Muito já se discutiu e ainda se discute, sobre a inspiração. Para uns, ela existe e é de origem divina. Para outros, o trabalho inte...

''... que acende a mente e o coração...''

arte musas poesia inspiracao
Muito já se discutiu e ainda se discute, sobre a inspiração. Para uns, ela existe e é de origem divina. Para outros, o trabalho intelectual seria suficiente para negá-la ou, com certa condescendência, para quantificá-la.

A sua origem divina liga-se, pelo menos, a duas fontes, Hesíodo e Platão. Na Teogonia, Hesíodo narra o exato momento em que o pobre pastor, cuidando de suas ovelhas, tendo nas mãos o seu tosco cajado,
arte musas poesia inspiracao
As Vozes ▪ Arte: Gustave Moreau, 1880 ▪ Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, Madri
e preocupado com o essencial para viver, recebe a visita das Musas, que, com um sopro divino em sua boca infla os seus pulmões e o transforma em poeta, um ser capaz de conhecer o passado, o presente e o futuro, além de saber dizer mentiras semelhantes à verdade. Não é apenas a primeira vez que se fala de inspiração, como o sopro divino para dentro do humano, é, sobretudo, a primeira construção de um dos elementos essenciais à ficção, a verossimilhança.

As Musas, como divindades do conhecimento, da memória e das artes, também transformam o rústico cajado, envelhecido e seco, de que nada mais é possível brotar, em um ramo vicejante de loureiro, para assegurar ao novel poeta a proteção do deus Apolo, o citaredo, inspirador da música e da poesia.

Para Platão, na conversa de Sócrates com o poeta Íon, no diálogo do mesmo nome, o que o poeta insiste em chamar de conhecimento poético é, na realidade, uma dádiva dos deuses, um estado de mania (μανία), esse delírio que leva à criação, à poíesis. Inicialmente, Íon insiste em dizer que detém um conhecimento;
arte musas poesia inspiracao
O Beijo da Musa ▪ Arte: Félix Nicolas Frillié, 1857 ▪ Musee Granet, Aix-en-Provence, França
Sócrates o faz ver que se ele não sabe descrever a técnica da criação, ele não está no campo do conhecimento racional, mas do divino, que toma conta da racionalidade, por intermédio da já citada mania. Íon acaba por se convencer, preferindo ser um agraciado pelos deuses a ser um mentiroso, tendo em vista que o conhecimento, episteme (ἐπιστήμη), necessita de uma arte (técnica, no sentido que lhe dá o grego, τέχνη), para ser compreendido e passado adiante.

Se os românticos defendiam a inspiração, os realistas e modernistas defendiam que o trabalho intelectual suplanta a ideia de uma intervenção divina no processo criativo. Alguns, cheios de empáfia, chegaram, inclusive, a quantificar, de modo condescendente o teor da inspiração – dez por cento –, cabendo ao esforço intelectual os outros noventa por cento. São modos de ver. A discussão não terá fim, chegando às raias da polêmica, com cada qual defendendo a sua concepção do que acontece na criação artística.

arte musas poesia inspiracao
A inspiração de Dante ▪ Arte: Gustave Pope, S.XIX ▪ Col. particular
Sendo da área da Literatura, acompanhei de perto as discussões, inclusive as teóricas, algumas muito complicadas, enveredando para um teoricismo estéril. Sei que o artista não tem a última palavra sobre o que cria, porque, se assim o fosse, a sua obra estaria morta. Muitas vezes, contudo, procuro escutar o poeta ou narrador a respeito não de sua obra, mas do processo criativo. Juro de pés juntos e mãos postas, que nesses anos todos não encontrei nada mais perfeito sobre a criação do que o samba “O poder da criação”, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira. Um primor de concepção. Diria mesmo que exata e perfeita. Veja-se a letra (conforme foi apresentada, sem pontuação):

Não, ninguém faz samba só porque prefere Força nenhuma no mundo interfere Sobre o poder da criação Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito Nem se refugiar em lugar mais bonito Em busca da inspiração Não, ela é uma luz que chega de repente Com a rapidez de uma estrela cadente Que acende a mente e o coração É, faz pensar Que existe uma força maior que nos guia Que está no ar Bem no meio da noite ou no claro do dia Chega a nos angustiar E o poeta se deixa levar por essa magia E um verso vem vindo e vem vindo uma melodia E o povo começa a cantar La, lalaiá, laiá, lalaiá
O poder da criação ▪ João Nogueira / P. César Pinheiro ▪ YT Celso Química
Depois de tanto ouvir o samba, na voz ritmada do saudoso João Nogueira, a letra me parece autoexplicativa. De qualquer forma, atrevo-me a dizer alguma coisa sobre ela, na tentativa de esclarecer alguns pontos. Tendo observado que o poema tem uma estrutura perfeita, a qual, com certeza, acredito não ter sido fruto de um delineamento prévio, mas de uma conjunção exitosa entre forma e essência, arrisco-me a apresentá-la da seguinte maneira:

