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O retrato, um instantâneo em preto e branco surrupiado de algum arquivo de jornal, cai da minha pasta de guardados. O que pretende Zé Ra...

jornalismo sindicalismo
O retrato, um instantâneo em preto e branco surrupiado de algum arquivo de jornal, cai da minha pasta de guardados.

O que pretende Zé Ramalho dizer-me?

Está aqui do jeito que o conheci, suponho que nos seus cinquenta anos. Terno branco, gravata borboleta, valorizados pelo rosto duro, menos cheio e de linhas mais incisivas que o do filho Arael. Os óculos de lentes brancas acentuando ainda mais o ar de dureza.

Desde muito, os jornais para mim nunca foram apenas do dia. Sempre encontro neles o que guardar e, quando morei em casa própria com seu a...

epitacio soares jornalismo cronica paraibana
Desde muito, os jornais para mim nunca foram apenas do dia. Sempre encontro neles o que guardar e, quando morei em casa própria com seu altivo pé-direito, seu jardim e seu quintal, mantive lá atrás minha cafua para os jornais e outros alimentos perecíveis sem lugar na geladeira.

Sábado passado, os diretores da Fundação Cultural de Joâo Pessoa – FUNJOPE, com assinatura do Sr. Prefeito, me convocaram ao Pavilhão do Ch...

gonzaga rodrigues homenagem funjope
Sábado passado, os diretores da Fundação Cultural de Joâo Pessoa – FUNJOPE, com assinatura do Sr. Prefeito, me convocaram ao Pavilhão do Chá para fazer-me entrega de registro da instituição “por sua permanente contribuição à cultura da cidade”. Ao mesmo tempo me presentearam com um retrato em acrílica, pintado por Davi Queiroz, de ar e cores muito vivas e mesmo generosas com “o poeta” (assim me trata) que já não tem muito a ver, em carnes, com o ancião que se apresentava.

Reaberta a biblioteca, dobro a última curva dos vagares pela praça coberta do Espaço Cultural e desço a rampa que nos introduz no univ...

biblioteca juarez farias jornalismo revisao
Reaberta a biblioteca, dobro a última curva dos vagares pela praça coberta do Espaço Cultural e desço a rampa que nos introduz no universo sempre insuperável dos livros.

De cara, na entrada, a inscrição com o nome de Juarez da Gama Batista. Merecidíssima. Poucos se dedicaram, se serviram e se deram tanto ao livro. E fora D. Lygia, a esposa, e as filhas e filhos, ninguém dos ainda vivos testemunha mais remotamente essa paixão do que o caboclo que ele veio conhecer num incidente de revisão.

Uma revista “Visão” velha de 1978, num quartinho que poderíamos chamar de hemeroteca da Academia. Nada se perde naquela Casa! Pena que se...

guarany marques viana cagepa engenharia amizade
Uma revista “Visão” velha de 1978, num quartinho que poderíamos chamar de hemeroteca da Academia. Nada se perde naquela Casa! Pena que seus letrados sócios não façam de suas salas e demais cômodos de feição sempre familiar o que os saudosos sócios do Cabo Branco faziam da sua sede central.

Faz dias, o confrade José Edmilson Rodrigues, do Instituto Histórico de Campina Grande, pautou-me depoimento sobre Félix Araújo , cujo cen...

felix araujo historia campina grande luta estudantil
Faz dias, o confrade José Edmilson Rodrigues, do Instituto Histórico de Campina Grande, pautou-me depoimento sobre Félix Araújo, cujo centenário de nascimento vai ser lembrado em publicação que Edmilson coordena. Numa distinção de conterrâneo adotivo (a Câmara me adotou campinense) ele se lembrou do meu testemunho.

Tento apurar a atenção, sobretudo as ouças, no que está dizendo o comentarista acerca das razões ou interesses de fundo e de impérios de...

Tento apurar a atenção, sobretudo as ouças, no que está dizendo o comentarista acerca das razões ou interesses de fundo e de impérios dessa invasão russa para deter o alinhamento da vizinha Ucrânia aos países da OTAN.

Estou nessa, a luz do entardecer já me aconselhando a acender a da Energisa, quando sou subitamente arremessado de mim e, por pouco, da cadeira em que me achava, agredido pela sonora violência de uma batida aguda de ferro ou de bigorna a um metro de minha janela. Janela alta de edifício urbano sem nenhuma mata mais próxima que justifique a visita.

Rudimar Cipriani
Respiro, recobro-me, e não acredito no que vejo: a um metro do meu susto a remota e longínqua araponga do antigo vizinho do Tambiá, no mesmo tom esverdeado da cabeça até o gogó, o resto das vestes de um branco azulado, aquele mesmo olhinho cintilante e duro, e de bico aberto como se tivesse pousado por cansaço, nem tanto dos quilômetros voados como dos cinquenta e mais anos de distância no tempo.

