O artista plástico Flávio Tavares conta causos com a mesma elegância que pinta quadros. Herança do pai, Arnaldo Tavares, médico que ...

No Reino de Flávio

O artista plástico Flávio Tavares conta causos com a mesma elegância que pinta quadros. Herança do pai, Arnaldo Tavares, médico que trocava o bisturi pelo lápis e pincel para moldar no papel a paisagem da alma. Onde chegava, atraía as atenções pela elegância da narrativa, sempre com uma pitada de humor.

Na madrugada de 23 para 24 de agosto de 1954 eu me achava de rádio ligado na Mayrink Veiga, à janela de fundos do velho sobrado onde fu...

O lírico Germano Romero

Na madrugada de 23 para 24 de agosto de 1954 eu me achava de rádio ligado na Mayrink Veiga, à janela de fundos do velho sobrado onde funcionava o jornal O NORTE, a aragem da noite cheirando a velhos e lodosos telhados, e a me envolver num adágio entremeado na 3ª Sinfonia de Brahms. Não aprendi a ler música, li pouco dos seus entendidos, mas lá por dentro, e por trilhos que me serão sempre misteriosos,

Ela é leve como as plumas que não tem, e seus olhos veem além dos nossos, através das superfícies que escondem as cores. Quem sabe, a m...

A Fada das Cores

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Ela é leve como as plumas que não tem, e seus olhos veem além dos nossos, através das superfícies que escondem as cores. Quem sabe, a magia que chegou às suas mãos, na tarefa de bordar o enxoval da irmã caçula, todo dia, às dezessete horas... uma cadeira na calçada, ao lado da Catedral, certamente diante do pôr do sol e seus matizes! Cumpriu essa missão com habilidade e carinho. Na escolha das linhas, o mistério das tonalidades encantou a Fada. Quando estudava na Bica (Parque Arruda Câmara), conduzia a pequena, para que a mãe se dedicasse mais ao trabalho. Entre livros e cuidados, folhas em branco e grafite na mão, surgiam árvores, retas, curvas, entrelaçadas, folhagens, horizontes percebidos ente a terra e o céu... formas perfeitas para rivalizar com a natureza.

A geografia tem sido injusta e arredia com Gonzaguinha. A Paraíba, neste sofrido Nordeste, rarissimamente tem os seus talentos reveren...

Gonzaga Rodrigues e o avesso da geografia

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A geografia tem sido injusta e arredia com Gonzaguinha. A Paraíba, neste sofrido Nordeste, rarissimamente tem os seus talentos reverenciados. Triste terra onde ruge o vento nordeste. Sempre admiti que ninguém nasce na Paraíba impunemente. A história do Neguinho Gonzaga é a história de um sobrevivente que escapou da cilada da mediocridade que poderia ter lhe imposto o castigo de ser apenas um barnabé do massacrado e inerte do funcionalismo público. Refugiou-se como um apátrida na sua superior Inteligência e domínio das letras, e, passo a passo, dor a dor com sua humildade e grandeza, teve reconhecida por muito poucos a sua extremada eloquência literária. Tornou-se um arauto, e competente espião da alma humana da sociedade.

“Vide 'o mare quant'è bello!  spira tanta sentimento...  Comme tu, a chi tiene mente,  ca, scetato, 'o faje sunná!” Torn...

Torna a Surriento!

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“Vide 'o mare quant'è bello!  spira tanta sentimento...  Comme tu, a chi tiene mente,  ca, scetato, 'o faje sunná!”
Torna a Surriento

"Era setembro de 2015, voltávamos da Úmbria, onde havíamos estado para conhecer a escritora ítalo-americana Marlena di Blasi. Passamos bons momentos com ela e seu esposo, Fernando, na cidade de Orvieto.

Emplaquei 55. Foram muitos passos na superfície dessa redonda, e já houve algumas mudanças: a orelha cresceu e os sons diminuíram; uma...

