, do antigo Paraiban, tinha lá seu ponto. Eu também tinha os meus tamboretes, de preferência nas bancas de bicho, de mais preferência ainda no palpite dos olhos de Lindalva, que as faces de hoje começam a encobrir.

É pena entrar num tema destes, seriamente estudado por um paraibano que valoriza a nossa identidade cultural, e terminar trocando em miúdos, dando razão a Agripino Grieco, que via no cronista um nadador de piscina. Mais que sério, oportuníssimo, por poder capturar a boa vontade do prefeito a ser aplicada no asseio e organização disciplinada dos nossos mercados, sobretudo o do Bairro dos Estados, degradado em seu projeto original do tempo de Dorgival Terceiro Neto.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

Voz sumida, aquele murmúrio de palavras indistintas. Com a concha da mão imprenso o ouvido ao fone. Quem... por favor? O ciciar ainda não d...

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Voz sumida, aquele murmúrio de palavras indistintas. Com a concha da mão imprenso o ouvido ao fone. Quem... por favor? O ciciar ainda não diz se é de gente ou do vento. Melhora um pouco, é de gente mulher, sim. A impaciência relaxa para uma escuta mais calma, até fagueira. Os que chegam a essa distância de vida compreendem.

Foi dose forte de leitura e de influências no juízo de um adolescente bem nascido, mas de sensibilidade francamente exposta ao chamamento c...

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Foi dose forte de leitura e de influências no juízo de um adolescente bem nascido, mas de sensibilidade francamente exposta ao chamamento cultural e político de povos e de novas experiências libertárias.

Ausente das ruas desde o início de março, quando se deu a posse do professor Milton Marques na Academia, e como tudo hoje corre mais que d...

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Ausente das ruas desde o início de março, quando se deu a posse do professor Milton Marques na Academia, e como tudo hoje corre mais que depressa, não faço ideia, neste dia da cidade, como anda o projeto da Prefeitura para o rio Sanhauá. Torcia por ele sem conhecer os detalhes. Mas como sempre desejei refazer o caminho que foi a rota, sem alternativa, da navegação da história, do comércio, do rei e dos primeiros presidentes republicanos que para aqui se botavam, acompanhei ansioso o andamento dessa reincorporação do Sanhauá à paisagem útil e viva da cidade.

Agro é tech, agro é pop, agro é tudo — é a marcação forte e enérgica das tônicas a nos encher os olhos e o ânimo com a vastidão certinha e ...

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Agro é tech, agro é pop, agro é tudo — é a marcação forte e enérgica das tônicas a nos encher os olhos e o ânimo com a vastidão certinha e alinhada dos campos da agricultura de primeiro mundo cultivada nas planuras do Brasil abaixo da Amazônia.

Os 100 anos de Celso Furtado, lembrados com edição especial do Correio das Artes e anúncio de um conjunto de obras de perfil memorialista e...

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Os 100 anos de Celso Furtado, lembrados com edição especial do Correio das Artes e anúncio de um conjunto de obras de perfil memorialista e mais páginas e excertos do seu pensamento científico, levaram-me a rever umas poucas linhas grifadas de antigas leituras.

Houve um tempo na A União em que só se falava em Costeira . Poucos sabiam quem era o diretor ou gerente que, com raras exceções, se entroni...

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Houve um tempo na A União em que só se falava em Costeira. Poucos sabiam quem era o diretor ou gerente que, com raras exceções, se entronizavam em seus gabinetes. Costeira era o nome que o povo sabia, o nome a pronto e a hora para os gráficos, os revisores, redatores e mais funcionários; o nome a quem as mães de Jaguaribe e da Torre pediam para os filhos, a quem o governador ou os secretários chamavam nas urgências, a quem a torcida do antigo Esporte Clube União gritava por gol ou por bons jogadores.

Era uma lançadeira de atendimentos. Atendia o telefone para ir buscar o decreto de última hora, suspendia o almoço no birô de trabalho para mandar parar o Diário Oficial que trocara os nomeados, corria a Recife para trazer o papel ou o chumbo que faltavam, subia e descia a escadinha inglesa desde a zero hora da segunda até zero hora do domingo, quando dormia e só acordava para o jogo do "União".
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Jogo no qual os onze eram ele, fazendo da arquibancada o que todo o time não conseguia em campo.

Sentava nas mesas de bar, chegava mesmo a pagar a conta, e não bebia. Era capaz de descer à rua, correr ao fiteiro, levar a carteira de cigarro que faltava para desempenar a redação, e nunca pôs um cigarro no bico. A família era quem ia vê-lo na A União, ele não tinha tempo.