Numa puxada atrás de casa, seu Terto mantinha engaiolado esse bigorneiro então popularíssimo, presente em terraços e quintais de dezenas de amadores. “Cantor extraordinário das matas litorâneas” na bela descrição de Heretiano Zenaide, em seu precioso livro “Aves da Paraíba” . “Aí (nas matas) tem ele sua tenda e tange o ferro sobre o ferro, na hora solene do entardecer”.

É o famoso ferreiro que andou pelo meu telhado de infância rural. Presença incomum na região brejeira, e por isso marcante, inesquecível aos ouvidos de quem só tinha a passarada nativa como orquestra, dispersa durante o dia, mas invisivelmente reunida, completa e bem regida para receber ou se despedir, em cantata, do sol. Quando ouvi a “Fuga de Carlos Romero ou de Bach vagando na API da minha chegada aqui, só me lembrei da minha aérea passarada.

Mike & Chris
No tempo de curumim rural isto não chegava a ser lírico ou poético por ser a rotina. Como é rotina, sem muito encanto, a voz estridulada do bem-te-vi nas manhãs do meu arredor de hoje. Sobretudo para quem se deteve espantado, anos atrás, só para assistir, ao sol da manhã, a tirânica ferocidade desse pássaro para fazer de uma feia e mansa lagartixa a sua primeira refeição. Incrível como dois bichos de aparente insignificância protagonizam crueza tão selvagem!

Mexo-me, o ferreiro ou araponga dá-se por satisfeito, retoma seu voo, e saio atrás do velho Heretiano. Só a distância me consente hoje a liberdade desse tratamento. Menino, o que me chagava por ouvir dizer, trazida pelos ventos vizinhos de Alagoa Grande, era a fama do usineiro. Crescido, já colega de ofício do seu filho Hélio, avistava-o de barbas veneráveis em seu terraço ali pela Maximiano. Mas me liguei a ele, a sua memória, à sua verdadeira grandeza, quando li o “Meu herbário cariri” e, logo depois, “Aves da Paraíba”, obras raras do relicário natural e cultural da Paraíba e do Nordeste. Pena que me tenham levado ou não tenham devolvido o “Meu Herbário Cariri”. Se voltassem os tempos, eu o faria editar pela “Biblioteca Paraibana” de saudosa memória.

“A partir da quinta-feira suprimia-se o doce, a rapadura, e não se comia nada fora das refeições. Falava-se de pessoas que jejuavam a pão ...

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“A partir da quinta-feira suprimia-se o doce, a rapadura, e não se comia nada fora das refeições. Falava-se de pessoas que jejuavam a pão e água. Todo prazer era proibido. Comer, beber, só para manter a subsistência. Nem banho se tomava, era regalo.

Para quem leva a sério ou, pelo menos, vê sentido em saber onde pisa, a qualidade de seu chão e do seu povo, suas potencialidades naturais...

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Para quem leva a sério ou, pelo menos, vê sentido em saber onde pisa, a qualidade de seu chão e do seu povo, suas potencialidades naturais e históricas, nada como se deter, uma vez ou outra, nas Notas sobre a Paraíba de Irineu Joffily. Não há melhor companhia, sobretudo para quem não se sente ou nunca se sentiu muito firme e seguro no presente.

É nas quartas-feiras, a mais fresca de todas, tanto pelo ar que recebe da compacta reserva florestal da cidade, quanto pela frescura mesma...

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É nas quartas-feiras, a mais fresca de todas, tanto pelo ar que recebe da compacta reserva florestal da cidade, quanto pela frescura mesma das frutas e hortaliças. Pena que os últimos melhoramentos não tenham levado em conta o espacejamento mais respirável e higiênico. Ficou apertado e antiestético.

Que boa parte dos bolsonaristas não se toque ou não tenha consciência do que aconteceu no regime que o chefão voltou a exaltar, nesse 31 ...

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Que boa parte dos bolsonaristas não se toque ou não tenha consciência do que aconteceu no regime que o chefão voltou a exaltar, nesse 31 de março, nada mais previsível. Além de haver de tudo, nesse mundo, há de se levar em conta que essa grossa parcela eleitoral, em sua maioria, ou não havia nascido ou estava saindo dos cueiros. O golpe se distancia dela há exatos 58 anos. E uma coisa é ouvir dizer ou ler por cima, outra bem diferente é sentir na pele, na carne, ás vezes até em lugares sobre os quais não se pode sentar ou tocar com rudeza.

É espantosa a força ou a permanente novidade de certos livros. Li “O vermelho e o negro”, de Stendhal, na idade exata do seu protagoni...

flamboyant sombra leitura

É espantosa a força ou a permanente novidade de certos livros.