De olhos abertos para o que há de vir

Emplaquei 55. Foram muitos passos na superfície dessa redonda, e já houve algumas mudanças: a orelha cresceu e os sons diminuíram; umas quinhentas pintas e manchas apareceram; o cabelo embranqueceu; os olhos pediram óculos e o raciocínio perdeu potência, não passa de jeito nenhum dos 80 km/h. Mas não foram só perdas: ganhei também barriga, rugas, dor no ombro e um pouquinho de descrença na humanidade, mas, como diz Fabiola Lugão,

Eu vi o trem partir lotado de música e passageiros dançantes em seus vagões. O apito pedia para que as linhas paralelas de ferro perman...

Após o trem partir

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Eu vi o trem partir lotado de música e passageiros dançantes em seus vagões. O apito pedia para que as linhas paralelas de ferro permanecessem desimpedidas. E lentamente a serpente mecânica ganhava velocidade e se apequenava na curva adiante. Do ponto de partida, a estação ficou cheia de vazios, a plataforma antes apinhada agora era um espaço adormecido. E, ainda assim, possuía o ar cheio de memórias dos que já partiram para as feiras, as barcas, a vida.

Je ne suis pas prisonnier de ma raison. Arthur Rimbaud ▪ Une saison en enfer I Quem foi que preparou e ofereceu a primeira xí...

[Ab]sinto

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Je ne suis pas prisonnier de ma raison.
Arthur Rimbaud ▪ Une saison en enfer

I

Quem foi que preparou e ofereceu a primeira xícara de chá, aquela de porcelana antiga azul com fundo estrelado, com o líquido verde cheirando a anis?

Eram xícaras desemparelhadas, remanescentes de antigos faustos, sobreviventes aos estragos do tempo. Algumas rachadas e coladas, mas as estrelas ainda estavam todas lá e, aos poucos, começavam a adquirir brilho próprio sob o líquido que, dependendo da luz, também mudava de cor: do verde da cana ao verde do mar.

Na adolescência, tive uma espécie de devoção ao Botafogo do Rio de Janeiro. Era um timaço. Junto com o Santos de Pelé formava a base...

Com Garrincha e Manga, no Paraíba Palace

garrincha manga futebol jornalismo paraibano
Na adolescência, tive uma espécie de devoção ao Botafogo do Rio de Janeiro. Era um timaço. Junto com o Santos de Pelé formava a base da seleção bicampeã do mundo em 58 e 62. Era o time do goleirão Manga, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Amarildo e Zagalo.

Os contemporâneos da gameleira do Róger sabem disso, porque se divertiam gozando da minha cara, nas derrotas (raras, é bem verdade) do time carioca.

Antônio Maria foi cronista, compositor e muitas coisas mais. Suas crônicas, de forte tendência introspectiva, abordam sobretudo a b...

Conversa com Antônio Maria

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Antônio Maria foi cronista, compositor e muitas coisas mais. Suas crônicas, de forte tendência introspectiva, abordam sobretudo a boêmia carioca dos anos anteriores à ditadura. Maria era um gordo melancólico, que vertia a sua tristeza em canções impregnadas de dor de cotovelo e em textos cuja tônica era a solidão.

Saber viver é uma arte. Pensando bem, tudo é arte, até fritar um ovo e fazer o nó da gravata. Tudo é arte. Viver, então, é a arte mai...

Danuza e a arte de saber viver

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Saber viver é uma arte. Pensando bem, tudo é arte, até fritar um ovo e fazer o nó da gravata. Tudo é arte. Viver, então, é a arte maior, porque envolve reter apenas o essencial, dispensando os acessórios, supérfluos pela própria definição. Saber viver, quem domina essa arte difícil que, como o samba, não se aprende na escola? É uma arte misteriosa, distribuída aleatoriamente pelos deuses entre os homens, independentemente de tudo: origem, cultura, riqueza, lugar de nascimento etc etc. É uma verdadeira arte democrática, sopra onde quer, como o vento e o Espírito Santo. Os franceses, mestres de quase tudo, chamam-na de “savoir-vivre”; nós, tupiniquins, a traduzimos literalmente como a arte de saber viver. E é isso mesmo.

Paraíba, 26 de junho de 2022

Pauta Cultural (Ep. 47)

Paraíba, 26 de junho de 2022

Já escrevi sobre o assunto, mas é sempre bom voltar ao passado, sobretudo se esse passado é a infância. Pois é, gostaria de ter dinhe...

