A noite estava escura.. Lágrimas do universo banhavam a terra.
Um pacto foi feito depois que o resultado do teste foi conhecido. A decisão, tomada após longo diálogo, ditou que a SEMENTE seria arrancada, destruída, interrompida, assassinada.
Um pacto foi feito depois que o resultado do teste foi conhecido. A decisão, tomada após longo diálogo, ditou que a SEMENTE seria arrancada, destruída, interrompida, assassinada.
Prós e contras, consequências e promessas, todas as implicações daquela descoberta foram detalhadamente listadas.
GD'Art
Chegaria a época certa para acontecer.
A promessa foi velada. Dariam conta de fazer surgir “outra”. Quando? Quando pudessem viver o nascer, o viver, sem ter que provocar o morrer de situações, nem o despedaçar de corações.
Essa dívida com o universo, com a vida, com eles mesmos, seria quitada um dia.
A rotina voltaria aos poucos.
Vinhos, jantares, viagens, entregas, metas e planos supririam supostas dores que viessem a aparecer ou possíveis sentimentos de culpa que insistissem em alfinetar a mente e o coração deles.
Mas, e a SEMENTE?
Não se importavam, já que acreditavam não passar de algumas células que haviam se multiplicado a partir da junção dos seus pares.
GD'Art
Eles podem até permitir que outra ou outras sementes floresçam, porém jamais saberão como seria o cheiro, a forma, o som, o toque, os sentimentos daquela que ceifaram.
Se os autores dos dias de alguém podem decidir quem vinga ou não no jardim da vida, a vida tem o mesmo poder no jardim deles.
Ela pode deixar que sintam o amor incondicional transbordar em seus corações e, desavisadamente, lhes tirar a fonte da felicidade quantas vezes e quando quiser.
Para todo ato existe consequência. Fato!
A noite ficou com a escuridão mais densa devido à falta de energia. Sentada na sala, à luz de vela, ouviu um choro baixinho, quase imperceptível. Impossível, estava sozinha ali. Saiu do quarto sem fazer barulho; já bastava um acordado. O dia seguinte seria difícil.
GD'Art
Não acreditava em espírito, mas respondeu em tom de indagação:
— Oi?
— Sou eu, a SEMENTE. Perdão se meu choro te incomodou. Estava tomando coragem para falar contigo.
Ela, automaticamente, apoiou as mãos na barriga, como se assim fosse possível enxergar com quem estava dialogando.
— Não precisa falar. Deve estar exausta depois da conversa de hoje. Também já sei qual decisão vocês tomaram.
— Só me escute. Não vou me alongar.
— Lembra quando descobriu minha existência? Sentiu medo, ao mesmo tempo em que a felicidade invadiu teu coração por carregar um fruto do suposto amor que existia. Digo “suposto” por descobrir que ele não tem força suficiente para vencer os percalços relacionados durante a conversa de vocês.
— Sonhaste, mesmo por curto período, com um lindo futuro de passeios, brincadeiras no jardim, viagens e ensinamentos.
GD'Art
— Contudo, ao ouvires que não teríamos como dividir nossa convivência, que não existiria tranquilidade, dedicação, que não era o tempo certo, desististe de mim. Acreditaste que melhor seria adiar tua experiência de ser mãe e que ela viria novamente no tempo certo, quando a liberdade pudesse escolher.
— Sei que vai acontecer, só que nesse futuro não estarei. Há muito serei apenas um passado superado, um lembrete de um pacto assinado no caderno da consciência. A vida poderia até me enviar para outros universos, como faz diariamente com tantos como eu, mas, se assim agisse, despertaria em vocês a sede do “porquê”. A dúvida de um futuro com descendentes iria persegui-los até conseguirem vingar outra semente para finalmente serem chamados de “painho e mainha” pela árvore de vocês.
— Se sou menino ou menina, não posso dizer-te. Vocês estão com a razão: sou apenas uma SEMENTE, células em multiplicação, sem forma, mas já os amo pelo simples fato de me fazerem sentir o palpitar da vida.
GD'Art
— Tenho absoluta certeza de que sou capaz de fazer o amor se multiplicar em seus corações a cada centímetro que crescer aqui no teu útero e, quando chegar aí fora, farei mais ainda.
— Quando aprender a sorrir, a falar, a demonstrar meu amor até nas coisas mais simples que fizer, não conseguirão imaginar a caminhada sem minha presença.
— No Dia dos Pais, enquanto eu não souber escrever, você irá redigir cartinhas para painho dizendo o quanto o amo e das inúmeras coisas que pretendo fazer com ele. No Dia das Mães, receberás presentes e cartão dizendo o quanto és especial e amada. Eu posso trazer um monte de felicidade e paz para a vida de vocês, tenho certeza. Sinceramente, lamento não ser mais importante que as inconveniências que possam surgir na caminhada de vocês se eu estiver presente.
— Não vou ainda te dizer adeus.
— Estou torcendo, mainha, para que amanhã, quando estiveres com painho, tenhas coragem de defender minha vida.
GD'Art
— Como afirmaram, tudo será superado, o que foi prometido será cumprido. Onde estiver, irei torcer para que, na época de terem outra semente, a vida deixe ela vingar no jardim de vocês. Que ela os leve até a última estação de suas vidas, que não sintam a dor de viver o contrário; é o que desejo!
— Enfim, só queria te falar essas coisas. Prometi não me alongar.
— Amo vocês!
— Xeronocoração!
Eu, SEMENTE.













