Irinêo Ceciliano Pereira da Costa — Irineu Jóffily (15/12/1843 – 08/02/1902) foi jornalista, redator, advogado, político, geógrafo, juiz e promotor de justiça. Fundou os jornais “Acadêmico Paraibano” (Recife/PE) e “Gazeta do Sertão” (Campina Grande/PB). Publicou as seguintes obras: “Notas sobre a Parahyba” (1892) e “Sinopses das Sesmarias da Capitania da Parahyba” (1893).
O nosso Estado deve o seu contorno geográfico atual graças aos trabalhos desse incansável pesquisador. Porém, não se sabe ao certo o seu local de nascimento.
GD'Art
Observe o leitor que alguns autores chegam a afirmar que Irineu Jóffily teria “nascido na casa das Lascas, Banabuyé, fazenda Lajedo, lugarejo de Pocinhos, hoje município de Esperança” (PBLetras: 2002; MELLO: 2012, p. 26), “no antigo caminho de Pocinhos (hoje município de Esperança)” (RODRIGUES: 1985 e Almanaque da Paraíba: 1973) — e, por vezes, em Pocinhos (R. IHGB: 1964, vols. 261/262; HUGO: 1959, p. 242), ou até mesmo em Campina Grande (CASTRO: 1955).
A nós parece que essas referências se devem ao fato de essas terras se situarem “em território da antiga freguesia” (ABREU: 1931 e RODRIGUES: 1962), cujos limites municipais foram alterados ao longo do século passado.
O seu neto, Geraldo Irineu Jóffily, assim esclarece:
“Vulgarmente vem-se atribuindo Pocinhos como berço de JÓFFILY. A confusão pode ser bem esclarecida com mais atenta leitura do prefácio de CAPISTRANO às ‘Notas sobre a Paraíba’: ‘O Dr. Irenêo Joffily nasceu em território da antiga freguesia de Campina Grande. É descendente pela linha dos primeiros
povoadores do sertão da Paraíba, os Oliveira Ledo. Na povoação de Pocinhos, da mesma freguesia, onde passou a sua infância, aprendeu as primeiras letras...’. Nada mais simples: nasceu, de fato, em território da antiga freguesia de Campina Grande, hoje município de Esperança, em virtude de vários desmembramentos; passando a sua infância em Pocinhos, o que também é verdade. Tenha-se como certo que o próprio Joffily devia ter fornecido tais dados ao prefaciador de sua obra, deixando de lado o exato ponto do seu nascimento para se referir apenas ao local onde, de fato, passou toda a sua infância; onde consta o registro do seu batismo e o óbito de seus pais” (JÓFFILY: 1965, p. 10 — negritei).
=== TEXTO DOS CRÉDITOS (GD'Art etc). ===
Geraldo, em seu livro Um cronista do sertão no século passado, ainda chega a reproduzir em foto a casa onde Jóffily nascera, no município de Esperança. E acrescenta: “Chamavam-na Casa da Pedra e teria, em 1943, uma placa comemorativa ao centenário desse nascimento” (JÓFFILY: 1965, p. 10).
Discussões à parte, é inegável que esse paraibano mantinha profundas relações com o município de Esperança. A sua família costumava passar “os invernos em um pequeno sítio à sombra de imensa rocha, que guarda um pouco de umidade para os terrenos do nascente. O local era conhecido por Banabuié” (JÓFFILY: 1977).
Na sua linha ascendente paterna havia Bárbara Maria da Pobreza — proprietária de terras no Sítio Gravatazinho, em Esperança, e metade do Sítio Oriá (Areial), nas testadas do olho d’água do Brabo —, de onde surge Manoel do Brabo, vaqueiro de confiança de Zé Luiz e responsável por levar o pequeno Irineu à escola do padre Rolim, em Cajazeiras.
Essa viagem fez brotar no garoto o seu amor pela geografia paraibana. A esse respeito, assinalamos a seguinte nota:
“A afirmar essa sua vocação exótica ou inesperada pela geografia está aquela sua primeira viagem que, por oito dias, fez, a cavalo, de Esperança a Cajazeiras, quando, ainda menino de 12 anos, ou seja, em 1855, foi, sob a guarda de Manuel do Brabo, internar-se no colégio do padre Rolim” (PBLetras: 2003, grifei).
Colégio Padre Rolim ▪️ Fonte: IPHAEP
Casara-se em Alagoa Nova com Rachel Olegária, filha do capitão João Martins Torres, criador de gado e proprietário das terras no Sítio Riacho Amarelo, em Esperança. Segundo os mais antigos, Jóffily vinha sempre a Esperança visitar o seu cunhado Bento Olímpio Torres, que residia no casarão construído no final da rua Banabuié (atual Silvino Olavo).
Em seu jornal Gazeta do Sertão, o escritor muitas vezes mencionava essas paragens. E, sempre que podia, referia-se ao topônimo de “Banabuié”, que, na sua livre opinião, deveria ter sido conservado, por mais auspicioso que fosse o seu nome atual (JÓFFILY: 1892).