Praga

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Já escrevi sobre o assunto, mas é sempre bom voltar ao passado, sobretudo se esse passado é a infância.

Pois é, gostaria de ter dinheiro e coragem para essa volta. Se tivesse, compraria uma passagem para Praga. E iria atrás de um resquício da minha infância.

O menino nascido no ano de 1921, em Carnaíba, pequeno município da região do Pajeú , em Pernambuco, gostava de passarinhos e de ouvir ...

Ele era o Sertão

luiz gonzaga ze dantas baiao musica nordeste
O menino nascido no ano de 1921, em Carnaíba, pequeno município da região do Pajeú, em Pernambuco, gostava de passarinhos e de ouvir histórias do sertão, contadas por Lulu das Braúnas, Salustiano, o velho Clemente e Miguel Vaqueiro, tipos humildes com quem conviveu na sua infância e cuja lembrança ele carregaria pela vida afora. Depois dos primeiros estudos feitos em Carnaíba, o filho de Zeca Dantas, comerciante, fazendeiro e ex-prefeito do município, teria que ir estudar na Capital, para ser “dotô”.

Estou na varanda e Mochi, o gato, acompanha com a cabeça os movimentos dos passarinhos na árvore. Direita, esquerda, alto, baixo. Está...

Nada vai mudar meu mundo

Estou na varanda e Mochi, o gato, acompanha com a cabeça os movimentos dos passarinhos na árvore. Direita, esquerda, alto, baixo. Está hipnotizado, louco de desejo de pegar um pássaro. Cada movimento das aves é um fio que o faz se mexer como se fosse marionete. O silêncio da manhã é rompido por um riso curto. Eu me volto, nada vejo. Estou só. Mas eu a sinto, uma presença invisível que me espia. Ouço o seu respirar na minha nuca. Os lábios se aproximam dos meus ouvidos. Ela sussurra: “Não desdenhe do gato. Você é igual. Quem lhe controla?”.

      LUTO Luto Por um lugar ao sol, Para manter o sorriso no rosto, Para ter voz e vez, Para manter a altivez. Luto Pelo amo...

Como a erva do campo

poesia paraibana volia loureiro
 
 
 
LUTO
Luto Por um lugar ao sol, Para manter o sorriso no rosto, Para ter voz e vez, Para manter a altivez. Luto Pelo amor de cada dia, Pelo pão que sacia A alma... o corpo, Para mudar o que está posto. Luto Pelo direito de ser, Para continuar a sonhar, Para ter sempre algo bom A receber...a dar.

O nome da Rosa é um dos grandes romances da contemporaneidade. As ações se passam numa abadia, na Itália, no século XIV, por volta de ...

A Vida e a Arte

politica religiao nome rosa umberto eco
O nome da Rosa é um dos grandes romances da contemporaneidade. As ações se passam numa abadia, na Itália, no século XIV, por volta de 1323, onde haverá uma discussão sobre heresia, mas também onde ocorrem assassinatos misteriosos. O franciscano Guilherme de Baskerville (Guglielmo da Bascavilla), ali se encontra, envolvido com os dois fatos, acompanhado do noviço beneditino Adso da Melk, o narrador da história.

      DA ESPERA Vivemos um tempo de esperas. Esperamos, a cada dia, que o dia seguinte seja mais promissor. Esperamos ...

Cotidiano II

 
 
 
DA ESPERA
Vivemos um tempo de esperas. Esperamos, a cada dia, que o dia seguinte seja mais promissor. Esperamos que as horas maçantes, vazias, passem logo.

Para Suênia Bandeira “Olha p’ro céu meu amor, vê como ele está lindo...”, me arrepio todo. Começou a tocar o clássico de Luiz Gonz...

Crônicas juninas

festa junina sao joao campina grande
Para Suênia Bandeira

“Olha p’ro céu meu amor, vê como ele está lindo...”, me arrepio todo. Começou a tocar o clássico de Luiz Gonzaga , a máxima expressão de nosso forró e festa de São João. Vejo o carro de som, uma Kombi montada com vários fones em cima e luzes fluorescentes davam o destaque, iluminando o final do arraial que também era alumiado com uma gambiarra de bicos de luz amarelas e o céu enfeitado de bandeirolas, um colorido que emocionava. Cada passo dado, o arrepio se acentuava. O medo de errar a coreografia e a ansiedade de ver a família causava um friozão na barriga. Para um garoto de 13 ou 14 anos, esse espetáculo é marcante. Naquele instante vamos entrar no arraial e exibir o que foi ensaiado desde finalzinho de março.

