Meu amigão sempre me perguntava "onde vamos hoje", sabado à noite. Eu sugeria algum lugar bacana e ele dizia: "pode ser...

Não fazia parte

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Meu amigão sempre me perguntava "onde vamos hoje", sabado à noite. Eu sugeria algum lugar bacana e ele dizia: "pode ser". O local sempre foi o menos importante do encontro. Nosso objetivo era travar diálogos sobre tudo que viesse em mente, e conviver esse tempo que Deus nos deu em boa companhia.

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A politica nunca foi meu tema preferido, mas ele, muito participativo lá fora, me contava as novidades do governo e as novas falcatruas da semana. Comentávamos sobre as mulheres que desfilavam em nossa frente na balada, vaidosas e à espera de uma conversa educada. Porém, nunca fomos bons cantores nessa ópera, por vezes preferíamos rir pensando no próximo copo de cerveja.

Não saíamos à noite na intenção de colecionar cantadas. Isso poderia atrapalhar nossa conversa ativa e embalada sobre novas ideias. Ele tinha qualidades únicas: o ombro amigo, a cumplicidade, o aconselhamento útil e a disponibilidade rara. Era uma das maiores habilidades do Jairo. Mesmo sendo 15 anos mais velho que eu, travávamos diálogos atemporais e muito proveitosos. Ele sentava sempre à minha esquerda. Não por acaso, mas por uma teimosia de décadas: “Teu braço direito não funciona direito, então eu fico do lado bom para te proteger”.

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Era assim, com essa ironia doce, que ele justificava o lugar que ocupava em cada bar, cada mesa de restaurante. Ontem, entrei no boteco da esquina, pedi uma cerveja e, por um segundo, olhei para a cadeira vazia. Apoiei o cotovelo nela, distraidamente, como quem encosta numa cicatriz que dói quando o tempo muda. O garçom, velho conhecido, perguntou: “Só você hoje?” Eu disse que sim. Ele não perguntou mais nada. Trouxe dois copos. Foi aí que a crônica da vida me mostrou seu melhor e pior artifício: a gente continua fazendo as mesmas coisas, só que agora com o palco meio vazio.

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Pego o celular para mandar mensagem sobre um lance absurdo que vi na rua e, então, lembro que o Jairo não vai responder. Compro pastel de feira pensando em dividir e me dou conta de que não vou poder mandar pra ele. Ando rindo sozinho de uma piada que só ele entenderia, e aí o riso murcha antes de nascer.

As pessoas dizem que o tempo resolve. Mentira. O tempo ensina a carregar o peso com mais equilíbrio. Hoje carrego meu amigo nos gestos, no jeito de tomar café sem pressa, na mania de cumprimentar estranhos, na teimosia de rir de qualquer desgraça. Ele virou uma coleção de pequenas manias minhas.

A cadeira à esquerda continua vazia. É curioso como às vezes ainda sinto o cotovelo dele roçando o meu. E, nessa hora, peço mais uma cerveja e brindo baixinho, para quem não está ali, mas também nunca foi embora.

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A gente sabe que vai participar do enterro de parentes idosos que resolvem partir. Mas ir ao velório de um grande amigo? Isso não fazia parte da minha agenda. É tão doido quanto a despedida de um filho. Vão embora a cumplicidade e os segredos que ninguém mais saberá.

Procuro ser uma pessoa melhor com tudo que ele me ensinou, conto suas histórias para lembrar de sua presença. Tudo isso é para tentar aliviar a ausência de alguém que foi muito especial, e segue sendo, agora em pensamento, e que está a minha espera, em algum endereço que preciso aguardar um pouco mais para o próximo encontro.

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