Quando entrei no jornal ele era revisor, um dos Chefes da Revisão. Coordenou o teste de três ou quatro meses a que fomos submetidos, trabalhando todas as noites, eu, José Barbosa de Souza Lima, Oswaldo Duda Ferreira, Carlos Augusto de Carvalho, Marcílio Coutinho, Juarez Morais e alguns outros. Falava direto com o diretor, o Dr. Juarez Batista, o que era um grande privilégio. Começamos a conhecê-lo nessas madrugadas de leitura alta movida a goles de leite e pão seco, aprendendo que trabalho não mata e, se for feito com amor, também não cansa.

Nunca o Estado pôde tirar tanto de uma pessoa. Tirou-lhe as noites, as horas da família, as ambições pelo patrimônio particular, pela boa casa, o bom automóvel o duplo financiamento do Ipep, essas coisas tão comuns hoje aos altos e bons funcionários. Não teve tempo, sequer, de arranjar um bom ordenado, uma vaga de agente fiscal, um salário que pudesse abrir os olhos austeros e honestos do governo do PMDB, um partido que, desde as suas nascentes (o velho PSD) tem se caracterizado pela ojeriza ao empreguismo, ao apadrinhamento, às sinecuras... A comissão de acumulação não vai encontrar dupla matrícula de Manoel Costeira; o Dr. Nuto não teve a menor dificuldade em pagar-lhe a aposentadoria e menos ainda em pagar, a partir deste mês de maio triste, a pensão da viúva.

Há mais de vinte anos, na mudança de Pedro Gondim para João Agripino, Costeira já tinha recebido o prêmio pela sua dedicação, pela alma que ele emprestou ao velho edifício de A UNIÃO. Tiraram-lhe das funções a pretexto de não ser técnico, de não ter curso, e de se meter com tudo, desde a produção do jornal, do boletim, do decreto, do livro, à produção do bom nome do Estado, que exportava seus livros, seu "Correio das Artes", impressos no rojão de Costeira, a todas as praças culturais da Região. O nome era do governo, de Pedro, da Paraíba, mas a força era de Costeira, que esta semana subiu ao céu, ou melhor, ao edifício centenário que Ernani Sátyro derrubou mas que ficou como morada fantástica dos que merecem ser lembrados para sempre.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

Crônica originalmente publicada no jornal A União, em 10 de maio de 1991, escrita em homenagem a Manoel Costeira, gerente do centenário periódico paraibano durante o governo de Pedro Gondim, 3 dias após o seu falecimento.

Quem fala? – insisti. Só disse que era de Matinhas, ouvi bem. Tento lembrar alguma amizade. Na minha memória, Matinhas do coronel Eufrásio ...

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Quem fala? – insisti. Só disse que era de Matinhas, ouvi bem. Tento lembrar alguma amizade. Na minha memória, Matinhas do coronel Eufrásio das histórias de doutor Ramos, pai de Teócrito e Wills Leal. Matinhas de Artur Moura, desembargador saudoso que elevou sua terra, antigo distrito de Alagoa Nova, a culminâncias de civilidade e educação que, nos tempos atuais, um Almeida Prado de São Paulo ou de Santos está longe de alcançar, como se viu na cena de indigência moral de um desembargador no trato com a autoridade do guarda municipal. O guarda saindo com muito mais autoridade.

Vou-me embora para Ouro Velho, não é que lá tenha rei, nem mulher que já não quero, nem cama que escolherei. Vou-me embora para Ouro Velho!...

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Vou-me embora para Ouro Velho, não é que lá tenha rei, nem mulher que já não quero, nem cama que escolherei. Vou-me embora para Ouro Velho!... É que até o meado da semana (já não se sabe hoje) Ouro Velho vacilava entre as quatro das nossas 223 cidades onde os venenos letais da globalização não haviam ainda soprado.

O Esial era um edifício de dois andares que olhava para a Praça da Bandeira de Campina Grande e que não sei se ainda está de pé. Eu descia ...

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O Esial era um edifício de dois andares que olhava para a Praça da Bandeira de Campina Grande e que não sei se ainda está de pé. Eu descia por uma das ladeiras do Róger, e de um alto-falante que propagava um açougue do bairro apareceu-me o velho edifício. Não ali na rua, mas no meu juízo.
Diziam, em meu começo de vida, que eu não tinha o juízo certo, um aruá de estrada. Talvez tivessem razão. Eu via coisas que os grandes não viam.