O pequeno grupo já estava formado e, como sempre, bem atento. Sem interromper o trabalho Seu Macedo, sapateiro dos bons, deu sequência ...

O velho Macedo

nostalgia cronica sapateiro
O pequeno grupo já estava formado e, como sempre, bem atento. Sem interromper o trabalho Seu Macedo, sapateiro dos bons, deu sequência à conversa. Havia acabado de lembrar do que se passara com Antonio, o vizinho, nos idos de 1944. Precisamente, em 6 de junho, o Dia D do ataque aliado às tropas de Hitler, na França ocupada.

Pobre do Herodes ingênuo Pobre do ingênuo Caifás, Pobre do ingênuo Sinédrio, Pobre do ingênuo Anás, Pobre do povo gritando Fazendo esco...

Coisas de que a gente nunca se esquece

via sacra musica popular erudita ilza nogueira
Pobre do Herodes ingênuo Pobre do ingênuo Caifás, Pobre do ingênuo Sinédrio, Pobre do ingênuo Anás, Pobre do povo gritando Fazendo escolha, pensando saber de tudo que faz.

Quando o “Oratório Via–Sacra” terminou, em suas três apresentações na Semana Santa de 2005 (sob o maravilhoso teto da igreja de São Francisco), o público delirava. Na derradeira apresentação, lágrimas em alguns coralistas, lágrimas em alguns músicos, a mesma emoção, certamente, que fez Cida Lobo me dar aquele abraço e dizer-me, com voz embargada, que cada centavo investido ali pelo FIC fora muito bem empregado. Eu mesmo, autor do texto, estava embasbacado. Porque sequer imaginava

Ao longo do tempo o mundo assistiu a degradantes exemplos de como o ser humano pode se humilhar para estar junto ao poder e até event...

Os ''amigos'' do Rei

Ao longo do tempo o mundo assistiu a degradantes exemplos de como o ser humano pode se humilhar para estar junto ao poder e até eventualmente beneficiar-se desse poder.

Já contei aqui sobre a cena do Fula de Bauma, magistralmente retratada no belíssimo filme “Amistad”, do meu colega diretor Spielberg. Em uma cena os escravos vindos da África e que foram capturados a bordo do tal navio em alto mar, estão acorrentados em celas infectas e entra o advogado com suas caras roupas e um enorme chapéu. Um dos escravos pergunta ao outro quem era aquele. Pela importância, o outro responde que deve ser o ‘Fula de Bauma’, referindo-se à mais alta autoridade da região africana de Bauma, cuja função era recolher esterco para adubar o roseiral do Rei, o que lhe dava enorme distinção no reino. Um terceiro cativo pergunta ao que recebera a informação quem era o personagem e ele resume; “- É o catador de bosta”.

Intranscendencia virtuosa – enquanto adjetivação – soa estranhamente, já que a primeira palavra do termo não figura em dicionários, ten...

Na curva da transcendência

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Intranscendencia virtuosa – enquanto adjetivação – soa estranhamente, já que a primeira palavra do termo não figura em dicionários, tendo apenas resultado da canhestra tentativa em definir o que no mundo das Artes chega a ser uma recorrência que pode, tranquilamente ser vista como mundana: a capacidade ou estágio produtivo de alguém de reconhecível talento para o grafite ou para as paletas, mas cuja pratica profissional evidenciou um modo de paralisia conceptual, traduzida num contínuo “repeteco”, “sem graça”, de recursos, sem disposição ou estímulo para abordagens linguísticas que suplantem marcos anteriormente atingidos, ficando assim, comodamente assentado pelos arredores de sua pratica (técnica) razoavelmente bem aceite.

Leio, nas páginas do Abelardo Jurema, nota registrando a realização do festival do Bode Rei, nas terras do Roliúde Nordestino, criaçõ...

