Todos os dias, a cena se repete. Ao chegar em casa, sou muito bem recebido por ela. Ao ouvir a minha voz, ela se aproxima, a cauda dardejando no ar. Ao chegar aos meus pés, a cauda assume uma clave de sol, envolvendo a minha perna.
Luna Caprese ▪️ Acervo do autor
Aliás, esse é o ponto fraco de todos os felinos: a coceirinha na orelha. Eu lhe dou um conselho: se um dia você estiver numa floresta e se deparar com uma onça, não tente correr, pois ela o pega. Procure alcançar a sua orelha e coçá-la. A onça se derreterá aos seus pés!
Essa gata é Luna Caprese, que também atende pelo apelido Têichon. Este epíteto foi-lhe dado pela minha netinha mais nova, Maria Ilma. E pegou!
Têichon é a governanta da casa: ela é quem bota ordem nos outros gatos. Faz isso só com o olhar! Ela se posta num ponto elevado, de onde descortina o apartamento e todos os outros bichos.
Têichon ▪️ Acervo do autor
Vez por outra, a gata dispara ao longo do apartamento, provocando os outros bichos para correrem atrás, como se fosse uma brincadeira de “pega”. Geralmente, quem engole a corda é Merilú, que corre atrás dela, latindo.
Merilú e a prima Lulu ▪️ Acervo do autor
Merilú ▪️ Acervo do autor
Amiga fidelíssima, Merilú é o meu “tapete” de cor caramelo, quando estou na rede ou na minha poltrona. Louca por passeios no Parque Paraíba 4, aqui ao lado do nosso prédio, ela passa a tarde me seduzindo para descer. Corre até a coleira pendurada, late olhando expressivamente para mim e volta choramingando, até que finalmente eu a levo.
Ah, sim: ela é também muito inteligente; conhece várias palavras, como “passear”, “cadê a gatinha?”, “gato”, “comer”, “pega!” etc. Quando um dos gatos desaparece, eu peço, e ela o localiza pelo faro. E vem bem animada me contar onde o bichano está.
Merilú ▪️ Acervo do autor
Pela manhã, quando acordo e abro a porta do quarto, lá estão todos, aguardando. Até parece que estão ouvindo a nossa conversa por debaixo da porta. Que vergonha!
De tarde, quando me deito na rede para ler e usufruir da brisa, todos se aproximam e se deitam em torno. Lince é uma gata sui generis! Ela perdeu uma pata num atropelamento. Foi acolhida por minha filha Ana Laura, que também é apaixonada por bichos e providenciou a sua cirurgia. Depois, dedicou-se a cuidar dela no pós-operatório. Apegou-se à gatinha e adotou-a.
Lince ▪️ Acervo do autor
Embora tenha uma patinha a menos, isso não parece lhe fazer falta na agilidade, pois ninguém lhe contou isso: ela sobe e desce por todos os cantos do apartamento, corre para cima e para baixo, azunha aqui, mexe ali.
O seu maior prazer na vida é beber água corrente na nossa fontezinha ou numa pia, preferencialmente vertendo da nossa mão. Para isso, ela mia, chamando a atenção, até que eu ou Ilma vamos até a pia e deixamos a água correr. Aí ela solta alguns trinados e morde carinhosamente a minha mão. E sorve a água prazerosamente!
No entanto, fazendo jus ao seu nome, ela é muito arisca e um pouco antissocial, não tendo nenhuma aproximação com os outros bichos da casa. Ah! Há uma única exceção: ela só se dá bem com Merilú e se deixa cheirar por esta. Mas nada de carinhos, nada de intimidades. Até parece que é uma garota anglo-saxônica...
Luc Besson ▪️ Acervo do autor
Faísca, uma bonita gatinha preta, é muito feminina. Acho que ela tem alguma ascendência arborícola, pois só vive trepada nas cadeiras da mesa da copa, por baixo da toalha de mesa.
Faísca é um doce de pessoa. Extremamente carinhosa, especialmente com Luc, que vez por outra lhe lambe demoradamente o pelo — e vice-versa. A sua única manifestação de rara ferocidade é para com Lince. Sem motivo nenhum, sem nada que justifique, ela ataca a outra gatinha quando esta passa por baixo da mesa, seu território.
Luc Besson ▪️ Acervo do autor
Luc circula pela casa exibindo uma bela clave de sol o tempo todo, revelando o seu bom humor fidalgo. Ele passa também boa parte do dia deitado de costas no chão, em posição de “oração”, com as mãos postas. E dorme assim.
Estes dois últimos gatos pertenciam — digo, pertencem — ao meu filho Henrique, que os deixou passar uma temporada em nosso apartamento. Que maravilha!
Luc Besson e Faísca ▪️ Acervo do autor
Nas tardes de sábado, o nosso apartamento fica parecendo um festival de Tom & Jerry: o menino corre atrás da menina, a menina corre atrás da cachorra, a cachorra corre atrás da gata... Uma alegria! Mas, quando dá 7 horas da noite, boto tudinho para fora! Xô! Vão para as suas casas! Precisamos descansar!
Esses são prazeres que a vida me reserva, os quais desfruto agradecendo a Ilma, pois nada disso seria possível se ela, que não gostava de bichos, não permitisse que eu os criasse em nosso apartamento.
Hoje, eu até conto com a sua ajuda quando algum deles está precisando. Ela tem sempre uma pomadinha para aliviar uma coceirinha deles. Ou uma raçãozinha extra!
Ela aderiu ao encanto dessa segunda família. Garantiu a existência desse outro amor que me faz feliz. Por isso, reitero-lhe minha completa gratidão!

















