Começou em fevereiro o Clube de Leitura e Escrita: Fale mal, mas fale de você , da cronista e podcaster Tati Bernardi; inscrevi-me porq...

Com Tati Bernardi & Édouard Louis

Começou em fevereiro o Clube de Leitura e Escrita: Fale mal, mas fale de você, da cronista e podcaster Tati Bernardi; inscrevi-me porque gosto da Tati, ouço os seus muitos Podcasts, assim como ela, gosto de psicanálise (ignorante sou), e vi nesses encontros,
Tati Bernardi, escritora, roteirista e cronista paulistana. ▪ Instagram @tatibernardi
uma chance de conhecê-la mais de perto e trocar ideias com leitores de muitos cantos.

Já faço parte de dois Clubes de Leitura, o que me ocupa tendo que ler dois/três romances por mês, daí me desculpo com tantos que recebo e/ou compro, e que estou em atraso.

Claro que o formato do Clube on-line não dá para muita coisa. E já imaginava. Microfone fechado. Ela fala primeiro, um psicanalista depois, e no final, as pessoas se inscrevem para perguntas. Perdi o timing e só ouvi. O primeiro livro? Mudar: Método, do francês Édouard Louis, que Tati admira e tem livros e escrita no mesmo caminho- autoficção. Eu gosto. Os próximos livros: Melhor não contar, de Tatiana Salem Levi; Um romance russo, de Emmanuel Carrère; Becos da Memória, de Conceição Evaristo; Afetos Ferozes, de Vivian Gornick; e Paris é uma festa, de Ernest Hemingway.

Tati, acompanho há alguns anos. Gostava de ler a sua coluna da Folha de São Paulo, crônicas e resenhas de filmes e livros. Irreverente, ácida, um humor afiado, e fala de si a toda hora na escrita. Me identifico. A partir de mim, faço voos mais altos e mais longos. Adoro as edições do podcast “Desculpa o Transtorno”, com ela e o psicanalista Christian Dunker. E mais os outros: “Você não sabe o que sofri” (perdas amorosas), “Reparação Histérica”, “Meu Inconsciente Coletivo”, “Se ela não sabe, quem sabe” e o “Calcinha Larga” (mais antigo).

Christian Dunker e Tati Bernardi durante gravação do vídeocast/podcast Desculpa o Transtorno ▪ YT Tati Bernardi
Nesses podcasts, ouço famosos que admiro, artistas, escritores, e limitações de ordem psíquica que me iluminam os caminhos. Temas variadíssimos: mulheres, artistas, escritoras, atualidades, e a mente humana e as suas profundezas do mar sem fim.

O livro de ontem, foi um soco no estômago. Do autor, li algumas matérias da sua participação na Flip 2024, e assisti a uma entrevista magnífica no programa Roda Viva (TV Cultura). Também li, do autor, Monique se liberta e Lutas
Em Monique se liberta (2021), Édouard Louis acompanha a trajetória de sua mãe ao romper com um relacionamento abusivo e reconstruir a própria vida.
e metamorfoses de uma mulher. Os dois igualmente fortes. Edouard Louis, nascido na classe operária no norte da França, e numa pobreza e ambiente doméstico violento, pai alcoolista, mãe que sofre violência e é igualmente violenta, Edouard, um jovem branco, gay, que sofre muito bullying na escola e em casa, muda de cidade, de nome, de família, de tudo, para ascender socialmente. Logo cedo se conscientiza de que essa ascensão terá que ser feita através da cultura, mas não é tão fácil assim. Os códigos de classe transcendem fios quase imperceptíveis à sua vivência; códigos como andar, falar, cantar, entrar e sair, são carimbos que expõe de onde vens e para onde vais... Edouard desde sempre quis pagar o preço alto para quem narra a própria história. Nunca esqueço do romance autobiográfico de D. H. Lawrence, Sons and lovers, e a sua crítica feroz ao pai, mineiro da classe operária Britânica, e que mais tarde, faz uma re-leitura, admitindo o lugar de onde viveu como um lugar de questão de classe e opressão.

D. H. Lawrence (1885–1930), romancista inglês, autor de Sons and Lovers e O amante de Lady Chatterley.
Edouard faz o que é denominado de auto-socio-biografia, assim como a também magnífica Annie Ernaux (Os Anos, O acontecimento, Memória de Menina, Uma Mulher). Autores que têm nas suas narrativas pessoais, uma análise crítica sociológica.

A escrita de Louis, ele denomina como uma escrita de vingança. E para se vingar, terá que se afastar, principalmente da família e do lugar de onde vem. “Narrar para se salvar”! Como ele diz. Narrar para se conectar, por conta de um não pertencimento que dói, amargura e determina o destino das pessoas.
Édouard Louis, escritor francês, constrói uma obra marcada pelo relato autobiográfico e pela crítica às desigualdades sociais.
O não lugar que Edouard pertence é exatamente o seu lugar de escrita. Através da raiva e da vingança, ele é instigado a seguir adiante e ter a tão desejada mobilidade social.

Mas a vida não é uma linha reta. Menos ainda o que se chama de sucesso na vida e nas artes. Com as conquistas e o sucesso, Edouard se frustra com a vida de escritor e se pergunta: “Será que estou condenado a sempre esperar uma outra vida?” Se reconhece querendo voltar no tempo, sentindo falta do presente, da vida de antes, claro que não da violência, mas dos cheiros e das imagens:

“Não tenho saudade da pobreza, mas da possibilidade do presente... Sei que se voltasse atrás eu detestaria esse mundo, e ainda assim, sinto saudade dele.”
Nosso próximo livro? Melhor não contar, da escritora Tatiana Salem, que também escreveu A Chave da Casa e Vista Chinesa. Escritora de quem eu gostava de copiar seus pequenos ensaios do Jornal Valor Econômico, e levar para as minhas aulas. Textos teóricos, resenhas, críticas sobre assuntos da literatura. Teremos o luxo de ter Tatiana presente no encontro virtual. Já há alguns anos ela mora em Lisboa, cidade onde nasceu, durante o exílio de seus pais, em 1979.

Tatiana Salem Levy, escritora e ensaísta brasileira, nascida em Lisboa, destaca-se por uma prosa íntima e reflexiva, que articula memória, identidade e deslocamento.
E assim vamos de Clube de Leitura, que não é o de Jane Austen (como no filme), mas de tantas autoras e autores, mergulhando nas histórias e nas conversas literárias.

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