O irrequieto Wills Leal

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Leio, nas páginas do Abelardo Jurema, nota registrando a realização do festival do Bode Rei, nas terras do Roliúde Nordestino, criações do espírito irrequieto do amigo que já se foi do nosso convívio, criações essas que nas mãos de quem verdadeiramente sabe o que é turismo canalizaria alentados grupos, no mínimo, para se deliciar das delícias culinárias produzidas com partes dos súditos desse monarca, cuja realeza, quem sabe, logo também será transformada, no gostoso picado, que o pernambucano chama de sarapatel, que tanto nos delicia.

"Mestre, meu mestre querido! Coração do meu corpo intelectual e inteiro!”, estes versos são de um poema antológico do português F...

Um abraço de corpo inteiro

gonzaga rodrigues aniversario cronica literatura paraibana
"Mestre, meu mestre querido! Coração do meu corpo intelectual e inteiro!”, estes versos são de um poema antológico do português Fernando Pessoa, passando-se por Álvaro de Campos. Não sabemos quem é o mestre, mas o poeta revela dedicação que ultrapassa os limites do amor de pai, de tão grande que é essa veneração.

Ainda bem que restam uns dois ou três canais de TV franqueados ao filme documentário. Fraco das ouças, derreei sem graça na cadeira m...

Amélia e meus carretéis

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Ainda bem que restam uns dois ou três canais de TV franqueados ao filme documentário. Fraco das ouças, derreei sem graça na cadeira mais próxima, nesta segunda-feira, por não ouvir com a clareza desejável o telefonema de Guilherme Cabral — página em pessoa da pauta cultural de A União — a perguntar-me sobre os anos, esse amontoado já confuso de anos e de situações. Certamente como me sentia. Disse-lhe que me sentia sem culpa.

Não há como tapar o Sol com a peneira. A velhice nos empurra para a síntese, para o essencial. Viver, simplesmente viver, respirar, é o...

Gonzaga: um pai para mim

gonzaga rodrigues cronica literatura paraibana
Não há como tapar o Sol com a peneira. A velhice nos empurra para a síntese, para o essencial. Viver, simplesmente viver, respirar, é o que importa. Alguns velhos acham que tudo já foi visto, que tudo já foi dito, e que não se deve perder mais tempo com as coisas do mundo. É o momento do “silêncio das línguas cansadas”, na expressão do compositor Zé Rodrix, em uma de suas belas canções – Casa no campo.

Lá fora um sol abrasador das 17 horas. Sol alto, tardes longas. Pausa para o momento repousante e avaliativo. Escrevo em um café. So...

Em um café, Bolonha

Lá fora um sol abrasador das 17 horas. Sol alto, tardes longas. Pausa para o momento repousante e avaliativo.

Escrevo em um café. Sozinha.

A moça me recebe com um sorriso pendurado nos lábios.Nos entendemos bem - peço um cono de pistacchio e café.

Em levantamento estatístico realizado pelo respeitado Instituto de Pesquisa Suíço IMD (International Institute for Management Developme...

A intuição

espiritismo fenomenos semblantes intuicao
Em levantamento estatístico realizado pelo respeitado Instituto de Pesquisa Suíço IMD (International Institute for Management Development), em 1997 — portanto há mais de vinte anos —, constatou-se que 80% dos 1.312 executivos entrevistados, em nove países, admitiram que a intuição é importante ferramenta que deveria ser usualmente utilizada na formulação de estratégias e planejamentos empresariais. A maioria dos respondentes (53%) afirmou que recorria à intuição e ao raciocínio lógico em igual proporção, a fim de executar as suas atividades diárias. Em outras palavras, o “que eles estão dizendo é que administrar é mais do que contar, pesar e medir”.1

Se me fosse dado voltar no tempo, eu queria reviver um daqueles São-Joões da minha infância, em Campina, quando b...

Balões de antigamente

Se me fosse dado voltar no tempo, eu queria reviver um daqueles São-Joões da minha infância, em Campina, quando bastavam a fogueira e alguns traques e bombas chilenas para me fazer feliz. Naquele tempo não havia Parque do Povo nem se falava em “maior São-João do mundo”. A festa tinha a dimensão de nossos humildes desejos; mesmo discreta, ardia imensa em nossos corações.

A guerra e seus absurdos. Não bastam as incontáveis vidas perdidas nem os incalculáveis prejuízos materiais. A guerra e a violência q...

Tolstoi cancelado

extremismo guerra ucrania radicalismo medievalismo
A guerra e seus absurdos. Não bastam as incontáveis vidas perdidas nem os incalculáveis prejuízos materiais. A guerra e a violência que lhe é inerente terminam por afetar as pessoas das mais diversas formas, todas negativas. E, no entanto, os homens continuam a guerrear, como se ainda vivessem na mais remota antiguidade e não em pleno século XXI. Onde estão as Luzes, onde está a Razão, é de se perguntar qualquer um mais atento a tanto desvario.

Paraíba, 19 de junho de 2022

Pauta Cultural (Ep. 46)

Paraíba, 19 de junho de 2022

MULHER AMARGA-VIDA Esse olhar suspeito em meus peitos ― maravilhas americanas ― sob listras nacionalistas se confunde ...

Anotações sobre os super-heróis

poesia capixaba jorge elias neto super herois
MULHER AMARGA-VIDA
Esse olhar suspeito em meus peitos ― maravilhas americanas ― sob listras nacionalistas se confunde enquanto, alucinada, rodopio e visto minha tiara não sou sexo, não sou foda sou a sádica do chicote por fora dourada e dentro uma TPM do cacete.

Chegando o São João e minhas memórias retrocedem para 2013. Oh vida!! Cortes, ciclos, mudanças, guinadas, mas sobretudo aprendizados......

Memórias de uma despedida

saudade fatalidade sao joao
Chegando o São João e minhas memórias retrocedem para 2013. Oh vida!! Cortes, ciclos, mudanças, guinadas, mas sobretudo aprendizados... Daqueles dias juninos, há a foto de um quarteto de mulheres, como marco de vida, que testemunha o bem-estar vivido e compartilhado em três dias. As personagens: minhas sobrinhas Adriana, Maria Eugênia, Carolina e eu. O cenário: Campina Grande (Maior São João do Mundo) e cidades adjacentes.
Arq. da autora
Foram dias intensos, juntas, aproveitando cada momento, no "aqui, agora" daqueles instantes. Como curtimos e nos divertimos, longe de imaginarmos que toda apoteose da felicidade era, sobretudo, uma despedida.

Na música popular são muito comuns as parcerias na elaboração de canções. Nas composições feitas por mais de um autor, as contribuiçõe...

O cearense que engarrafava brumas

musica mpb humberto teixeira
Na música popular são muito comuns as parcerias na elaboração de canções. Nas composições feitas por mais de um autor, as contribuições dos parceiros se dão de diversas formas, mas, em alguns casos, o nome de um dos compositores se destaca tanto que acaba ofuscando a participação dos outros, o que faz com que a autoria da canção seja creditada unicamente a um deles. No Brasil, os exemplos mais representativos dessa situação — o “desaparecimento” do nome de um dos autores nos créditos das músicas que foram feitas em parceria – são os casos de Vadico, Newton Mendonça e Humberto Teixeira.

Sempre houve alguém de pé atrás com o herói. O próprio presidente João Pessoa, ao assumir o governo, criticou severamente a unanimidad...

A antiunanimidade

Sempre houve alguém de pé atrás com o herói. O próprio presidente João Pessoa, ao assumir o governo, criticou severamente a unanimidade, estranhando que a Paraíba do seu tempo não mantivesse um jornal de oposição.

Interessante é que o dono da situação era o seu próprio tio Epitácio, que recebeu, nesse primeiro dia, a primeira pancada: “A unanimidade não é uma boa conselheira” - está no discurso que D. Carmen Coelho recolheu no livro “A mansão da Praça Bela Vista”.

Diante dos novos desafios para construir um método que venha criar uma harmonia entre as áreas do conhecimento e nos relacionamentos...

Poesia e ciência

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Diante dos novos desafios para construir um método que venha criar uma harmonia entre as áreas do conhecimento e nos relacionamentos humanos, também entre os países, o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin (1921) afirma que “É preciso reagrupar os saberes para buscar a compreensão do universo", de forma a reorganizar uma unidade nas diversidades. Nesse contexto, deve-se aplicar esses novos conhecimentos na convivência humana e sensibilizar-se com a harmonia do Universo, porque o Cosmos foi criado a partir de suas próprias leis — e a natureza humana está contida nelas — que são descobertas pelas ciências exatas e humanas.