O que não seria nada incomum, se considerarmos o fato de que este subscrevia sob o pseudônimo de Índio Cariry, sendo certo que essa nação indígena foi aldeada em Campina Grande, com ramificações em Esperança. Assim consta do Ciclo de Debates dos 500 anos do Brasil, promovido pelo IHGP, em abril de 2000:
“O cacique dos ariús chamava-se Cavalcanti porque já era batizado, e os próprios índios de sua tribo passaram a se denominar de cavalcantis. Os cavalcantis ficaram no centro de Campina Grande, enquanto os cariris ficaram na região de Esperança” (IHGP: 2000).
Condederação dos Índios Cariris ▪️ Fonte: @cgretalhos
Em Campina foram denominados de Ariús, e, em Esperança, receberam o nome de Banabuyés, conforme nos ensina o etnógrafo José Elias Barbosa (UFPB: 2009), em razão da data de sesmarias dessas terras, fixando-se nas proximidades do Tanque do Araçá.
A sesmaria de João da Rocha foi concedida em 1713 e revalidada em 1753 para a Sra. Rosa Maria, viúva de Balthazar Gomes, que a possuía há cerca de 40 anos,
Irineu Jóffily ▪️ Instagram; @memoriasparaibanas
com a denominação de “sítio lagoa Bonaboiji, por data que dele lhe fez seu pai João Gonçalves Seixas” (TAVARES: 1982, p. 229).
No jornal “Gazeta”, de Jóffily, encontramos ainda inúmeras referências locais, por exemplo: os logogrifos do professor da povoação esperancense Juviniano Sobreira (1888/89); a notícia de três assassinatos no Sítio Carrasco, motivada por uma questão de terras (1891); e o anúncio da Fábrica Progresso (1891), na rua da Gameleira, etc.
É o próprio Jóffily quem nos informa: “Esperança [...] era simplesmente uma fazenda de criação [...]”, onde “as gameleiras que a rua principal estava arborizada foram estacas dos currais da fazenda” (Notas sobre a Parahyba: 1892, p. 10).
Irineu, ao escrever para o Jornal do Commercio, detalha alguns preços da feira local, dignos de quem frequentava o lugar. Vejamos:
“Na feira de Banabuyé, importante povoação que daqui dista 6 léguas, vende-se farinha de macambira a 2$500 a medida de dez litros e aparas de xique-xique a 1$000” (Jornal do Commercio. Ano 79, nº 38. Rio de Janeiro/RJ: 1899).
Por fim, é interessante observar que, por ocasião do centenário de seu nascimento, realizou-se o “programa geral das comemorações — em Esperança, Pocinhos e Campina Grande” (A União: 1943).
A dúvida persiste!
* A UNIÃO, jornal. Edição de sábado, 27 de novembro. João Pessoa/PB: 1943.
* ABREU, João Capistrano de. *Ensaios e estudos: crítica e história*. Vol. I. Livraria Briguiet: 1931.
* CASTRO, Oscar de Oliveira. *Vultos da Paraíba — patronos da academia*. Dept. de Imprensa Nacional: 1955.
* HUGO, Victor. *Desbravadores: a história eclesiástica, no panorama social, político e geográfico do grande Rio Madeira*. Vol. 1. Edição da Missão Salesiana de Huanitá. AM: 1959.
* JOFFILY, Geraldo Irineu. *Um cronista do sertão no século passado: apontamentos à margem das Notas sobre a Paraíba, de Ireneo Joffily*. Comissão Cultural do Município, Prefeitura Municipal de Campina Grande: 1965.
* JOFFILY, Irineu. *Notas sobre a Parahyba*: fac-símile da primeira edição publicada no Rio de Janeiro, em 1892, com prefácio de Capistrano de Abreu. Vols. 1-2. Thesaurus Editora: 1977.
* LEITÃO, Deusdeti. *O Educador dos Sertões: vida e obra do Padre Inácio de Sousa Rolim*. Gráfica Estado do Piauí. Impressora e Editora Ltda. Teresina/PI: 1991, p. 68.
* MELO, José Octávio de Arruda (org.). *A Paraíba por si mesma*. Eduepb. Campina Grande/PB: 2012.
* PARAÍBA, *Almanaque da Paraíba*. Editora Almanaque da Paraíba Ltda. João Pessoa/PB: 1973.
* PBLetras, revista nº 03. Ano III. Ed. Antonio Soares. Campina Grande/PB: 2003.
* R. IHGB. *Revista trimestral*. Tomo XXIX. Parte primeira. Rio de Janeiro: 1866.
* R. IHGB. *Revista trimestral*. Vols. 261/262. Rio de Janeiro: 1964.
* RODRIGUES, José Honório; SILVA, Pontes da; ARAÚJO, Maria de Fátima. *Parahyba 400 anos*. Governo do Estado da Paraíba. João Pessoa/PB: 1985.
* RODRIGUES, Walfredo. *Roteiro sentimental de uma cidade*. Editora Brasiliense: 1962.
* SERTÃO, *Gazeta do*. Edição de 21 de março. Campina Grande/PB: 1890.
* TAVARES, João de Lyra. *Apontamentos para a história territorial da Parahyba*. Vol. I. Imp. Official: 1910.
* UFPB, revista nº 2. *Súmula Histórica dos Índios Cariris-Fagundes de Campina Grande, Paraíba*. Periódicos. Vol. 14, ano 33. UFPB. Campina Grande/PB: 2009.