A luta dos agricultores por uma nesga de terra na Paraíba tem sido marcada pelo sangue, pela perseverança e pela fé. Em mais de cinco décadas, em muitas ocasiões, de forma contundente, a Igreja esteve presente, sendo “a voz dos que não têm voz”.
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A Igreja na Paraíba sempre se destacou na defesa das lutas sociais, na fraternidade e na caridade aos pobres e fragilizados, sobretudo depois do Concílio Vaticano II, que passou a olhar com mais atenção as questões sociais.
Entre tantos episódios guardados na memória do povo, desde o assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira, em 1962, que teve conotação internacional, passando pela eliminação de outros agricultores, como se deu com o Negro Fubá e, ainda bastante vivo nas mentes e nos corações, o caso de Margarida Maria Alves, cujo sangue ainda está espalhado pelas terras do Brejo da Paraíba.
Nem sempre os culpados tiveram a pena merecida, mas a justiça divina nunca falha; pode até demorar.
Na recente história da Igreja na Paraíba, tivemos bispos que, à luz da Palavra, com decisão, estiveram ao lado dos agricultores.
Quando estava na Arquidiocese da Paraíba, Dom Marcelo Carvalheira deparou-se com conflitos pela posse de terra, assim como havia acontecido com Dom José Maria Pires.
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Mas nunca esmoreceu: enfrentou a todos com destemor e coragem. Com o apoio da Igreja, as famílias resistiram e obtiveram êxito em seus pleitos.
Um fato marcante aconteceu na quarta-feira que antecedeu o Carnaval, no ano de 1996, quando, na capital da Paraíba, acontecia uma prévia carnavalesca com o Bloco Muriçocas. Naquela noite, enquanto as atenções estavam voltadas para os festejos de Momo e o resto da cidade dormia, pelo menos cem homens da Polícia Militar invadiram a Praça João Pessoa, na capital, em frente ao Palácio da Redenção, sede do governo, expulsando cerca de trinta famílias que estavam acampadas em processo de luta pela posse de um pedaço de terra.
Muitas das famílias, inclusive as crianças, dormiam e, acordadas aos empurrões e pontapés, pegaram o que puderam para tentar escapar. Jogadas em caminhões da polícia, foram levadas para galpões. A praça foi desocupada, e os destroços, recolhidos à luz do dia. As pessoas que por ali passavam pela manhã se perguntavam o que havia acontecido, diante do estado de destruição em que se encontrava o lugar.
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Acordado pelo coordenador da Pastoral da Terra, Frei Anastácio Ribeiro, Dom Marcelo chegou às pressas ao local, mas não conseguiu impedir a ação policial. Foi afastado pelos militares quando tentava entrar no Palácio da Redenção, sede do governo, para dialogar com as autoridades.
Na ocasião, travou diálogo por telefone com o governador José Maranhão, protestando contra o que estava sendo feito com as famílias que reivindicavam a posse da terra onde moravam.
Tempos depois, Dom Marcelo recordou esse episódio:
“Como é que os cristãos, olhando com o olhar de Jesus de Nazaré, como é que um pastor, que deve ter a inquietação do coração de Cristo, pode olhar para esse panorama humano sem sentir o coração rasgar? Miséria! Eu tenho compaixão dessa multidão. A gente começa com enorme
Margarida Maria Alves ▪️ œcptnacional.org.br
compaixão por este povo. Às vezes, eu me escondo para chorar e, às vezes, quando como, a minha boca fica amarga, porque a maior parte dessa população também não come. Mas é terrível! Agora, é claro que, ao lado disso tudo, talvez eu devesse ver também sinais de vida. Eu lhes digo que acredito mais na vida do que na morte”.
Entre os sinais da opressão contra os trabalhadores do campo, Dom Marcelo apontava a morte da agricultora Margarida Maria Alves como algo repugnante, ameaçador e desprezível, praticado pelos donos de usinas para amedrontar e calar a voz de todos que reivindicavam um pedacinho de chão onde pudessem plantar, colher, criar suas famílias e serem felizes.
Outros momentos marcantes fizeram dele um bispo que amava os pobres, pois estava ao lado dos oprimidos e amparava os necessitados.
Dom Marcelo costumava dizer que o pobre deve estar em primeiro plano para quem recebe o sacramento do serviço presbiteral ou diaconal.