Não é raro acharmos em Os sertões , de Euclides da Cunha, páginas antológicas, como a do soldado morto, na guerra, e encontrado, mumi...

Os sertões de páginas antológicas

os sertoes euclides da cunha ensaio
Não é raro acharmos em Os sertões, de Euclides da Cunha, páginas antológicas, como a do soldado morto, na guerra, e encontrado, mumificado, três meses depois (“A Terra”, Capítulo III, p. 42 – Todas as referências são da edição crítica de Walnice Nogueira Galvão, reproduzida em Os sertões, 2. ed. São Paulo, Ubu/SESC de São Paulo, 2019), ou a descrição-narração das “primeiras bátegas despenhadas da altura”, que não logram atingir o solo e “se evaporam entre as camadas referventes”, mas com o cair contínuo torna-se enxurrada, “caos de águas revoltas e escuras...”, durante o período das chuvas sertanejas (Capítulo IV, p. 48). Nas demais partes da obra, “O Homem” e “A Luta”, encontramos outras tantas páginas, que mereceriam destaques, e deveriam estar sempre presentes na sala de aula. Veja-se, por exemplo, a conhecidíssima passagem do Capítulo III de “O Homem” (p. 115), que se abre com um perfil físico-psicológico do sertanejo, de que se destaca o maravilhoso oxímoro “Hércules-Quasímodo”.

      DOR O espinho da incerteza encrava uma dor no meu peito. Sem cura para o mal, a sedação da esperança não faz mais efe...

Cotidiano

poesia paraibana marineuma oliveira gruppo evocare
 
 
 
DOR
O espinho da incerteza encrava uma dor no meu peito. Sem cura para o mal, a sedação da esperança não faz mais efeito.

A verdade é que o homem, que já não sabe mais conviver com o semelhante, não conhece mais os sinais da natureza. Pior: perdeu completa...

Sinais da Natureza

ecologia mar lixo invasao meio ambiente
A verdade é que o homem, que já não sabe mais conviver com o semelhante, não conhece mais os sinais da natureza. Pior: perdeu completamente a capacidade de dialogar com ela. Pouca gente dá importância a coisas como a direção dos ventos, as fases da Lua, a posição do Sol, as estações do ano, as marés, as correntes marítimas. Para muitos jovens, solstício e equinócio são palavrões ou nomes de remédios para emagrecer.

Acho que era ela. A boca, o jeito dos cabelos e os olhos claros denunciavam os traços da juventude e, assim, os da menina de azul e bra...

Lembranças

nostalgia paraiba cronica
Acho que era ela. A boca, o jeito dos cabelos e os olhos claros denunciavam os traços da juventude e, assim, os da menina de azul e branco que percorria aquela calçada, a cada manhã, a caminho do Lins de Vasconcelos, nos idos de 1960.

Quando Val Kilmer diz que tem de escolher entre respirar ou falar é quase impossível não sentirmos um aperto gigante no coração. A fala...

''O que fazemos aqui?''

Quando Val Kilmer diz que tem de escolher entre respirar ou falar é quase impossível não sentirmos um aperto gigante no coração. A fala do ator está no documentário "Val", exibido pelo streaming Amazon.

Depois de ter passado por um intenso tratamento para curar o câncer na garganta, que lhe roubou definitivamente a voz, o astro americano vive hoje de participações em feiras comics e de pequenas apresentações para um público aficionado pelos

O relógio em seu tic-tac perceptível das horas escuras da madrugada se faz presente. Dialoga com o silêncio das coisas inanimadas que g...

Tempo que não cansa

tempo vida silencio
O relógio em seu tic-tac perceptível das horas escuras da madrugada se faz presente. Dialoga com o silêncio das coisas inanimadas que ganham vida durante o dia. À noite, o relógio marcha incontrolavelmente enquanto a corda lhe estira a vida, a pilha lhe conceder energia. Tic-tac que traz a névoa matutina, que levanta o Sol feito uma corda esticada até o outro lado do mundo e que libera o aparecimento da irmã Lua rasgando o mar e as nuvens. Tempo a desvendar o imperturbável andar da vida.