1O que não é a inspiração (querer ou vontade, sem interferência das forças do mundo)
2Como o poeta não deve ser ou o que não deve fazer (infeliz, aflito; fugir para lugar bonito)
3O que é a inspiração (luz que acende a mente e o coração)
4Como ela se apresenta (faz pensar em uma força maior)
5Onde se apresenta (no ar, na noite e no dia)
6Como ela age sobre o poeta (angústia, que impulsiona)
7Processo de composição (entrega do poeta à magia da criação; aceitação dos versos e da melodia)
8O resultado (povo cantando)
Por que considero a letra perfeita (nem falo no ritmo gostoso da música...)? Porque para definir o que é criação, o poeta começa por definir os limites do que ela não é: o processo criativo não é apenas uma escolha do intelecto, nem a materialidade do mundo tem força suficiente para torná-lo arte, e arte com qualidade. Se a criação artística busca a estesia, ela não depende
arte musas poesia inspiracao
A Musa ▪ Arte: Jean-Baptiste-Camille Corot, 1865 ▪ The Met, NY
de estado d’alma ou de ambiente propício para o seu início. Só para dar um exemplo, Cecília Meireles já havia se pronunciado em relação a isso: “Não sou alegre, nem sou triste, sou poeta”.

Num segundo momento, o poeta passa a definir o que é a criação e como ela pode surgir, e em que circunstância. A metáfora da inspiração como luz é precisa. Tendo afastado da inspiração a noção de materialidade, o poeta a define como uma luz, o lampejo criativo, semelhante ao sopro criador das Musas. E como lampejo é centelha que vem sem aviso, acendendo “a mente e o coração”. Nada como o poeta para dizer que o racional (a mente, no sentido do intelecto) precisa do imaterial (o coração, no sentido da emoção), pulsando e bombeando a energia necessária para a criação artística. Essa energia, que começa como luz, lampejo ou centelha, não escolhe tempo ou local para se exercer, é força maior do que o intelecto, está no ar; é luz que ajuda o poeta ver “no meio da noite”, a clareza, e “no claro do dia”, a escuridão em que se esconde a criação.

arte musas poesia inspiracao
Retrato da Inspiração ▪ Arte: Jean-Honoré Fragonard, 1769 ▪ Louvre, Paris
É o flagrante que proporciona a criação que angustia: ou o poeta o apreende ou o perde. É uma magia. É aí que se dá o encontro com Platão, no Íon: criar é um momento mágico e único, que depende da habilidade do artista em desenvolver a luz recebida e torná-la obra de arte. É a mania enviada pelos deuses àqueles escolhidos, que devem se dispor a recebê-la, do contrário a perderão.

Decidido a receber o que lhe foi dado repentinamente, “com a rapidez de uma estrela cadente”, a luz comanda o processo, a escrita comanda o poeta – não é o poeta que comanda a escrita – e os versos vêm, a melodia vem “e o povo começa a cantar”. Perfeito. Para aquele que não sabe reconhecer a centelha criativa, a magia se desfaz e o efeito é pífio, apesar de ter-se feito um trabalho hercúleo.

Força imaterial, fora deste mundo, a inspiração não é uma escolha unilateral, que parte do poeta. Como centelha intempestiva, ela escolhe o poeta; é inútil tentar buscá-la, tanto quanto é inútil ficar “uma hora tentando escrever um verso” Drummond sabia o que estava dizendo...). A busca é dela, da inspiração,
arte musas poesia inspiracao
Inspiração ▪ Arte: William-Adolphe Bouguereau, 1898 ▪ Col. particular
sobre o criador, que deve apreendê-la no intervalo mínimo de sua aparição. Infelizmente, não somos nós, mas ela é que “acende a mente e o coração”.

Essa concepção de criação, parece-me acabar com a ideia do poeta laureado, que deixa a sua coroa cair na lama, após pular a poça d’água, como bem o diz Baudelaire, destruindo também o poeta macilento, que se faz de infeliz, mísero e incompreendido ao vestir a persona do poeta maldito.

Por outro lado, se a poesia fosse feita só com palavras, o Dadaísmo, com a sua provocação, teria triunfado. Se fosse feita só com ideias, a racionalidade sairia vitoriosa. A quantos poetas racionais e palavrosos falta a poesia, essa essência inefável, que habita fora do mundo, que aparece tão repentinamente, quanto se vai? Mallarmée precisa ser revisitado na sua resposta a Dégas...

arte musas poesia inspiracao
Stéphane Mallarmé ▪ Arte: Édouard Manet, 1876 ▪ Musée d'Orsay, Paris
Observe-se, finalmente, que não há rebuscamento lexical ou sintático, no poema/samba. Existe uma simplicidade que beira o espontâneo, embora não o seja de todo, cujo produto é um ensinamento dos mais didáticos, sobre a inspiração. Tomando como paradigma o dito “o bom bocado não é para quem o faz, mas para quem o come”, diria que, da mesma forma, a poesia não é para o poeta, mas para aqueles que, por ela tocados, abrem-se para recebê-la. No caso do samba, o povo.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas