Dizem que a mulher é sexo frágil
Mas que mentira absurda!
Eu que faço parte da rotina de uma delas
Sei que a força está com elas. Erasmo Carlos / Narinha. Mulher (sexo frágil)
O Dia Internacional da Mulher foi comemorado no dia 8 de março, mas a campanha em defesa da integridade da mulher deve ser contínua, não ficar restrita a uma data específica tampouco a um mês determinado. É bom, neste mês de março, relembrar mulheres nada frágeis que foram agredidas, massacradas e mortas, mulheres que partiram antes do tempo.
CCHLA UFPB ▪ Fonte: GMaps
Maria Cristina Batista da Silva, aluna do Curso de Letras da UFPB, foi uma delas.
Na consulta feita na homeroteca da Fundação Casa de José Américo, no jornal O Norte, dia 20 de fevereiro de 1990, encontrei uma breve notícia na parte Policial sobre o assassinato da jovem estudante. Dividida em três partes, a notícia apresenta foto da moça, da mãe e um alerta para a Reitoria da Universidade Federal da Paraíba quanto à segurança dos alunos.
A perícia criminal constatou que a jovem foi assassinada a pauladas e seu corpo jogado nas proximidades da empresa Enarq. Os assassinos estavam em uma camioneta Ford 1000 com placa não identificada. A camioneta foi seguida por outro veículo que passou em alta velocidade. Um vigilante que presenciou a cena acredita que os passageiros do carro estavam também vinculados ao crime.
Dez anos depois, os acusados do crime, jovens de famílias abonadas, foram ao júri e absolvidos por unanimidade. Os advogados dos réus alegaram falta de provas.
A mãe da vítima, senhora Amélia Humbelina Batista, conta que no sábado a filha saiu para se encontrar com umas amigas para uma prévia carnavalesca na Associação Atlética do Banco do Brasil. Antes de sair de casa, a mãe ouviu Cristina falando ao telefone com alguém e parecia aborrecida com a conversa. Ela não sabe com quem a filha conversou. A mãe lamentou a morte da estudante e revelou ao repórter que Cristina era a pessoa da família que trabalhava para garantir o sustento da família.
Dez anos depois, os acusados do crime, jovens de famílias abonadas, foram ao júri e absolvidos por unanimidade. Os advogados dos réus alegaram falta de provas. Sabe-se que o dinheiro e o prestígio social
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pesam mais do que a verdade dos fatos.
Remexendo velhos papéis, encontrei uma plaquete em homenagem à aluna da disciplina Literatura Infantil do curso de Letras, uma jovem de apenas 22 anos que trabalhava para ajudar a mãe nas despesas da casa e que foi brutalmente assassinada. Certamente ela pensava em dar melhores condições de vida à sua família depois de formada. Sonho desfeito e ignorado por aqueles rapazes.
Quando lecionava Literatura Infantil na UFPB, costumava levar bons livros de literatura infantil para leitura em sala de aula, comentários, resenhas. Escolhemos dois livros para esse tipo de trabalho – Classificados poéticos, de Roseana Murray e Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. Selecionei alguns poemas do livro de Roseana Murray e o poema “Leilão de Jardim”, de Cecília Meireles. A leitura dos poemas provocou um vivo interesse na turma, os alunos leram os poemas, dramatizaram e veio a tarefa: escrever poemas ou um texto em prosa poética seguindo os moldes de Murray ou de Cecília Meireles. O resultado foi positivo. Após a morte de Cristina, resolvi organizar uma plaquete com os textos dos alunos e dei o título de “Anúncios poéticos”.
Chamou-me a atenção os poemas da aluna Maria Cristina, ela escreveu não apenas um, mas quatro poemas, todos marcados por um clima nostálgico. Segue a transcrição dos quatro poemas:
Procura-se um sorriso
Procura-se um sorriso
que se perdeu ontem
por volta das cinco letras
A-D-E-U-S.
Pede-se a quem encontrar
favor não deixá-lo sumir novamente.
É muito valioso e nos faz muita falta.
Estes outros:
Precisa-se de uma roda gigante
Precisa-se de uma roda tamanho “gigante”
para que possa dar a volta por cima.
Procurar:
Largo da Decepção S/N
no horário da solidão e das lembranças.
Ligar: 224-9716
Vende-se um coração
Vende-se um coração
um coração amarrotado.
De tanta ilusão já ficou desgastado
mas ainda assim sente muita emoção.
Caindo aos pedaços
está para ser vendido
um coração sofrido
e cheio de embaraços.
Se acaso a alguém
Interessar possa
a obrigação nossa
é avisar: veja bem
Só procure o endereço
só entre em contato
se tiver muito tato
sensibilidade sem preço.
O último ainda é mais tocante:
Precisa-se de um ombro
Precisa-se de um ombro
de alguém que saiba ser amigo.
Um ombro onde se possa recostar a cabeça
e descansar das agruras da alma.
Para quem acredita em “histórias fantasmas”, Cristina deixou seu recado. É possível encontrá-la no Largo da Decepção S/N, no horário da solidão e das lembranças. Ela está à espera de alguém e à espera de um ombro amigo.
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A morte de Cristina causou comoção entre os colegas, professores e amigos. Era aluna também da professora Ângela Bezerra de Castro que revelou indignação com a brutalidade de sua morte. Maria Cristina era apenas uma moça pobre, uma estudante de letras, estudiosa e com previsão de um bom futuro. Os jovens que a mataram a pauladas não estavam interessados no seu futuro. O júri dos três acusados do assassinato só foi realizado 10 anos depois e todos foram absolvidos, de acordo com os advogados da defesa por falta concreta de provas.
Escrevi, no dia 1º de fevereiro de 1990, um poema em prosa para Maria Cristina que aqui registro. Ele se encontra na apresentação da plaquete Anúncios Poéticos:
(Re)vendo e (re)lendo Cristina
Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver.Carlos Drummond de Andrade. Desfile
Fale-me, Cristina, fale-me do seu sonho perdido, do seu coração amarrotado de tanta ilusão. Por que tão moça e com um coração tão sofrido e amargurado?
E o seu sorriso? Em que espelho ficou perdido?
Onde está o ombro amigo, o ombro que lhe dava proteção, que fazia esquecer as agruras da alma?
Por que roubaram a roda gigante que dava a volta por cima e trazia-lhe lembranças das vozes da infância?
Tudo isso pode ser encontrado nos poemas que você escreveu. Você deu o recado, mas não entendi.
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Quem quiser encontrar Cristina, seu coração e seu sorriso, vá até ao Largo da Decepção S/N, no horário da solidão e das lembranças. Ela está lá, espera por você.
Em tempo: A professora Sandra Raquew escreveu um artigo na revista de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba (Cultura Mediática) com o título Violência contra mulheres na Paraíba: uma análise da agenda-setting e discorre sobre dois crimes contra mulheres jovens: “Caso Cris” (1990) e Márcia Barbosa (1998).