— E aí, amigo, esse telefone é seguro? — É sim. Cada vez que eu falo, troco o chip, e a cada dez ligações estou trocando o aparel...

Os próximos deputados

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— E aí, amigo, esse telefone é seguro?

— É sim. Cada vez que eu falo, troco o chip, e a cada dez ligações estou trocando o aparelho.

— Olha só, estou te ligando para fazer um acerto daquela última parada.

— Como assim? Eu mandei a parte do teu chefe e a tua, faz mais de dois meses...

Nestes dias chuvosos finalmente chegaram as chuvas para aliviar o calor quase senegalês que nos martirizou por um bom tempo, circulan...

Quo vadis, João Pessoa?

buraco rua descaso chuva administracao publica
Nestes dias chuvosos finalmente chegaram as chuvas para aliviar o calor quase senegalês que nos martirizou por um bom tempo, circulando pela cidade molhada somos levados a dar crédito de verdade ao que dizia, tempos atrás, um companheiro de batente, ao afirmar que o asfalto de nossas ruas tinha base de “bolacha cream cracker”, apresentando aquela mesma propriedade que a mídia exalta em um leite em pó, “desmancha sem bater”.

Padre Nuestro é um documentário colombiano de ficção produzido em 2015 e dirigido por Daniela Abad Lombana. A sinopse do filme foi pub...

''Padre Nuestro'' e a religiosidade na infância

sinopse filme religiao padre nuestro 2015
Padre Nuestro é um documentário colombiano de ficção produzido em 2015 e dirigido por Daniela Abad Lombana. A sinopse do filme foi publicada em espanhol no site da plataforma Retina Latina e traz as seguintes informações:

O seu amor ame-o ou deixe-o, livre para amar, livre para amar... Caetano Veloso Na juventude (mas nem sempre), por vezes a gente se...

Vulcão

reflexoes feminismo volta por cima paixao
O seu amor ame-o ou deixe-o, livre para amar, livre para amar...
Caetano Veloso

Na juventude (mas nem sempre), por vezes a gente se afasta de quem temos uma relação amorosa; da famosa força avassaladora da paixão. Achamos que podemos fazer a vida nos esperar. Mas a vida não espera. E, se queremos recuperar o tempo perdido, é preciso que se Corra Lola Corra para ver se ainda dá tempo de remendar o estrago. Na maioria das vezes não dá! Mas também que bom que se tem arroubos!

Meu pintor preferido é Gustav Klimt. Seus quadros me comovem e me arrebatam. É um gênio vienense. Viena, aliás, é um lugar profícuo ...

A banda da laranja

Meu pintor preferido é Gustav Klimt. Seus quadros me comovem e me arrebatam. É um gênio vienense. Viena, aliás, é um lugar profícuo em gênios: Wittgenstein e Freud se apontaram entre os seus habitantes. Na verdade, Klimt nasceu numa cidade perto de Viena, Baumgarten, em 1862, mas o seu palco foi mesmo a capital austríaca, onde estudou e trabalhou a maior parte da vida. Pintou maravilhas como “O beijo”, “Judith”, “A árvore da vida”, “A expectação”, “A satisfação”, “Água em movimento”, “Serpentes marinhas”, “A música”, “As três idades da mulher”, “Morte e vida”, “A esperança”, entre outros quadros encantadores. Adorava pintar mulheres. Retratou-as de todos os modos: vestidas, desnudas, provocantes, obscenas, grávidas, sedutoras, ternas. Para ele, a mulher era uma metáfora do mundo. Ele buscava traduzir a vida e seus sentimentos através das formas femininas.

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O feeling da notícia

A violência está insuportável? Então todas as polícias, numa colossal e imbatível força-tarefa, aparecem na telinha, nas primeiras páginas, em cadeias de rádio e em todos os sites, blogs, portais e tudo o mais, exibindo o resultado de uma megaoperação contra bandidos de alta periculosidade. A sociedade respira aliviada, começa a imaginar que existe de fato um aparato de segurança ágil e eficiente dando proteção a todos, dia e noite.