Li “O vermelho e o negro”, de Stendhal, na idade exata do seu protagonista. Ele no 1830, a viver febrilmente o longínquo 18 Brumário do jovem general Bonaparte; eu aqui no bairro da Torre, 120 anos depois e na sua mesma idade, querendo atalhar seus passos, pois antevia, afundado na leitura, que pelo tipo que se desenhava, pelo seu bonapartismo, iria, como se impusera, colar o rosto e beijar a mão da patroa, a nobre e belíssima sra. de Renal, mulher do prefeito, em cuja casa havia pouco o acolhera como preceptor das crianças. O cálculo, o ímpeto,

São sempre tempestuosas as águas de março. Abrindo a crônica de 1817, que passa de um volume a outro das “Notas”, o guardião-mor da nossa ...

historia revolucao pernambucana 1817
São sempre tempestuosas as águas de março. Abrindo a crônica de 1817, que passa de um volume a outro das “Notas”, o guardião-mor da nossa história, o historiador Irineu Pinto, teve a lembrança de falar dos dias chuvosos que encharcavam os caminhos de cana chapinhados madrugada a dentro pelos revolucionários de Pilar e Itabaiana, os condutores do movimento revoltoso contra o absolutismo de Portugal e pela república do Nordeste.

Dos tios, embora bem mais velho, Manuel era o que me parecia mais do meu tamanho. Não de tope, ele já era bem mais alto, mas de meninice. ...

tempo relogio nostalgia idade velhice
Dos tios, embora bem mais velho, Manuel era o que me parecia mais do meu tamanho. Não de tope, ele já era bem mais alto, mas de meninice.

Na manhã em que o achei assim, ele entrou lá em casa no exato instante em que o relógio de parede, o mais rico ornamento da sala, batia suas oito ou nove horas bem batidas. Nem deu tempo a que fechasse a porta de baixo. Ali mesmo, uma mão na porta e a outra no queixo, plantou-se ele transportado a cada enleio que as batidas ressoavam.

Dimas Batista de Toledo era (para não deixar em desuso um velho jargão do economês) um classe-média-baixa originário do serviço público. A...

jornal linotipo contabilidade
Dimas Batista de Toledo era (para não deixar em desuso um velho jargão do economês) um classe-média-baixa originário do serviço público. Aposentado, complementava o orçamento com alguns trabalhos contábeis.

Estabelecemos as nossas paralelas a partir de A União de Juarez Batista com um irmão do dr. Osias, Odemar Nacre Gomes, na gerência. Eu me firmando na redação e Dimas do outro lado, na parte contábil.

Apego-me facilmente aos lugares. Não tão facilmente assim. Levantei a vista, numa tarde dessas, e me defrontei com o cadáver da linotipo...

antonio vicente filho reporter paraiba
Apego-me facilmente aos lugares. Não tão facilmente assim. Levantei a vista, numa tarde dessas, e me defrontei com o cadáver da linotipo que o Correio da Paraíba, no auge da concorrência, colocara na sacada do jornal. E num instante se embaralham cenas, expressões humanas, a última, de Antônio Vicente, que deixou sua vaga entre nós em fevereiro. Fazia anos que eu não o via.

Temos muito a dizer dessa coletânea de perfis dirigidos à história literária da Paraíba. Simplesmente dizer, sem consequência crítica ...

ligas camponesas comunismo literatura paraibana
Temos muito a dizer dessa coletânea de perfis dirigidos à história literária da Paraíba. Simplesmente dizer, sem consequência crítica e sem ir muito longe do estado de espírito que me abriu a natureza para esse gênero de coisas:

“Para onde fores, pai, para onde fores Irei também trilhando as mesmas ruas Tu para amenizar as dores tuas Eu para amenizar as minhas dores”.

Nas manhãs de caminhadas, até pouco antes da pandemia, não conto as vezes que entrava no Mercado, munia-me de uns bons punhados de milho o...

poesia florbela espanca rustica
Nas manhãs de caminhadas, até pouco antes da pandemia, não conto as vezes que entrava no Mercado, munia-me de uns bons punhados de milho ou xerém grosso, e prosseguindo até a praça, sob o afago das árvores, fazia vir a mim a primeira nuvem de pombos que, batendo as asas, baixava a meu redor mal despachava a primeira remessa.

Têm sido mansos nossos rios desde que ingressamos na história. O Jaguaribe, apesar de pequeno, é que costuma lavar as pontes desde que exi...

rios paraiba carencia pobreza
Têm sido mansos nossos rios desde que ingressamos na história. O Jaguaribe, apesar de pequeno, é que costuma lavar as pontes desde que existem pontes, botando água a meio pneu mesmo em várzea larga como a que se abre entre o Altiplano e a floresta já meio rala de Jaguaribe.

Do Sanhauá, desde que vivo aqui, não há queixa de suas águas subirem além dos batentes da praça Álvaro Machado. Uma ou duas vezes, salvo engano, veio lamber a entrada da Alfândega. Mas o povo que mora à sua margem se opõe a qualquer projeto que o retire de lá. Então é rio que não afoga.

Equivocam-se os que relegam a validade dos mercados públicos, os que entendem que aqueles espeços estão superados. Engano, eles apenas não...

Equivocam-se os que relegam a validade dos mercados públicos, os que entendem que aqueles espeços estão superados. Engano, eles apenas não são administrados com o respeito devido a sua histórica e fiel clientela.

Que clientela? A que não vai onde não pode regatear. Onde os preços só privilegiam, unilateralmente, os donos da maquininha de remarcação, hoje já em voga diária, querendo lembrar os tempos de Sarney, depois do fracasso de seu plano.