Meu amigão sempre me perguntava "onde vamos hoje", sabado à noite. Eu sugeria algum lugar bacana e ele dizia: "pode ser". O local sempre foi o menos importante do encontro. Nosso objetivo era travar diálogos sobre tudo que viesse em mente, e conviver esse tempo que Deus nos deu em boa companhia.
GD'Art
Não saíamos à noite na intenção de colecionar cantadas. Isso poderia atrapalhar nossa conversa ativa e embalada sobre novas ideias. Ele tinha qualidades únicas: o ombro amigo, a cumplicidade, o aconselhamento útil e a disponibilidade rara. Era uma das maiores habilidades do Jairo. Mesmo sendo 15 anos mais velho que eu, travávamos diálogos atemporais e muito proveitosos. Ele sentava sempre à minha esquerda. Não por acaso, mas por uma teimosia de décadas: “Teu braço direito não funciona direito, então eu fico do lado bom para te proteger”.
GD'Art
GD'Art
As pessoas dizem que o tempo resolve. Mentira. O tempo ensina a carregar o peso com mais equilíbrio. Hoje carrego meu amigo nos gestos, no jeito de tomar café sem pressa, na mania de cumprimentar estranhos, na teimosia de rir de qualquer desgraça. Ele virou uma coleção de pequenas manias minhas.
A cadeira à esquerda continua vazia. É curioso como às vezes ainda sinto o cotovelo dele roçando o meu. E, nessa hora, peço mais uma cerveja e brindo baixinho, para quem não está ali, mas também nunca foi embora.
GD'Art
Procuro ser uma pessoa melhor com tudo que ele me ensinou, conto suas histórias para lembrar de sua presença. Tudo isso é para tentar aliviar a ausência de alguém que foi muito especial, e segue sendo, agora em pensamento, e que está a minha espera, em algum endereço que preciso aguardar um pouco mais para o próximo encontro.











