À custa de alguns tropeços, a vida ensinou-me a estabelecer limites no que diz respeito à ingestão de bebidas alcoólicas. Cometi alguns excessos, mas raros. Normalmente, não ultrapasso as fronteiras daquela euforia discreta e não me permito chegar ao território das inconveniências.
Assim, feitas essas considerações, vou ocupar estas linhas para minhas denúncias contra dois tipos insuportáveis: o bêbado raiz e o abstêmio xiita. São, na verdade, madeiras da mesma cepa, dois insuportáveis malas-sem-alça, dois chatos de galocha.
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Numa inocente reunião com amigos, batizados, casamentos, festas de aniversário, churrascos com os parças em um fim de semana e até papo em algum boteco, eles aparecem, surgem do nada como num passe de mágica. Mas é certo que irão aparecer, o bêbado e o abstêmio, não necessariamente nessa ordem. Um depois do outro, nunca juntos, pois se odeiam com todas as forças do ódio.
Vamos inicialmente ao bêbado, que chega sempre muitos copos à frente. Você está nos primeiros goles, e ele já está mais para lá do que para cá. Se houver muita gente no local, tento misturar-me aos demais, mas ele me acha. Grita meu nome bem alto para que todos ouçam. Depois, o abraço apertado, danificando a compostura de minha indumentária, e vai logo dizendo aos brados: “Meu amigo, quanto tempo, hein!”. Depois, irá me segurar pelo braço e fará o possível para não me soltar. Fala bem perto, e tem-se que suportar o péssimo hálito.
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Não demorará para chegar ao segundo estágio da bebedeira: o da depressão, dos arrependimentos, das saudades, das perdas e por aí vai, entre lágrimas e soluços, quando cogitará de meu ombro para encostar sua alma depauperada.
Já de farol baixo, sem forças para qualquer reação, vêm as indagações: “Você é meu amigão, não é? Posso contar com você nas paradas, não posso?”. E bate com a mão no lado esquerdo do peito (o dele) para que minha resposta não gere dúvidas. Depois, vem a fase escatológica e mal cheirosa, que é conveniente omitir.
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Agora, meu querido leitor, entre um bêbado raiz e um abstêmio xiita, fico com qual dos dois? Com o primeiro, pelo menos pode ser mais divertido. Eu acho.









